O xadrez de Almirón

  • por Lucas Sousa
  • 28 Dias atrás

Tomar a iniciativa do jogo, sair com passes curtos desde o goleiro, controlar os espaços e praticar um jogo posicional. Assumir essas ideias, e, principalmente, conseguir executá-las bem, não é para todos. Abarca uma série de fatores que vão condicionar o desempenho, como conhecimento, tempo, treinamento e, claro, os riscos de se jogar dessa maneira. E a vivência do futebol nos mostra que poucos estão dispostos a pagar por isso.

Um dos homens que bancou esse caminho foi Jorge Almirón. Sem pompa ou elenco estrelado, o treinador do Lanús, no comando desde 2016, desenvolveu e solidificou seu modelo de jogo valorizando a bola e o futebol ofensivo. Um jogo de xadrez com movimentos coordenados e complementares, de modo que tudo se encaixa para o bem do time.

Assim foi campeão incontestável da Primera División em 2016, goleando o San Lorenzo por 4 a 0 na final, e está na semifinal da Libertadores 2017. Em pouco tempo, colocou os Granates na primeira prateleira da Argentina e do continente.

As ideias do arquiteto

“O melhor técnico argentino, de longe, é Almirón”. A sentença de Cesar Luis Menotti, técnico campeão mundial em 78 com a Argentina, é simbólica. Menotti é o expoente de uma corrente de futebol que preza pela beleza do jogo. O menottismo nos diz que os caminhos para o êxito passam pela valorização da posse para atacar e diminuição dos espaços para defender, comportamentos aplicados no jogo do Lanús.

O elogio do ícone argentino, sem sobra de dúvidas, não se dá apenas pelos resultados alcançados por Jorge Almirón. De outra forma, está intimamente atrelado ao jogo proposto pelo treinador e o reconhecimento disso por parte de Menotti. Ao assistir o futebol do Lanús, El Flaco Menotti vê as ideias que ele semeou há 40 anos ainda dando frutos.

Foto: Lanús/Site oficial – Jorge Almirón, o comandante do melhor futebol da Libertadores 2017

Porque Almirón é mais um galho na árvore genealógica do futebol de posse. É admirador de Bielsa e Guardiola e ex-jogador de Ricardo La Volpe. Deste, absorveu muitas ideias que leva consigo e aplica ao jogo granate. De acordo com as próprias palavras de Almirón, logo após ser campeão nacional.

“Creio que La Volpe foi muito importante no meu desenvolvimento como técnico. Copiei muitas coisas dele”

Da mesma forma que seus mestres, Almirón não abre mão das suas ideias. Independente do adversário quer jogar com a bola e gerar situações favoráveis para seus atletas a partir da posse.

“Tenho as minhas convicções de jogo bem claras. Sem ser caprichoso, não traio a ideia que creio porque considero que todas as equipes podem jogar bem. Jogar bem pode ter várias interpretações. Eu quero que meu time arrisque, que não tenha medo nesse sentido e se lance a jogar”.

Os pilares do time argentino

José Luiz Gómez

Sustentado por um modelo de jogo planejado e treinado, a qualidade individual do jogador aparece. Isso fica claro ao observar os pilares do Lanús 2017 e ver que suas virtudes são bem aplicadas em prol do time. A começar pela linha defensiva, com José Luiz Gómez. O lateral direito usa da sua potência física para pressionar e recuperar a bola, elementos fundamentais para a proposta defensiva de Almirón. Também se destaca pela forte presença no último terço, especialmente chegando aos espaços vazios. Tem boa leitura para realizar esses movimentos e alternar aparições por dentro ou por fora, de acordo com o cenário.

Ivan Marcone

No centro do campo, Ivan Marcone se tornou peça chave. De modo geral, o jogador que atua logo à frente da linha defensiva no 4-3-3 (ou 4-1-4-1) diz muito sobre a proposta da equipe. E Marcone simboliza bem o Lanús. Se oferece como linha de passe, tem critério ao passar a bola, faz inversões e tem consciência do seu papel dentro do jogo posicional proposto. Em resumo, é um guardião da posse.

Foto: Conmebol/Site oficial – Gómez, Acosta e Sand: nomes fundamentais do Lanús

Lautaro Acosta

Ídolo da torcida e campeão nacional em 2007, Lautaro Acosta voltou ao Lanús para erguer novamente o campeonato argentino, em 2016. “Laucha” é o ponta mais incisivo do time de Almirón e faz a diferença atacando as costas dos defensores, embora também se associe bem a partir dos lados. Tem um peso enorme no jogo granate, tanto que foi o segundo goleador (5 gols) e o principal garçom (6 assistências) da equipe na temporada passada.

José Sand

Com 15 gols no último Argentino, José Sand marcou o equivalente a 42% dos tentos do Lanús. Neste quesito, nenhum outro jogador foi mais importante para sua equipe do que ele. Aos 37 anos, o camisa 9 é o definidor, frequentemente castigando só com um toque na bola. Mas “Pepe” é muito mais do que bola na rede. Com seu jogo de costas espetacular, é essencial para a troca de passes da equipe fluir bem. Sai da área, oferece apoios e coloca seus companheiros de cara para o gol. Até por conta disso faz muitos gols de primeira, já que raramente fica plantado aguardando a bola e frequentemente chega à área junto com a pelota. Pelos gols e pela característica única, é provável que Sand seja o homem mais valioso do plantel grená.

O jogo posicional do Lanús

O jogo de posição do Lanús está exemplificado no vídeo abaixo. É a combinação das características individuais com a potencialização providenciada por um sistema estruturado e bem treinado. De certa forma, os jogadores dão um pouco a Almirón, que retribui aos seus atletas. O resultado é um futebol de alto nível, certamente um dos melhores da América do Sul.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.