Everton em busca de uma nova identidade

  • por Victor Gandra Quintas
  • 28 Dias atrás

Novo time, mesma mentalidade

Se tinha um time na Inglaterra que poderia ser a grande surpresa da temporada era o Everton. Depois de anos no ostracismo, brigando por coisas pequenas, no meio da tabela da Premier League, o time azul de Liverpool resolveu, finalmente, investir na sua formação, abrindo os cofres e contratando bons atletas para, então, buscar uma vaguinha nas competições europeias com mais tranquilidade.

Bem, seria, não fosse o desempenho neste início de temporada.

O treinador

Ronald Koeman é muito bom treinador. Trazendo na bagagem o histórico de grande vencedor da época de zagueiro, se qualificou como técnico depois de boas temporadas, e alguns títulos, na Holanda, onde nasceu, tanto por Ajax quanto no PSV.

Na Inglaterra debutou pelo Southampton, onde implementou uma qualidade de jogo diferenciada, mais ofensiva e com toque de bola. Boas campanhas no time do sul atraíram os olhares da diretoria do Everton, que buscava novo treinador após a saída do espanhol Roberto Martínez e de suas fracas campanhas.

Em sua primeira temporada, conseguiu colocar o Everton na Liga Europa depois de anos fora das competições continentais. Aproveitando jovens jogadores, inclusive com a revelação do bom Tom Davies, que organizou o meio campo, ao lado do melhor da temporada Gueye.

Então, quando o clube anunciou novos patrocínios, e que poderia investir bastante nesta temporada, a torcida vislumbrou novos voos.

O fator Wayne Rooney

Para tentar alcançar os novos objetivos, vários jogadores foram contratados. O principal destaque foi o retorno de Wayne Rooney, que saíra jovem do Everton para ser ídolo no Manchester United.

O atacante não vinha em sua melhor fase nos diabos vermelhos. Estava em baixa e, a mudança de clube poderia ser muito boa para ele. Acreditando nisso, somando-se a identificação do atleta com o clube, a transferência foi concretizada.

Contar com um atleta de nível mundial só trouxe louros ao Everton. A visibilidade do clube aumentou, ganhando mais as páginas dos grandes veículos de imprensa (inclusive aqui no Brasil). Ter Rooney no elenco também ajudaria a contratar jogadores mais conhecidos, pois evidenciava a ambição dos Toffies.

Mas a chegada de Rooney não rendeu somente marketing, mas também futebol. O “Shrek” contribuiu muito com a classificação do time para a fase de grupos da EPL, marcando gols e demonstrando liderança em campo. Os primeiros passos estavam dando resultado.

Outros reforços

A lista de reforços foi extensa. A busca por melhor o elenco foi grande. O Everton entrou no mercado provando que não estava para brincadeira. Para tanto, o clube dispendeu quase 160 milhões de euros. Este valor é proveniente das saídas de Lukaku para o Manchester United, por 84,7 milhões, além de Deulofeu, comprado de volta pelo Barcelona por 12 milhões, e Cleverley, que mudou para o Watford por 9,3 milhões.

Ainda , além do montante oriundo das negociações, o Everton fechou com a empresa queniana de apostas SportPesa, além da empresa do “Angry Birds“, acordo este que irritou parte da torcida, já que a cor do personagem do jogo é o mesmo do maior rival do clube, o vermelho Liverpool.

As caras novas

Para a vaga do artilheiro belga, que desejava deixar o time, o Everton contratou o ex-goleador do Málaga, Sandro Ramirez, por uma 6 milhões de euros. De graça, além de Rooney ao final de seu contrato, chegou também o lateral Cuco Martina, ex-Southampton, para opção ao Coleman, que sofrera grave lesão na temporada passada e só deve retornar em 2018.

Todos os setores passaram por upgrades. Na defesa, o promissor goleiro Jordan Pickford (chegou por 28,5 milhões do Sunderland) e do disputado zagueiro Michael Keane (por 28,5 milhões do Burley). No meio campo o holandês Davy Klasseen, que veio de excelente temporada pelo Ajax, fechou por 27 milhões, e o islandês Gylfi Sigurdsson, um dos melhores meias da EPL, fechou por valor recorde de 49, 4 milhões, proveniente do Swansea.

Para fechar a conta, os extremos nigeriano Henry Onyekuru, do Arderlecht por 8 milhões (e continuará no clube belga por elo menos uma temporada), e o croata Nikola Vlasic, ex-Hajduk, por 10,8 milhões. O jovem de 19 anos enfrentara o Everton nos playoffs da EPL.

Assim, com um elenco mais reforçado, com a manutenção de jogadores importantes como Baines, Gueye, Shcneiderlin, Tom Davies, Bolasie e Barkley (que pedira para sair mas, enquanto fazia exames para fechar com o Chelsea, desistira da transferência), o time tinha tudo para fazer uma boa temporada.

A realidade

Tinha tudo para fazer uma boa temporada, mas as primeiras partidas têm deixado os torcedores do Everton preocupados. Apesar de conseguir a vaga na EPL, passando pelos playoffs, em nenhuma das partidas o time brilhou, ganhando por placares mínimos quando deveria ter demonstrado domínio total contra equipes muito inferiores. A derrota por 3×0 para a Atalanta, já na fase de grupos, demonstrou a inconsistência do time.

Mas é na Primeira Liga Inglesa que a coisa assusta. Verdade seja dita que a temporada mal começou, e que a tabela inicial do Everton é bastante complicada. Mas a forma que o time tem se mostrado dentro de campo está muito aquém da nova mentalidade que se acreditava que teria. Em cinco jogos foram 4 derrotas (nas últimas partidas) com 12 gols sofridos e apenas 1 marcado.

Uma análise que podemos fazer das contratações, já imediatamente, é a ausência de jogadores prontos para atuar pelas postas. Não seria um problema, se Koeman não fosse adepto de atuar com jogadores nesta posição. Sigurdsson, Klasseen, Rooney, Davies, Barkley (ainda indisponível), todos atuam melhor no centro de campo. Mirallas não consegue ser o protagonista da posição, Calvert-Lewin e o recém-chegado Vlasic ainda é jovem para se garantir titular. Bolasie está machucado e só deve voltar ano que vem. Assim, Sigurdsson e Klasseen tem, por vezes, atuado por ali, mas nenhum dos dois tem velocidade ou familiaridade com a posição, sendo sacrificados.

Dificuldades defensivas

Mas o pior setor é a defesa. Mesmo com o reforço selecionáveis Pickford e Keane, seus companheiros de defesa deixam muito a desejar. Martina ainda não se acertou e tem feito os torcedores dos Toffees se desesperarem para ter Coleman de volta. Baines ainda tem atuado bem, mas nenhum companheiro de Keane tem passado confiança; Jagielka não é o mesmo há muito tempo e Williams alterna entre partidas ruins com péssimas. Outra opção é Holgate, que atua tanto no centro quanto na direita da defesa, mas tem ido mal em qualquer uma.

A variação de esquema de Koeman tem confundido mais os seus atletas do que aos adversários. Ora a linha de 4 na defesa, ora com 3 zagueiros, é impossível vislumbrar um entrosamento entre os jogadores se há sempre essa inconstância.

Koeman, de um bom treinador, mesmo garantido na posição, já tem gerado desconfiança entre os torcedores. E todos estes problemas passam pela mentalidade do time. Parece que o elenco acredita que deve entrar em campo apenas evitando uma derrota, e não partir para cima do adversário. Não é diferente quando atuando em casa.

Enquanto o Everton não acreditar que pode ser vencedor, que seus líderes proponham isto, aliada a um esquema que corresponda aos atletas disponíveis, nada vai mudar.

Uma luz que se acende

Depois de uma sequência bastante difícil, o Everton terá agora a chance de tentar crescer e justificar seus planos. Após boa vitória sobre o Sunderland na Copa da Liga, o time terá mais três jogos em casa, depois sairá para enfrentar o recém-promovido Brighton e volta para Goodison Park para novo jogo da Europa League. Tem tudo para, enfim, fazer bons jogos e dar estabilidade ao elenco.

Calvert-Lewin foi o destaque do time, com dois gols nos 3×0 sobre o Sunderland. Ponto positivo também para o meio-campo, que funcionou mais no 4.3.3 utilizado pelo Koeman. Mas temos que lembrar que a Copa da Liga não é um torneio muito competitivo, e o Suderland está na Championship, a segunda divisão Inglesa. Mas, de toda forma, uma vitória ajuda o time a ter mais confiança. É um começo!

Outro ponto positivo foi a presença de Jonjoe Kenny. O lateral direito teve nova oportunidade e fez boa apresentação. O jogador, que pe um dos destaques do time de juniores, vinha sendo pedido pela torcida, ainda mais com a ausência de Coleman e as péssimas partidas de Martina. é provável que o jovem tenha mais oportunidades.

Futuro

Portanto, e apesar de tudo, o Everton ainda pode ter uma boa temporada. Estamos no início e o elenco é muito superior ao dos anos anteriores. Com uns 2 reforços em janeiro (um zagueiro e um ponta) e os retornos de Coleman e Bolasie, o time pode melhorar.

Seria interessante, portanto, que Koeman optasse por colocar o time centrado no toque de bola, fazendo com que a equipe mantenha o domínio do campo, aproveitando as qualidades da dupla Sigurdsson-Klasseen e da técnica de Rooney mais à frente.

Manter o 4.3.3 do jogo contra o Suderland seria promissor, mas depender dos pontas que tem no elenco é muito complicado. Calvert-Lewin é muito promissor, seria uma carga grande exigir do jovem que assumisse a responsabilidade. Além dele, uma opção seria Mirallas de um lado, Sandro Ramirez de outro com Rooney na referência, mas sabemos que o capitão atua melhor como segundo atacante e que o espanhol fica mais confortável no centro de ataque.

Portanto, o ideal, hoje, seria um time escalado com Pickford; Martina/Kenny, Keane, Williams, Baines; Gueye, Schneiderlin, Sigurdsson, Klasseen; Ronney e Sandro Ramirez. Uma losango onde Rooney flutue do meio ao ataque com Sandro ora para os lados, ora como referência no ataque. A presença dos 2 volantes de marcação daria mias cobertura ao frágil setor defensivo, sobretudo nas saídas ao ataque de Baines e principalmente Martina, que o que ele sabe fazer de melhor. Esta formação talvez não fosse a ideal, mas Koeman tem que mudar seus princípios e optar pelo óbvio. E, claro, acreditar que pode jogar melhor do que vem atuando, enfrentar todo de igual, principalmente jogando em Goodison Park.

Everton - Football tactics and formations

Comentários

Natural de Belo Horizonte. Torcedor do Cruzeiro e da Juventus. Um Doente por Futebol. Desde pequeno um apreciador do esporte mais popular do mundo, preferindo mais em acompanhar do que jogar (principalmente por não ter talento algum com a bola).