Marcelino Garcia Toral e a ressurreição do Valencia

  • por Victor Mendes Xavier
  • 10 Dias atrás

Os últimos dois anos foram complicados no Valencia. Troca de treinadores em demasiada frequência (chegou a ter quatro comandantes durante 2016/2017), crise administrativa e financeira, más campanhas na Liga Espanhola e humilhações na Copa do Rei. A palavra “paz”, que perdurou durante boa parte de 2014/2015, sumiu do dicionário ché. Quando o empresário Peter Lim, magnata de Cingapura, comprou 70,4% das ações do clube em 2014, a expectativa dos torcedores quanto a uma maior ambição no mercado e competitividade dentro de campo naturalmente cresceu. Quatro anos depois não dá para dizer que Lim cumpriu à risca os objetivos iniciais. A primeira promessa foi de quitar as pesadas dívidas que a gestão anterior acumulou: mais de R$667 milhões com o banco Bankia e aproximadamente R$300 da Fundação VCF, antiga dona do clube. Nada disso foi concluído.

Como consequência, os déficits após cada fim de ano foram maiores, o que gerou uma sanção por parte da Comissão Europeia de Futebol (obrigando o clube a gastar €23 milhões), perda de patrocinador e queda de aproximadamente 20% nos direitos audiovisuais que recebia das televisões espanholas, além da diminuição nas vendas dos carnês dos sócios para as partidas de Liga e Copa. Dentro de campo, os resultados eram vexatórios. Na temporada passada, a equipe sofreu derrotas humilhantes no Mestalla para Las Palmas (2×4), Eibar (0x4) e Celta Vigo (1×4), este pela Copa do Rei, quando foi eliminado na terceira fase, sofrendo uma acachapante goleada de 6×1 na soma dos resultados. Foram mais de quatro meses sem vitórias pelo Campeonato Espanhol, entre 2 de outubro e 15 de janeiro, totalizando 11 jogos.

Foto: Site Oficial do Valencia | Peter Lim, empresário de Cingapura, comprou 70,4% ações do Valencia em 2014. Três anos depois, relação com torcida encontra-se desgastada

Quando pediu demissão, três meses após assumir o cargo técnico, Cesare Prandelli disparou: disse que a gestão estava “obcecada por números” e que queria censurar parte da imprensa. Prandelli, inclusive, afirmou que havia uma “lista” de jornalista mal vistos que não poderiam entrar mais no Mestalla para cobrir os treinamentos e jogos. A resistência, acreditem, foi estendida até para os torcedores, já que o italiano acreditava que uma solução para apaziguar a crise seria abrir os treinamentos para a torcida. Pedido não atendido.

Mas o estopim da revolta dos aficionados foi o desleixo quanto às contratações na janela de transferência. E não foi à toa. André Gomes, Mustafi, Barragan, Javi Fuego e Paco Alcácer, parte da espinha-dorsal do competitivo time de Nuno em 2015, foram embora, gerando uma receita de €106 milhões. Destes, apenas €29 foram utilizados para reforçar o elenco, com as compras de Garay, Medrán e Nani. Reforços como Munir, Montoya, Mangala, Zaza e Orellana chegaram em Paterna por empréstimo ou à custo zero e, dentro de campo, não corresponderam à altura dos antecessores.

Peter, canalha, fora do Mestalla“, era um dos cânticos. “Deixe o Valencia em paz“, dizia outros. O Valencia parecia fadado a um horizonte negro. Parecia. Porque, mais do que vencer a instabilidade institucional, o time precisava de um homem para apagar o incêndio dentro de campo. E a luz no fim do túnel começou a aparecer (bem lá no fundo, é verdade) quando Marcelino Garcia Toral foi anunciado como novo treinador para a temporada 2017/2018. O currículo de Marcelino passa tanta credibilidade que, de uma forma ou outra, o “miticismo” que envolve sua figura começou a marcar o futuro do Valencia dentro de campo. Basta ver seu último trabalho até então, no Villarreal. Marcelino assumiu no período mais delicado da história recente do Submarino Amarelo, com a queda para a segunda divisão em 2013. Em três anos de trabalho, conseguiu o retorno à primeira divisão, uma semifinal de Liga Europa e uma vaga na Liga dos Campeões da Uefa.

Em 2006/2007 fez uma campanha histórica com o caçula Recreativo Huelva, que terminou o Campeonato Espanhol na oitava colocação, seis pontos atrás do Atlético de Madrid, último time da zona de Copa da Uefa. O auge foi a vitória no Santiago Bernabéu contra o Real Madrid por 0x3, um dia após Cannavaro ser eleito o melhor jogador do mundo. Naquele dia, a intensidade, a solidez defensiva e as velozes transições armadas pela então promessa Cazorla e finalizadas pela dupla de ataque Uche e Sinama-Pongolle dinamitaram um Real que não sabia o que fazer para conter o jogo andaluz.

A partir dali, o esquema 4-4-2 e as características que levaram o Huelva a ser aplaudido por mais de 60 mil torcedores presentes no Bernabéu tornaram-se propriedades da carreira de Marcelino. Voltou a fazer história um ano depois, dessa vez no Racing Santander, que chegou a uma inédita semifinal de Copa do Rei e conseguiu uma vaga na Copa da Uefa, sendo o sexto colocado com 60 pontos, quatro a menos que o Atlético de Madrid, último time do G4 da Champions League.

Voltando ao Valencia, a bem da verdade, o precursor de Marcelino, se não foi perfeito, ao menos conseguiu ter momentos de alívio que Prandelli e, depois, Gary Neville não tiveram. No pouco tempo que ficou, Voro González deixou uma base consistente a nível tática e encontrou soluções para problemas individuais que já estão tendo continuidade com Marcelino. Em outras palavras, melhorou o Valencia como equipe. O ataque ganhou mais eficiência, a aposta por Carlos Soler (promessa da base) mostrou-se correta e até mesmo o miolo de zaga, tão vulnerável, passou a convencer. E foi esse final de temporada que “pacificou” (se é essa, de fato, a palavra correta a ser utilizada) a relação ‘torcida-diretoria’. Não que, de um dia para o outro, os torcedores esquecessem todos os males da gestão de Peter Lim, mas o desempenho relativamente bom junto das contratações mais gananciosas no verão sossegaram esse convívio.

Ademais, boa parte das chegadas encaixavam-se no perfil de nomes que poderiam validar o estilo de Marcelino. Casos de Murillo e Gabriel, zagueiros de área, ou Kondogbia, volante de ida e volta. A vinda de Neto como reposição à saída de Diego Alves no gol também foi visto com bons olhos, assim como os empréstimos das promessas Andreas Pereira e Gonçalo Guedes. Dentro de campo, a pré-temporada já foi um sinal de mudanças, mas é este início de La Liga que muda paradigmas. Três jogos podem até ser poucos, mas a convicção de estamos diante de um belíssimo time é cada dia maior. Mais do que os bons resultados (empates contra Real Madrid no Bernabéu e Atlético de Madrid no Mestalla), o “novo” Valencia passa a sensação de frescura com e sem a bola. Muito por causa da fluidez que passa a sua segunda linha de quatro. Kondogbia, Soler e Andreas jogam à ritmo alto nos 90 minutos, mas com uma eficácia assustadora. E toda eletricidade é gerida por um cerebral Dani Parejo, aquele que, na opinião deste que vos escreve, poderia ter um status muito maior se o tempo fosse mais benevolente com sua carreira. Parejo possui uma sensibilidade para manejar o tempo de acordo com o que lhe convém que, com companheiros e/ou times melhores, seguramente renderia muito mais elogios. A prova disso é a destacável partida que fez há três semanas contra o Real, contra Modric, Kroos e Isco. Ou, até mesmo, a exibição de 2014 contra o Barcelona no Camp Nou, contra Xavi, Iniesta e Fàbregas, comandando o Valencia a uma vitória por 2×3.

Foto: Site Oficial do Valencia | O subestimado Dani Parejo foi um dos grandes meio-campistas da Liga Espanhola em 2015

Defensivamente, o sistema do Valencia prioriza a proteção de espaço em vez do roubo. Por isso que Kondogbia caiu como uma luva. O francês é dotado de um físico diferenciado e permite o time pressionar e a dupla de zaga com Murillo e Gabriel ou Vezo fixarem suas posições atrás, passando mais consistência à meta de Neto. Ou, quando as linhas estão recuadas, enquanto os outros compactam, Kondogbia pode sair para morder e cortar o ritmo do adversário, algo que colocou o Real Madrid num cenário muito desconfortável mesmo com toda a qualidade do seu meio. A atitude e ordem na retaguarda é o segundo lapso que constata o nascimento de um projeto sério. A pouca pegada da dupla de ataque certamente é alarmante, embora o trabalho de Rodrigo e Zaza indique uma evolução. O italiano já fez partidas de méritos atuando fora da área, mas falta-lhe autossuficiência para os contra-ataques quando o Valencia estiver em momento de transição.

É cedo para querer cravar se o Valencia irá voltar à Liga dos Campeões em 2018, e a ausência de qualidade sobretudo na área ofensiva indubitavelmente vai levar o time a tropeços; no entanto, a segurança, o controle e a consciência do sistema e dos jogadores somadas à recuperação da auto-estima vinda das grades dignificam o plano de Marcelino e prova: o Valencia ressuscitou. A ver o que o amanhã irá lhe reservar.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa Esporte@Globo da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.