O que Vanderlei Luxemburgo não conseguiu não dizer

A maior goleada já sofrida pelo Sport em campeonatos brasileiros abriu feridas profundas na Ilha do Retiro. O time leonino que pisou na Arena do Grêmio nem sequer lembrou aquela equipe confiante que venceu, entre os meses de junho e julho, seis partidas em sequência, saindo da zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro até alcançar o grupo de classificação à próxima Copa Libertadores. O 5 a 0 foi desastroso por si só, mas ainda mais chocante foi a atuação dos jogadores – principalmente porque o elenco rubro-negro acabava de sair de uma intertemporada de quase 20 dias.

O que mais chamou a atenção de torcida e imprensa, no entanto, foi o desabafo do técnico Vanderlei Luxemburgo na coletiva após a partida. Usando um tom extremamente enfático, abriu fogo contra alguns jogadores do clube, cujos nomes ele preferiu não revelar. Denunciou falta de comprometimento desses atletas, e prometeu tomar providências, sem deixar muito claro o que poderá mudar. Garantiu que não vai afastar ninguém do clube, para que todos possam “sofrer junto”, e assegurou que ele, Vanderlei Luxemburgo, não permitirá que o Sport volte a frequentar a zona de descenso na tabela.

Em suma, o treinador falou tudo que queria. Mas também emitiu sinais através do que ficou nas entrelinhas de suas declarações, ou até do que nem foi dito em Porto Alegre. Esmiuçar essa marcante entrevista é, portanto, tentar compreender o raciocínio de Luxemburgo, um profissional extremamente experiente, que tem exata noção de absolutamente tudo que deve – ou não – ser dito, bem como das consequências de suas palavras, e de como elas são recebidas no contexto de um clube de massa como o Sport.

PRECEDENTES

Desde que assumiu o comando leonino, Vanderlei tem sido abraçado pela maior fatia da torcida. Mesmo com um elenco cheio de reforços badalados para os padrões do Sport, como André, Rogério, Diego Souza, entre outros, o time rubro-negro não atendia às expectativas até aquele fim de maio, quando ele chegou. Por tudo isso, o peso do nome de Luxemburgo serviu para injetar ânimo no torcedor leonino. Afinal, muitos nutriam a impressão de que o que faltava era justamente um comando mais firme, em um clube cuja diretoria é acusada de ser passiva e deixar os jogadores “se acomodarem”. Era, enfim, a chegada de um treinador com “moral”, para “botar na linha” um elenco com problemas de comprometimento.

No começo, essa postura funcionou: após a derrota em casa para o Vitória, que fez Luxemburgo dar sua primeira grande bronca no elenco, o Sport engatou a tal sequência de resultados que levou o clube ao G6. A “zona de conforto” a que o técnico tinha se referido parecia ter sido extinta. Mas bastou os resultados pararem de acontecer para que ele voltasse a justificar os tropeços com a falta de vontade dos atletas.

Após perder para o Palmeiras na Arena de Pernambuco, Luxa declarou que o time “aceitou a marcação e não conseguiu fluir”. No jogo seguinte, derrota para o Arsenal de Sarandí, na Argentina, e uma entrevista ainda mais dura. “Esse não é o time que eu quero dirigir. Quero um time que esteja comprometido, que saiba jogar um jogo de decisão, que se comprometa com o resultado no campo do adversário”, explodiu. Semanas depois, o técnico novamente falou em “apatia” para explicar nova derrota, para o Cruzeiro, no Mineirão. “A equipe não jogou o jogo que deveria jogar. Achei a equipe um pouco apática, sem a determinação e a concentração que estamos acostumados a ver”. Em todas as ocasiões, a equipe mereceu as cobranças, porque atuou mal. Mas em nenhuma delas as críticas vieram acompanhadas de uma autocrítica contundente por parte do responsável por escolher os atletas, mandá-los a campo e dar-lhes as condições de render seu melhor futebol.

O ataque ao elenco após a derrota para o Grêmio não foi, portanto, algo novo no Sport de Luxemburgo. Foi apenas o arrebentar de uma corda que já vinha esticando havia algumas semanas.

SIM, MAS E A ATUAÇÃO?

Foto: Reprodução/Youtube

“Eu sou um profissional experiente, e estou acostumado a muitas coisas. A diretoria do Sport tem duas opções. Achar que deve trocar o técnico, faz parte do futebol. E não seria a primeira vez que isso aconteceria no Sport, com 80% do mesmo elenco que quase foi, no ano passado, para a segunda divisão. Seria mais um técnico que caiu praticamente com os mesmos jogadores”.

Ao deixar o vestiário rubro-negro na Arena do Grêmio, as três primeiras palavras de Luxemburgo foram de reconhecimento à atuação do Tricolor naquela tarde, assim como à campanha do clube no Brasileiro. “Mérito do Grêmio”, disse o técnico, antes de dar início à detonação, “mas faltou muita coisa para nós. Eu venho falando isso há muito tempo”. E nem poderia deixar de ser, após uma vitória tão contundente do time comandado por Renato Portaluppi. Logo em seguida, no entanto, ele ressaltou sua experiência no futebol, antes de começar a desenvolver o seu argumento central: há jogadores de “corpo mole” no elenco rubro-negro. A partir daí, todos os repórteres presentes na sala de imprensa focaram suas perguntas na crise recém-deflagrada, e não sobrou mais tempo para falar do jogo em si – ou de como os vinte dias ininterruptos de treinamento fizeram o time involuir tão acentuadamente.

Afinal, o placar de 5 a 0 foi mentiroso em um único aspecto: fez parecer que o Grêmio precisou jogar muito para derrotar um adversário que, pouco antes, ocupava uma posição no G6 do Brasileiro. Pelo contrário, foi um resultado construído com naturalidade, sem muito esforço, como se um time fosse profissional e o outro, um catadão de fim de churrasco. Como analisou Paulo Calçade, comentarista da ESPN, o Leão teve uma postura assustadora. Totalmente espalhado em campo, lento na transição e incapaz de forçar Marcelo Grohe, goleiro gremista, a fazer uma defesa difícil. Em suma, foi uma partida pífia – para ficar em uma das palavras usadas pelo técnico rubro-negro que, com seu desabafo, obteve sucesso em interditar os questionamentos, principalmente os táticos, sobre essa atuação.

ESTRANHA EMPATIA

Foto: Willians Aguiar/Sport Club do Recife

Do início ao fim da polêmica entrevista, Luxemburgo mostrou uma preocupação constante em seu discurso: a tentativa de se colocar no papel de porta-voz do torcedor do Sport, cutucando a suposta falta de comprometimento dos jogadores – e ignorando eventuais dificuldades ocasionadas por uma falta de senso coletivo e estrutura tática na equipe.

“Quero dizer ao torcedor do Sport que a vergonha que eu estou, é um sentimento que o torcedor também deve estar. O que fizemos dentro de campo hoje não condiz com a realidade do clube. (…) Não foi uma atuação condizente com a tradição do clube, um clube que tem sempre jogadores muito guerreiros, que se identificam com a torcida pela garra, pela luta. (…) Eu estou envergonhado (…). Pergunte aos jogadores se eles estão com a mesma vergonha que tem que estar um profissional que jogou o jogo hoje. (…) Eu tenho que justificar o meu sentimento para o torcedor do Sport. Eu não posso chegar aqui depois de uma pancada de 5 a 0, e de algumas atuações para trás, e falar que está tudo bem. Não está tudo bem”.

Sobre uma possível parcela de culpa sua, Luxemburgo foi bem sucinto. Usou alguns segundos dos quase dez minutos de coletiva para falar sobre o tema, de maneira até certo ponto vaga. “Eu assumo a minha responsabilidade, também tenho um percentual de culpa, mas a coisa tem que caminhar diferente”, afirmou.

Esse discurso adotado pelo técnico não surgiu do nada. Bastante rodado no futebol, ele captou o sentimento de uma torcida que vinha, ao longo dessa má fase, hostilizando os principais jogadores rubro-negros, referências do elenco que vêm tendo performance muito abaixo daquela que os tornou ídolos. Luxemburgo tem usado suas coletivas para surfar nessa onda de insatisfação, lançando seu grupo ao linchamento público e blindando-se dentro desse barril de pólvora que o Sport parece ter virado, em boa medida, justamente por conta da forma como o técnico expõe seus atletas.

EU GANHO, ELES PERDEM

Foto: Willians Aguiar/Sport Club do Recife

A faceta mais clássica do discurso de Luxemburgo tem ficado bem explícita nesse período de fraco desempenho do Sport no Campeonato Brasileiro. Em todas essas coletivas e principalmente na que se seguiu à goleada sofrida contra o Grêmio, os poucos momentos em que o treinador não criticou o time com veemência foram usados para vangloriar seu currículo e sua capacidade.

Eu sou um profissional experiente, e estou acostumado com muitas coisas (…). Eu me coloco à disposição da diretoria. Eu não quero um aumento, porque não preciso, já ganho bem. (Me coloco à disposição) para renovar meu contrato para o ano que vem. Porque eu me propus a fazer uma coisa pelo Sport, e eu vou fazer. E esses jogadores que tiveram uma atuação pífia hoje não vão ter oportunidade de passar com o Sport pela zona de rebaixamento, porque eu não vou permitir. Só vou levar comigo aqueles jogadores que podem não ser bons tecnicamente, mas que vão sofrer, se doar 100% (…). Está bem claro o posicionamento de um profissional que sabe muito bem o que está acontecendo. (…) Eu tenho sentido somente dentro dos jogos a atuação da equipe que não é condizente com aquilo que nós propomos, então alguma coisa está equivocada. Como eu entendo de futebol, vou antecipar as situações que acontecem no futebol”.

Quem acompanhou o futebol brasileiro na última década conhece muito bem esse discurso, e sabe onde o técnico pretende chegar com ele. Nas entrelinhas, essas palavras desnudam alguém que se vê como o messias capaz de levar o Sport à glória, mas que se vê impedido de fazê-lo por um bando de jogadores sem compromisso. No ápice dessa linha argumentativa, Luxemburgo chega a cavar, depois de um 5 a 0, uma renovação de contrato. Como se estivesse evidente que ele, com os atletas certos, jamais teria deixado tal catástrofe acontecer.

INCENDIÁRIO

Foto: Willians Aguiar/Sport Club do Recife

Não é que os sermões do treinador não tenham nenhum fundamento. Foi um horror a atuação rubro-negra no Rio Grande do Sul. A pior de uma sequência que acordou o Sport do sonho da Libertadores, e o fez ver que ainda faltam 16 pontos até os mágicos 45. Em outras palavras, do presidente ao torcedor, não há mais tranquilidade (ou seria conforto?) na Ilha do Retiro. Mas a forma como Luxemburgo tem publicizado sua insatisfação é bastante questionável.

É certo que jogadores como Rithely e Diego Souza não têm jogado nem perto do que podem. Mas será que é justo colocar em xeque o compromisso de alguém que, como o volante, está no clube há seis anos? Talvez, se os questionamentos viessem de um símbolo rubro-negro como Magrão. Nem tanto quando vêm de um profissional que, há apenas quatro meses, por coincidência ou não, manteve o Sport esperando (na zona de rebaixamento) até o Internacional anunciar seu acerto com Guto Ferreira.

(Se você quer conhecer mais um pouco sobre Rithely e sua trajetória, leia a edição #1 da Revista Febre. Na entrevista, ele fala bastante sobre a sua ligação com o clube)

Além do mais, ao fazer críticas tão veementes aos jogadores, o técnico expõe também a diretoria, que pagou caro para contratar boa parte desses atletas. A impressão que fica é que foram trazidos por alguém que pode até entender de futebol, mas não entende tanto quanto ele.

Luxa pode ter a melhor das intenções no Sport, e pode também ter todas as ferramentas para colocar o time nos trilhos – algo que, como ele mesmo já repetiu tanto, ele já conseguiu antes. O cenário atual é que parece um pouco mais complicado. Seus melhores jogadores, que são também os maiores investimentos do clube, estão acuados. Alguns deles podem até ir para o banco. Quando isso acontecer, o técnico ganhará jogadores de sua confiança, mas perderá o escudo que o vem protegendo da fúria da torcida.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.