Sampaoli, a esperança em meio ao caos

  • por Lucas Sousa
  • 6 Meses atrás

O futebol argentino vive tempos difíceis. Nos últimos anos, os bastidores da AFA (Asociación del Fútbol Argentino) protagonizaram episódios de corrupção e amadorismo. Desde intervenção da FIFA na direção da associação a greve dos jogadores dos clubes nacionais. Sem falar de uma eleição com número ímpar de votantes terminando empatada. Dentro de campo, os três vices consecutivos da Albiceleste somados a campanha ruim nas eliminatórias só aumentaram a pressão. Eis que neste cenário caótico a esperança renasce com Jorge Sampaoli.

O anúncio do novo comandante da seleção traz consigo a confiança nas vitórias, a expectativa por um jogo melhor e, principalmente, minimiza o medo de não estar na Rússia. Isso porque a chega de Sampa é quase a certeza de um grande trabalho dada às credenciais do novo treinador. Não falo de títulos, embora tenha conquistas relevantes enquanto esteve no Chile (Universidad de Chile e seleção) e um belo trabalho com o Sevilla, mas daquilo que o técnico pode oferecer ao futebol argentino.

O Sampaoli da Europa

Seu conhecimento do jogo é inegável. Bebeu da fonte de Marcelo Bielsa e Juan Manuel Lillo, desenvolveu o gosto pela posse, aprendeu sobre o jogo posicional e agora aplica essas ideias ao seu estilo. Principalmente, tem claros os conceitos que quer executar e sabe exatamente como treiná-los. Por conta disso não demoraremos a ver a identidade sampaolista na Argentina: jogo de posição, circulação rápida, aproximações e infiltrações, intensidade, pressão sobre a bola e a constante busca pelo controle da partida.

“A camisa nos obriga a um protagonismo desmedido” – Jorge Sampaoli

Em terras chilenas ou sevilhanas, Sampaoli assumiu responsabilidades incomuns para suas equipes. Agora tem a oportunidade e a missão de resgatar a estrela de uma bicampeã mundial. Munido de jogadores do mais alto nível, o novo treinador deve entregar o conjunto que essa geração sempre mereceu. Para a Argentina, não bastou ter os artilheiros Aguero e Higuaín ou meio-campistas como Di María e Pastore. Nem mesmo o maior jogador do século conseguiu levar a Albiceleste às glórias sem estruturas de coletividade. Dificilmente o futebol atual perdoa aqueles que veem o acúmulo de qualidade como suficiente para vencer.

Foto: AFA/Twitter Oficial – Messi, enfim, terá um conjunto na Argentina

Além de tudo que tem para agregar em aspectos táticos, Jorge Sampaoli carrega um componente fundamental para o esporte: comprometimento. É um trabalhador que se dedica intensamente ao seu serviço e exige o mesmo de seus jogadores, que, conquistados por ele, passam a acreditar e desafiar qualquer adversário. E este é o primeiro passo para formar times vencedores.

“Cada ser humano tem um sonho. O meu, desde que tenho uso da razão, era jogar ou treinar o meu país. Não pude jogar, porque minhas pernas me impediram. Sinto que tenho que ir diante da necessidade do meu país, tenho que estar lá” – Jorge Sampaoli, quando anunciou sua saída do Sevilla para assumir a seleção.

A competitividade marcará presença desde o primeiro jogo do novo técnico, embora seu modelo de jogo, marcado por conceitos elaborados, demandará tempo para ser plenamente executado. Ainda assim deve ser o suficiente para assegurar a classificação para a Copa do Mundo. A questão, então, ronda mais em torno do curto espaço de tempo para a maturação das ideias até junho de 2018.

Foto: AFA/Site oficial – Sampaoli já treina a seleção argentina

De qualquer forma, a Argentina parece ter encontrado um rumo, ainda que tardiamente. O quase forasteiro, que manteve seu país na fila das conquistas e deu ao vizinho Chile a primeira taça de sua história, chega para resgatar o orgulho albiceleste. Com conhecimento, dedicação e paixão, Jorge Sampaoli realizou o sonho de dirigir seu país. Agora mais de 40 milhões de argentinos renovam as esperanças de outra ambição: conquistar a Copa após 32 anos.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.