Santa Cruz e Náutico: trajetórias distintas, mesma luta contra a Série C

Foto: Léo Lemos/Clube Náutico Capibaribe

Olhar e analisar a tabela da Série B de 2017 é se deparar com algumas surpresas. Por um lado, clubes que iniciaram o torneio sem muitas expectativas, como o Vila Nova e o Juventude, se encontram na briga pelo acesso, algo que poucos imaginavam no começo do certame. Mas no outro extremo desse campeonato, alguns clubes de expressão vêm enfrentando a dura realidade de lutar contra o rebaixamento. E Pernambuco aparece como protagonista nesse contexto, com dois representantes. Sim, é tudo que restou a Santa Cruz e Náutico nesta reta final de temporada: escapar da degola.

Apesar de hoje se verem inseridos na mesma disputa, não foi assim que a Segundona começou para os coirmãos recifenses. Para o Timbu, o Z4 já parecia um cenário inexorável desde antes mesmo do início da competição. Hoje, no entanto, o time comandado por Roberto Fernandes já se vê em condições de sonhar com a permanência – algo que, em julho, parecia extremamente improvável. O Tricolor, por sua vez, começou o Brasileiro almejando um retorno à Série A. Só que esses planos foram ficando mais distantes à medida que os cofres do clube foram esvaziando. Ao invés do acesso, agora, a torcida do Santa espera apenas que o time consiga evitar um rebaixamento que, no ano seguinte a uma temporada na elite, seria trágico.

Tricolor em queda

Foto: Divulgação/Santa Cruz

Entre 14 de julho e 15 de setembro, o time coral ficou sem vencer, até conseguir derrotar o Goiás, na última sexta-feira, por 3 a 0, no Arruda. Foram oito partidas de jejum, sendo dois empates e seis derrotas. Atrasos salariais deterioraram o ambiente interno do clube, em um processo que também já levou à demissão de Givanildo Oliveira, cujo antigo cargo está ocupado por Marcelo Martelotte, este em sua terceira passagem pelo Arruda. A má fase se traduz no 15º lugar que o time ocupa, com 27 pontos.

Nas outras duas vezes que comandou o Santa, o treinador conquistou um título pernambucano e o acesso à Série A, comandando aquela equipe que era liderada por Grafite – outro que retornou ao Tricolor para a reta final da temporada. Apesar das dificuldades financeiras e estruturais oferecidas no Arruda, e das limitações do elenco, tanto o atacante (que tem feito poucos gols, mas também vem acumulando funções da diretoria e da comissão técnica) quanto Martelotte acreditam que o fator psicológico é o que mais pesa nesse mau momento, algo atenuado com o fim da seca.

Martelotte conseguiu quebrar sequência de maus resultados (Foto: Divulgação/Santa Cruz)

A reação da diretoria tricolor à queda de rendimento das últimas rodadas foi a contratação de dois velhos conhecidos da torcida: Bileu, que defendeu o clube entre 2014 e 2015, e Natan, produto das categorias de base do clube. O primeiro reforça o setor defensivo do meio-campo, muito sujeito a suspensões e que tinha acabado de perder Elicarlos. O segundo vai tentar, acima de tudo, se manter livre das lesões que travaram a carreira de um talento indiscutível. Se conseguir, tem tudo para tornar o time mais criativo e solucionar uma carência visível.

O encaixe desses reforços, a consolidação do sistema de jogo de Martelotte e, acima de tudo, a manutenção de alguma estabilidade financeira serão os fatores decisivos para que o Santa Cruz tenha uma reta final de Série B mais tranquila.

Alvirrubros sonham

Foto: Léo Lemos/Clube Náutico Capibaribe

O Timbu atravessa um ano de profunda turbulência, em todos os aspectos. Financeiramente, começou 2017 montando um elenco para tentar ser campeão pernambucano. Mas após o fracasso estadual, a realidade bateu à porta e forçou uma readequação salarial radical. A começar pelo treinador Milton Cruz, que entregou o cargo em maio por estar acima do patamar econômico do clube. Depois dele, outros três já assumiram o comando técnico: o “senhor” Waldemar Lemos, Beto Campos e Roberto Fernandes.

As mudanças também ocorreram no plantel do clube de Rosa e Silva. O time contratado para o Estadual foi praticamente todo desfeito. Jogadores importantes deixaram o clube e, para o seu lugar, a diretoria contratou nomes mais modestos e desconhecidos, porém dentro das possibilidades do Timbu. Politicamente, a situação alvirrubra não é menos complicada: foram realizadas novas eleições no último mês de julho, mas Edno Melo, presidente eleito, só assume no fim do ano, enquanto o antigo mandatário, Ivan Brondi, renunciou se queixando de pressões e ameaças que vinha sofrendo. O cenário, enfim, é de algo entre uma incipiente reconstrução e o mais absoluto caos.

Raçudo e ativo nas redes sociais, Breno simboliza evolução defensiva do Náutico (Foto: Léo Lemos/Clube Náutico Capibaribe)

Esse turbilhão, que vem atrapalhando o náutico há alguns anos, se refletiu nas atuações do Náutico nos primeiros meses de Série B, como não poderia deixar de ser. A primeira vitória só veio na 12ª rodada, contra o ABC. Desde então, o time tem protagonizado uma reação que pode não ser suficiente para evitar o rebaixamento, mas já resgatou a dignidade do elenco e dos jogadores. Nas doze rodadas seguintes, o Timbu conquistou quinze pontos, ficando a apenas sete pontos do Luverdense, primeiro time fora do Z4.

Sim, apenas. A distância pode não ser curta em números absolutos, mas já é menor do que os 11 pontos que separavam, na 11ª rodada, o então lanterna Náutico do 16º lugar. Além disso, o otimismo também é fruto do desempenho dentro de campo. O time vem conquistando resultados importantes e pontuando em um ritmo superior aos seus principais concorrentes, graças principalmente à evolução do sistema defensivo: enquanto nas doze primeiras rodadas o Timbu sofreu 22 gols, nas doze seguintes concedeu apenas sete.

Figura conhecida dos alvirrubros, Roberto precisa melhorar o ataque do Náutico (Foto: Léo Lisboa/Clube Náutico Capibaribe)

Essa solidez tirou o Alvirrubro das cordas, e o fez voltar a brigar, efetivamente, contra o rebaixamento. Mas só uma maior produtividade do ataque poderá, de fato, salvar o clube da que seria sua segunda visita à Série C. O Náutico ainda apresenta muita dificuldade para marcar gols. É o segundo pior ataque do campeonato. Reverter essa realidade é o maior desafio de Roberto Fernandes, que perdeu Érick, grande revelação alvirrubra, mas recebeu dois reforços para o setor: Dico e Rafael Oliveira, ambos vindos do Botafogo-PB. Eles se juntam a um elenco que parece ter abraçado a ideia de que é possível não cair, mas precisa ser forte para não desanimar caso o time emende uma sequência de maus resultados.

Só que ainda que os atletas mantenham o ânimo; que o ataque comece a operar a contento; que a defesa continue funcionando e que o treinador siga tendo lucidez para tomar as melhores decisões, tudo terá sido em vão se a crise política no clube não tiver, no mínimo, uma trégua, como a que foi ensaiada há alguns meses. Em momentos como esse, o que todo profissional precisa é de tranquilidade e confiança para atuar em seu melhor nível. Garantir um ambiente sereno é o único jeito de fazer com que esse elenco limitado jogue tudo que pode, evitando uma volta à Série C que poderá colocar mais dúvidas sobre o futuro alvirrubro, que já é incerto o suficiente.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.