Harry Kane: o merecido sucesso daquele que “é um de nós”

A camisa 10 do Tottenham não pesa às costas de Harry Kane. Com enorme desenvoltura, o inglês se transformou na principal referência de seu clube e, igualmente, na maior esperança de gols de seu país. A despeito de suas origens irlandesas, sempre defendeu o English Team e cresceu em cenário que dificultava a escolha por outro clube que não os Spurs. Talvez isso revele a razão pela qual parece tanto que Kane nasceu para os representar; trata-se de alguém que, como tantos, cresceu com o sonho de atuar em seu time do coração. Dentre milhares, conseguiu. Por isso, dedica-se a cada bola com tanto afinco. O atacante sintetiza, em campo, o que o Tottenham significa para seu torcedor.

 

O background que moldou o artilheiro

Kane nasceu na Grande Londres, em Walthamstow, aproximadamente oito quilômetros distante de White Hart Lane.  Embora seu pai tenha nascido na Irlanda, o atacante desde cedo determinou que sua identidade estava ligada à Inglaterra. Seu coração e alma, ademais, devotados ao Tottenham. É bom que se perceba igualmente que, amor pelo clube de lado, a trajetória de Kane é muito menos romântica do que aparenta, tem muito suor envolvido.

Tentativa no lado “errado” de Londres

O futebol sempre esteve em sua veia, como não é difícil perceber. Motivado pela torcida pelos Spurs, incentivado por sua família, o atacante estava destinado às quatro linhas. Ele representava o Ridgeway Rovers – clube em que David Beckham dera seus primeiros passos na carreira e que angaria jovens entre as categorias sub-9 e sub-16 – quando, aos oito anos, foi chamado para testes no rival Arsenal. Obviamente, aceitou a oportunidade. Passou um ano vestindo o uniforme dos Gunners e foi dispensado. Testado também no Tottenham foi inicialmente rejeitado.

O pequeno Harry Kane, em 2001, quando ainda pertencia às categorias inferiores do rival Arsenal.

A despeito disso, para alguém que tem na persistência um dos principais traços de seu caráter, desistir não era uma opção. Apareceu, então, o Watford. Vieram os gols e, consequentemente, nova chance em White Hart Lane, dessa vez aproveitada. Era o ano de 2004, ou seja: Kane tinha apenas 11 anos. Para Les Ferdinand, ex-jogador do clube e que foi seu treinador na base, seu principal trunfo sempre foi sua “incrível crença em si mesmo”, como revelou ao Daily Mail. Era difícil que um jogador tão bom e com esse background não fosse adorado.

Persistência e coração que conquistaram os  Spurs

Em outra reportagem veiculada pelo mesmo periódico, o torcedor Chris Deeley confirmou as razões pelas quais Harry é tão amado pelas bancadas originárias de White Hart Lane e que hoje, enquanto o clube levanta sua nova casa, acompanham seus craques em Wembley:

“Se Kane fosse como outro atacante excelente dos Spurs nos últimos anos, Dimitar Berbatov, seria uma situação diferente. Era fácil gostar de Berbatov, é claro. Fácil de admirar, também. Mas seu estilo preguiçoso e indiferente tendia a mantê-lo um passo distante dos torcedores […] A entrega constante e tendência a colocar seu coração na ponta da chuteira, contudo, muda as coisas. De repente ele é um de nós […] Não amo Harry Kane por seus gols. Os gols são produto da razão pela qual eu e muitos outros torcedores o amamos. O amamos por seu coração. E o amamos porque quando ele está no campo, ele está nos mostrando o quanto ele nos ama de volta”.

Hoje, a torcida do Tottenham, orgulhosa, canta a plenos pulmões: “Harry Kane, he’s one of our own” – “Harry Kane, ele é um de nós”. Ainda assim, mesmo depois de ingressar nas categorias de base do clube e representar o país nos escalões sub-17, 19, 20 e 21, HurriKane não encontrou facilidades para conquistar seu lugar dentre o elenco profissional do clube. Teve que lutar muito por ele (o que só fez aumentar seu apelo popular).

Kane teve de persistir e batalhar muito até alcançar o status de referência e ídolo Spur do qual goza hoje.

Kane teve de persistir e batalhar muito até alcançar o status de referência e ídolo Spur do qual goza hoje.

Passagens breves e importantes por Leyton Orient, Millwall, Norwich e Leicester

As capacidades de Kane foram sempre bem avaliadas. De que outra forma teria ficado no banco de reservas do time profissional do Tottenham, pela primeira vez, ainda em 2009, aos 16 anos? Não obstante, era consenso no clube a necessidade de que o jogador competisse logo em nível profissional e não seria, inicialmente, na Premier League. Para isso, foi emprestado ao Leyton Orient. Precisava ganhar minutos em campo e fazer sua estreia como profissional.

Primeiro empréstimo

Aquela era a temporada 2010/11. O atacante chegou na segunda metade da League One, terceira divisão inglesa, e foi muito utilizado. Disputou 18 jogos e balançou as redes cinco vezes. O primeiro tento veio em 22 de janeiro de 2011. Destaque-se, também, o double anotado contra o Bristol Rovers, em fevereiro do mesmo ano. Ao final da campanha, seu clube ficou um ponto atrás da zona de play-offs e Kane retornou ao Tottenham.

Após demonstrar qualidades vestindo a camisa dos O’s, o atacante ganhou suas primeiras oportunidades com a camisa dos Spurs. Elas vieram na Europa League, sob a batuta de Harry Redknapp. Seu gol inicial foi marcado contra os irlandeses do Shamrock Rovers, ocasião em que o atacante ingressou no campo na vaga de Jermain Defoe. Ainda assim, voltou a ser emprestado para o restante da temporada 2011/12. Dessa vez, seu destino foi o temido estádio The Den, casa do Millwall.

Segundo empréstimo e o primeiro gostinho de protagonismo

No novo desafio, Kane voltou a ter muitas oportunidades. Dessa vez um degrau acima, na Championship, segunda divisão da Terra da Rainha, fez 22 jogos e anotou sete tentos. No entanto, o mais importante aqui não são os números, mas a importância deles. Os Lions estavam lutando perigosamente contra o rebaixamento naquela instância e conseguiram uma sequência impressionante de bons resultados nas últimas rodadas. Nos derradeiros nove encontros, saíram-se vitoriosos em seis, empatando dois e perdendo apenas um. Kane marcou em cinco desses jogos, sendo a principal peça na impressionante recuperação do clube. O período foi importantíssimo para o jogador, conforme relatou ao The Guardian:

“Meu empréstimo ao Millwall foi uma grande parte de meu desenvolvimento. Eu tinha 18 anos, estávamos na luta contra o rebaixamento e isso me tornou um homem. Atuei em jogos difíceis, com muita pressão, e me sai positivamente. Vivi um grande momento no clube”.

Ao final daquela temporada, Harry foi eleito o jogador jovem do ano no Millwall e esse sucesso foi suficiente levar o garoto de volta a White Hart Lane – não por muito tempo, todavia.

 

A primeira metade da temporada 2012/13 parecia animadora para Kane, uma vez que o atacante atuou por breves cinco minutos da estreia do Tottenham na Premier League, ingressando na vaga do brasileiro Sandro. Porém, para dar continuidade a sua evolução, foi emprestado ao Norwich, então na divisão de elite do futebol inglês. Parecia o momento perfeito para se afirmar no alto nível, mas não foi.

Passagens por Norwich e Leicester

Em seu segundo jogo pelos Canaries, fraturou osso do pé e perdeu quase toda a primeira parte daquele ano. Acabou representando o clube por apenas cinco jogos, sem anotar gols. Seu empréstimo, que vigoraria pela temporada completa foi interrompido precocemente. Kane retornou à Championship, para vestir a camisa do Leicester. Eram outros tempos. Ele estava lá, sentado no banco ao lado de Jamie Vardy (hoje seu companheiro no English Team), quando os Foxes perderam para o Watford a chance de subir à Premier League. O garoto acabou fazendo 15 jogos e anotando dois tentos pelo clube. Retornou ao Tottenham, dessa vez para ficar.

Problemas no ataque? Kane: a solução caseira

Veio a temporada 2013/14. Os Spurs vinham vivendo tempos problemáticos em seu ataque. Roberto Soldado e Emmanuel Adebayor simplesmente não conseguiam marcar gols. Kane era, naquela instância, a terceira opção do time, que começou o ano comandado por André Villas-Boas e terminou nas mãos de Tim Sherwood. Foi sob o comando deste que o inglês ganhou oportunidades reais e se saiu bem.

No ano completo, Harry disputou 19 jogos pelo Tottenham e marcou quatro tentos. Parece pouco se analisarmos a frieza dos números. O importante é perceber que a partir do momento em que suas chances vieram com habitualidade, os gols também apareceram. Entre as rodadas 33 e 35, o goleador marcou três tentos em sequência.

Pavimentou, pois, seu caminho para um futuro que aparentava ser promissor. Isso em decorrência da contratação do treinador Mauricio Pochettino, que vinha fazendo trabalho espetacular no Southampton. Mais que isso: o argentino era alguém que provara sua competência comandando jovens. A partir de 2014/15, tudo mudou na carreira de Kane. O atacante deixou de ser o garotinho que sonhava em se firmar com a camisa do clube de seu coração e honrá-la; tornou-se realidade.

No final de 2015, o comandante revelaria ao Guardian que idade não é critério para suas escolhas:

“Se um jogador merece jogar, tendo 17, 18, 19 ou 20 anos é o mesmo para nós”.

A importância de Pochettino

Pochettino chegou a White Hart Lane disposto a analisar as peças que tinha a seu dispor, isso incluía toda a extensão de seu elenco, considerando desde os mais jovens aos mais experientes. Foi diante desse contexto que ascenderam alguns garotos. Eric Dier, Ryan Mason, Andros Townsend e Nabil Bentaleb foram alguns dos nomes que mais espaço conquistaram. Só não ganharam tanto quando Harry Kane.

Recebendo de seu novo treinador confiança desde o início de sua trajetória e contando com a má fase de Soldado e Adebayor, o jovem inglês foi titular nas classificatórias da Europa League e marcou nas duas partidas contra os cipriotas do AEL Limassol. Na Premier League, proveu assistência para o gol de Dier já na primeira rodada e, a partir da 11ª rodada, fixou-se como titular da esquadra e nunca mais deixou de sê-lo. Em 2014/15, foi o jogador com maior número de jogos disputados no clube (51) e seu artilheiro, com 31 tentos.

 

O artilheiro que chegava para ficar

Seu cartão de visitas talvez tenha sido a partida contra o Chelsea, na 20ª rodada daquela EPL. Ele já tinha balançado as redes cinco vezes quando os Spurs receberam os Blues. Na oportunidade, marcou duas vezes, ofereceu uma assistência e sofreu um pênalti. O placar final de 5×3 para sua equipe colocou, em definitivo, Kane no centro dos olhares. O furacão finalmente aparecera.

 

Naquele ano, ainda faria mais três doubles, contra West Bromwich, o rival Arsenal e o QPR, além de um hat-trick frente o Leicester. Foi, com justiça, eleito o melhor jogador jovem da temporada inglesa. Dali em diante, a despeito de inícios de temporada em que não desembestou a marcar desde o começo (em 2015/16 o primeiro gol saiu na 7ª rodada; em 2016/17 na 4ª; e em 2017/18 também na 4ª), Kane já era uma estrela reconhecida, um artilheiro implacável.

Impressionante faro de gol a serviço dos Spurs e do English Team

Em 2015/16, foi o artilheiro da Premier League, com 25 gols; em 2016/17 também, mas, neste turno, com 29. Exímio finalizador, HurriKane se provou um jogador de grande repertório. Alguém capaz de marcar em finalizações de longa distância e dentro da pequena área, de cabeça e com ambos os pés. Mostrou também aptidão para inspirar o time às vitórias. Hoje, aos 24 anos, é a maior referência do time, o jogador procurado nas dificuldades. Não é para menos: em pouco mais de 170 partidas pelo clube, já superou a marca dos 100 gols.

Kane cada vez mais maduro

Em 2017/18, já deu mostras mais que suficientes de que segue vivendo momento mágico. Na UEFA Champions League, contra o Borussia Dortmund, ajudou o Tottenham a destroçar os aurinegros, que viviam ótimo momento. Foram dois gols e uma assistência, na vitória por 3×1; contra o APOEL um hat-trick. Na Premier League, doubles contra Everton, West Ham  e Huddersfield só reforçam mais essa situação.

Esse desempenho se repete quando o assunto é a Seleção Inglesa. Desde sua estreia, em março de 2015, Kane entrou em campo 23 vezes, balançando as redes em 12 ocasiões, destacando-se tentos marcados contra Alemanha e França. Aliás, é importante dizer que o goleador já capitaneou o English Team em três partidas, contra Escócia, Les Bleus e a Seleção Eslovena. Inexiste qualquer dúvida de que, sobretudo após a aposentadoria de Wayne Rooney da Seleção Inglesa, Kane passa a ser a principal referência da equipe.

“Ele [Kane] tem uma visão muita boa do jogo e está ansioso por liderar. Quero pessoas com capacidade para liderar, que são respeitadas pelo grupo e capazes de se impor nos momentos certos, lidando com as responsabilidades”, disse Gareth Southgate, treinador da Inglaterra ao Guardian, em junho de 2017.

A história de Kane é extremamente interessante. Rejeitado pelo clube de seu coração e pelo maior rival, continuou lutando por uma oportunidade. Ela apareceu e o jogador, dessa vez, foi aprovado no Tottenham. Realizou seu sonho de criança. Precisou, no entanto, provar-se em empréstimos e vencer a concorrência de nomes mais badalados. A paixão do torcedor por seu artilheiro poderia se legitimar apenas em seu desempenho, mas não é o que ocorre. O fato de representar o espírito das arquibancadas, faz de Kane um ícone que há muito não se via no Tottenham.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho), 24 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no O Futebólogo, no Chelsea Brasil e na Corner.