São vários os problemas no conturbado momento do Atlético

É indiscutível o fato de que o Atlético Mineiro é o clube cuja temporada mais surpreende no Campeonato Brasileiro 2017 — negativamente, diga-se. Consolidado no grupo dos principais times do país desde 2012, o alvinegro acumulou no período títulos da Copa Libertadores da América, da Copa do Brasil, da Recopa Sul-Americana, de algumas edições do Campeonato Mineiro, além de dois vice-campeonatos nacionais. Entretanto, tudo parece dar errado no momento. O elenco estelar não se acerta e tem passado vexames no antes temido estádio Independência. O Galo vive aquela que é provavelmente a maior crise dos últimos anos.

Transição: de Marcelo Oliveira a Roger Machado

2016 terminou de forma desanimadora para o Atlético. A perda da Copa do Brasil para o Grêmio, somada à queda brutal de rendimento na fase final do Campeonato Brasileiro (deixando a luta pelo título e ficando com a quarta colocação), foi sinal de que mudanças seriam necessárias no ano seguinte. Sem conseguir coordenar o time, Marcelo Oliveira perdeu o cargo de treinador do clube após a derrota na partida de ida da final da Copa do Brasil. O desequilíbrio do coletivo, voraz no ataque e frágil na defesa, foi a principal causa.

Foto: Bruno Cantini | O time não se encontrou com Marcelo Oliveira

O time do último ano já sofria com a falta de identidade. Não era mais possível lhe atribuir a conhecida alcunha de “Galo Doido”, criada no período em que o clube foi comandado por Cuca e que persistiu sob a batuta de Levir Culpi. Foi diante desse quadro que a direção alvinegra optou pela contratação de Roger Machado. Havia, na época, a expectativa de que fosse trabalhada nova filosofia na equipe, buscando maior controle das ações e jogadas mais coordenadas.

Apesar disso, a curta passagem do treinador gaúcho pelas Minas Gerais foi decepcionante. Essa conclusão é possível de ser feita, sem que seja necessário adentrar o mérito de sua demissão. O time, de muitos passes improdutivos, defesa exposta e inúmeros cruzamentos nas áreas adversárias, não chegou nem perto de emular o que o Grêmio treinado por ele conseguiu. É bem verdade que houve alguns momentos bons, como as finais do Campeonato Mineiro. Nada que mude a realidade global, marcada por resultados ruins.

Montagem do elenco durante o ano e flagrante desequilíbrio

Desde o início do ano, sabia-se que o elenco atleticano precisaria ser remodelado. Exceção feita aos garotos Yago e Ralph, o grupo só possuía um volante: Rafael Carioca. Por outro lado, estavam presentes três centroavantes: Fred, Lucas Pratto e Rafael Moura. O desequilíbrio era flagrante. O time foi ganhando forma ao longo do trabalho de Roger Machado.

Foto: Bruno Cantini | Elias foi uma das contratações do ano

Primeiro, chegou Elias, no final de janeiro. Adilson veio ao cabo de fevereiro e Roger Bernardo só se tornou opção em junho. Finalmente, em julho foi contratado Gustavo Blanco, jovem meio-campista que se destacou no América Mineiro, no primeiro semestre de 2017. Chegou à Cidade do Galo, ainda, Valdívia, em maio. Na contramão, Pratto foi vendido ao São Paulo, assim como Maicosuel, e Clayton trocado por Marlone (já em março).

Nesse tempo, o time também sofreu com muitas lesões, sobretudo de jogadores do setor defensivo (laterais, zagueiros e volantes), o que limitou ainda mais as alternativas do treinador Roger Machado. Ainda assim, ocorreram erros de avaliação cuja responsabilidade do treinador não resta isenta — exemplo claro foi a recorrente escalação concomitante de Robinho, Fred e Juan Cazares, jogadores de muito talento mas que acrescentam pouquíssimo, no momento defensivo.

Foto: Bruno Cantini | Adilson tem jogado bem, mas sofrido com problemas físicos

O que fica claro é que a cada jogo se viu um time atleticano diferente. Além disso, existe mais um problema: a equipe atual pode ser dividida em três grupos — o daqueles que podem jogar o brasileiro, o inscrito na Copa do Brasil e o outro na Copa Libertadores da América.

Há várias ponderações que precisam ser feitas.

Foto: Bruno Cantini | O jovem zagueiro Bremer entrou no time diante da necessidade e tem ido bem

Inexiste no elenco, por exemplo, um atacante com características de velocidade. Também não há um meia com capacidades de armação (tem-se volantes e meias ofensivos). Outro dado a ser considerado é o fato de que há muitos jogadores no elenco que superam os 30 anos e outros tantos muito jovens. Poucas figuras do elenco atleticano se encontram na faixa de idade que se considera, usualmente, como o auge de suas carreiras.

Tudo isso precisa ser levado ao debate no momento da atribuição de “culpas” pelo péssimo momento vivido pelo Galo.

Foto: Bruno Cantini | Robinho vive momento ruim

Demissão de Roger e aposta em Micale

Foi diante desse instável contexto que o presidente do Atlético decidiu romper a parceria com Roger Machado e fazer nova aposta, dessa vez no último campeão olímpico: Rogério Micale. Ex-treinador do time sub-20 alvinegro, retorna ao Galo para viver aquele que será seu primeiro grande desafio.

O momento dificilmente poderia ser mais pressionado, dado o fato de que o clube faz campanha péssima no Brasileirão e está em fases delicadas da Copa do Brasil e da Libertadores.

Foto: Bruno Cantini | Micale foi o escolhido para conduzir o time até o final do ano

Junto do retorno de Micale, Diogo Giacomini, que já era membro fixo da comissão técnica atleticana, foi efetivado como auxiliar técnico principal e terá a missão de, rapidamente, transmitir a realidade do clube ao novo comandante. Certo é que o criticado Rafael Carioca não deverá ser opção para ele; negocia com o Tigres-MEX.

Ausente qualquer trabalho como treinador profissional passível de ser utilizado como padrão para avaliação do que se pode esperar de Micale, trabalha-se com as ideias que vêm sendo afirmadas por seus ex-comandados:

Foto: Bruno Cantini | Gabriel foi treinado por Micale nas categorias de base

“A torcida pode esperar um cara muito batalhador, guerreiro, competente e um futebol muito bonito. O Micale tem características muito próprias. Creio que o trabalho dele no Galo será marcante. Tive o prazer e o privilégio de aprender muito com ele. Ele trouxe o ouro olímpico para nosso país”, revelou o zagueiro Gabriel ao Superesportes.

Os fatores extracampo

A despeito de tudo isso, os problemas do Atlético não ficam adstritos às quatro linhas. O presidente Daniel Nepomuceno só tem aparecido para tratar de um assunto: a construção de um estádio próprio para o Galo. É perceptível a falta que o falecido e saudoso Eduardo Maluf, ex-diretor de futebol, tem feito. Parece não haver comando e, muito menos, interlocução entre o time e a direção.

Não se trata de criticar a idealização de uma nova casa, muito pelo contrário, mas o mandatário alvinegro, ao contrário do que fazia seu antecessor, Alexandre Kalil, precisa dar maior atenção às questões do relvado.

Foto: Bruno Cantini | Com Daniel Nepomuceno, direção se distanciou do futebol

Até há ideias interessantes sendo trabalhadas na Cidade do Galo, como, por exemplo, a montagem de um time sub-23, para evitar o desperdício daqueles atletas que “estouram” a idade de juniores e também proporcionar a contratação de jovens com potencial e baixo custo, mas que ainda precisam ser lapidados. No entanto, o Departamento de Futebol do Atlético parece nesse momento jogado às traças — vive o oposto daquilo que alavancou o time, com a dobradinha Kalil-Maluf.

No momento, quem exerce atribuições semelhantes às de Maluf é André Figueiredo, diretor das categorias de base e recentemente elevado ao cargo de superintendente de futebol. Não obstante, sua atuação no trabalho com as divisões inferiores foi durante muito tempo criticada e sua escolha para desempenhar função ainda mais importante também é vista com maus olhos. A vinda de Micale tem muito a ver com a efetivação de Figueiredo, uma vez que a dupla trabalhou junta por muitos anos.

Outro ponto controverso, e que permite o questionamento com relação aos rumos do time, foi o manifesto apoio dos jogadores a Roger Machado e a crítica a sua demissão.

Foto: Bruno Cantini | André Figueiredo (à dir.) é o responsável pela superintendência de futebol do Galo

Em entrevista coletiva, Fred relatou que os jogadores se sentiram “responsáveis pela saída do Roger”. Por sua vez, em comunicado feito por meio de redes sociais, o capitão Leonardo Silva mencionou que “aconteceu a despedida do Roger e, embora não tenhamos concordado com a demissão, respeitamos a decisão da direção”. Ainda que os discursos estejam aparentemente alinhados, está evidente o desconforto com a situação vivida, o que vai além dos maus resultados dentro do campo.

Nesse momento, é impossível individualizar culpas. Em sete meses, as ideias de Roger Machado não se encaixaram a um grupo de jogadores em constante mutação. Fora dos campos, o presidente parece distante do Departamento de Futebol, que por sua vez aparenta inexperiência e insegurança. Somando-se a isso a dificuldade de adaptação de alguns jogadores, escolhas ruins e muitas lesões, tem-se, devidamente pintado, o quadro atual do Atlético Mineiro. Trata-se de um clube que após anos de calmaria — marcados, sim, por pequenas crises, mas ainda assim, resolvidas — volta a viver momento de indefinições.

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Advogado graduado pela PUC Minas, pós-graduando em Direito Desportivo e Negócios do Esporte, 24 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no "O Futebólogo", meu blog, e no "Bundesliga Brasil".