O momento de Isco e a esperança da Espanha

  • por Victor Mendes Xavier
  • 18 Dias atrás

À borda de um penhasco sem nome, ele põe-se de pé. Vê-se que não há cores na vida, nem nos cortes escarlates das suas tatuagens; nem nos retalhos de seus pulsos, marcados devido as correntes que sempre o ligaram ao banco de reservas. Seus olhos são pretos como a tempestade agitada que marca o Santiago Bernabéu aos dezembros, que termina com a espuma que se aferventa nas rochas acidentadas. Cinzas, somente cinzas, desespero, e o chicotear da chuva invernal: essas as recompensas por anos de serviços de Isco como coadjuvante.

Primeiro para um argentino (Di María), depois para um colombiano (James Rodríguez). E, por último, para um brasileiro (Casemiro); que chegou para equilibrar um meio-campo preparado para sua dominância, deslocando um alemão (Kroos) para a região onde pensara que seria sua, ao lado de um companheiro croata (Modric) perfeito para complementar seu jogo. Ele já foi o Príncipe de Valencia e o Soldado de Málaga. Mas havia uma dívida: ser a Esperança de Madrid e da sua seleção nacional.

Desde quando Zidane assumiu o comando técnico do Real Madrid, em janeiro de 2016, a base da filosofia ficou residida no meio-campo. Casemiro, Modric e Kroos definem o Madrid de Zidane. A consistência, a regularidade e a fiabilidade. Juntos, o trio garante um poderio coletivo gigantesco. Poderio este que, inclusive, permite a peças como Sergio Ramos, Gareth Bale, Karim Benzema e Cristiano Ronaldo terem maior liberdade para potencializar o individual. O bicampeão europeu parece uma rocha difícil de ser batida porque é difícil justamente fazê-lo sofrer, muito porque o meio-campo garante uma virtude tão ganhadora que alça a confiança dos demais a patamares elevadíssimos.

A hora de Isco brilhar

Isco nunca teve o status de titular do Real Madrid. Desde Carlo Ancelotti, passando por Rafael Benítez e nem com Zinédine Zidane. Isso até 2017. O rapaz é sempre lembrado por sua segunda metade da temporada (brilhante, por sinal). Mas também fez uma primeira parte igualmente genial. A campanha 2016/2017 pode ser considerada divisora d’água na carreira do andaluz. Do começo ao fim, Isco passou por uma transformação técnica, tática e mental que permitiu a Zidane a questionar-se: “por que não?”. O perfil ofensivo chocava com a harmonia quase que perfeita gerada por Casemiro, Modric e Kroos. Na frente, a credibilidade do trio BBC era alta.

De agosto a fevereiro, Zidane manejou variados esquemas de jogo. Dois deles foram fundamentais: o 4-3-3 e o 4-2-1-3. No primeiro, Isco costuma partir no vértice esquerdo do triangulo; posicionalmente mais recuado que a posição de meia-atacante que sempre gostou, mas importante pela criação de triângulos quando o Real tem a bola. Primeiro quando se junta na defesa com Sergio Ramos e Marcelo; segundo quando se junta na meia com Marcelo e Cristiano Ronaldo. E um último quando se junta no terço final com Cristiano Ronaldo e Benzema. E foi justamente por causa dessa naturalidade pra criar triângulos que o segundo esquema (com dois volantes e um camisa 10 por trás do trio BBC) pôde ser executado (após a lesão de Casemiro) e um terceiro (mais conhecido) foi colocado em prática no trimestre final.

Vem bem e não é de hoje

É bom deixar claro que os meses finais de Isco não foram somente uma fase repentina. O camisa 22 estava emergindo pouco a pouco. Já havia feito partidas de luxo contra adversários de elite: vide a exibição no Vicente Calderón contra o Atlético de Madrid no clássico do primeiro turno.

 

E teve um rendimento pessoal de ouro no fim de 2016. E, por causa disso, somado a um período de irregularidade de Cristiano Ronaldo, chegou a ser considerado o homem mais brilhante do elenco. Questionamentos foram lançados. Seu aporte justificaria o sacrifício de algum membro da BBC? Taticamente, era compatível com o trio titular no meio? Para ambas as perguntas, as respostas foram contundentes sim.

À segunda, o primeiro lapso veio em um confronto contra um débil – todavia fechado – Granada no fim do primeiro turno. Quando Zidane testou pela primeira vez a fórmula “3+1”, com Isco à frente de Casemiro, Modric e Kroos. À primeira, a final da Champions em Cardiff. Quando, pela primeira vez, Bale foi banco estando à disposição para a titularidade de Isco. Uma partida que acabou quando Kroos, Modric e Isco se juntaram, asseguraram a posse e fizeram da Juve uma equipe inofensiva.

 

Grande fase que se estende até à Seleção

Atualmente, setembro de 2017, Isco demonstra uma confiança alta, um frescor nas pernas e uma superioridade digna de grandes craques da posição. A soberania de Isco corresponde a dos meio-campistas mais dominantes em seu grande esplendor. A última exibição veio contra a Itália. Impactante porque a Espanha, depois do auge e decadência da geração Xavi-Xabi Alonso-Iniesta, necessitava de uma peça que recuperasse o seu estado anímico. E foi isso que Isco gerou nos minutos em que esteve em campo. Até dar lugar a Villa, o mago natural de Benalmádena fez do Santiago Bernabéu o maior pesadelo de Marco Verratti.

 

Tudo bem que o controverso 4-4-2 escolhido por Giampiero Ventura deixou desprotegida a zona do volante do PSG. Os avanços de Insigne e Candreva pelos lados conceberam um vácuo que Verratti não foi capaz de solucionar. Mas a partida de Isco foi forte. Não só pelos gols que decidiram o triunfo, mas por ter transformado uma tetracampeã mundial em seu playground. Em 90 minutos, Isco foi um jovem com poderes que o usou a bel-prazer. Um foco de insultante superioridade que afetou até mesmo Buffon. Queria transcender e transcendeu. Superava um rival e buscava outro. Saía de uma armadilha e perseguia outra para mostrar que, daquele jeito, a Itália nunca o pararia. Para Isco, foi tudo muito fácil, cômodo, exigiu mais resistência por parte do inimigo.

Hoje Isco é melhor, mas pior que amanhã e sua melhor partida será a próxima. Está vivendo o ápice e quer espalhá-lo mundo afora. A Rússia faz parte de seus planos. Isco, uma vez de Madrid, quer sentar no seu trono em Moscou. Se vai, de fato, conduzir a Espanha a um novo título mundial, isso somente o tempo poderá responder. Mas os espanhóis depositaram esperanças em suas costas. A reverência após o segundo gol contra a Itália deixa claro isso. “Eles querem um craque capaz de fazê-los felizes”, disse-lhe Zidane uma vez.

 

E Isco entendeu muito bem a mensagem, pousando seu olhar sob uma miragem onde imagina seu reino completo no Estádio Olímpico de Luzhniki, no dia 15 de julho de 2018.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa Esporte@Globo da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.