Luxa está feliz no Sport porque recebeu as chaves do clube

Vanderlei Luxemburgo é um profissional cujo currículo não dá margem a questionamentos sobre sua capacidade como técnico de futebol. Pentacampeão brasileiro com quatro times diferentes, ele é recordista em número de títulos da competição ao lado do lendário Lula, do Santos de Pelé. Também venceu a Copa do Brasil, treinou o galáctico Real Madrid e a Seleção brasileira, com a qual conquistou uma Copa América. Em suma, é alguém cujo nome está, sem qualquer dúvida, na lista dos maiores treinadores do futebol nacional em todos os tempos. Uma função que, no entanto, não o satisfaz mais: há pelo menos uma década, Luxa vem deixando claro seu desejo de ser um manager, o que significa comandar toda a estrutura de um departamento de futebol, e não apenas tomar decisões relativas ao time.

Flamengo, Cruzeiro, Atlético-MG e Tianjin Quanjian, da China, foram alguns dos clubes que compraram – oficial ou extraoficialmente – essa ideia, investindo o técnico de amplos poderes. Foram experiências abreviadas, que não renderam os frutos esperados e feriram bastante o ego de um profissional naturalmente vencedor e, por isso, incapaz de se habituar ao fracasso. Essa série de frustrações jogou o treinador em uma espécie de ostracismo que só acabou quando, no último mês de maio, o Sport foi procurá-lo. Só que o Recife vem sendo mais do que um recomeço na carreira de Luxemburgo: é o lugar onde ele, finalmente, conseguiu ter um clube para chamar de seu.

Desde que chegou à Ilha do Retiro, Luxa tem tido um respaldo quase absoluto, sem precedentes tanto na sua carreira quanto na história do clube. Um poder supremo, que ficou evidente em todas as “divididas” que o técnico vivenciou dentro do Sport e que, com a queda de rendimento do time na temporada, parece ter ficado ainda maior. Pelo menos foi essa a impressão que ficou após a diretoria anunciar uma intenção de renovar contrato com o treinador, para que ele siga no cargo até o fim de 2018.

Elenco acuado

Diego Souza puxa a fila dos jogadores rendendo abaixo do que podem no Leão. (Foto: Williams Aguiar/Sport Club do Recife)

No clube rubro-negro, Vanderlei encontrou um grupo relativamente bem entrosado de jogadores. A maioria deles atua no Sport há alguns anos, e muitos se relacionam também fora dos gramados. Por outro lado, é também um elenco que, à exceção de Magrão e Durval, lendas leoninas, não conquistou títulos importantes com a camisa rubro-negra. Esse histórico provoca uma desconfiança em parte da torcida, e esse sentimento foi identificado com maestria pelo treinador.

Quando os primeiros resultados negativos apareceram, Luxemburgo não hesitou em apontar o dedo para os jogadores, acusando os líderes técnicos do grupo de falta de compromisso. O ápice desse discurso foi a entrevista coletiva após a goleada sofrida ante o Grêmio, já abordada aqui no Doentes por Futebol. Depois desse episódio, e da subsequente proposta de renovação apresentada ao treinador pela diretoria, ficou bem claro que os atletas – principalmente aqueles mais “paparicados” – precisavam se acostumar a uma nova realidade dentro do clube.

Diretoria passiva

Principal fiador de Luxemburgo, Dubeux dá autonomia total ao treinador (Foto: Reprodução)

Esse novo ambiente no dia a dia rubro-negro é praticamente o oposto do que fez boa parte desses atletas romperem paradigmas de mercado para assinarem com o Sport. De um clube que procurava manter um clima de tranquilidade e confiança para extrair o máximo de atletas em baixa ou em ascensão, o Leão se tornou um tribunal de inquisição, onde nenhum jogador tem direito a atravessar uma fase ruim, sob pena de ser acusado, com a chancela da comissão técnica, de desinteressado, ou coisa pior.

Esse cenário foi trazido à tona muito por conta do ego e dos métodos de Luxemburgo, é verdade, mas não teria se consolidado se o departamento de futebol leonino estivesse sendo ocupado por dirigentes com convicções firmes e, acima de tudo, coragem. Desde 2014, quando esse grupo político assumiu o comando do clube, a torcida do Sport sente essa passividade sempre que os holofotes recaem sobre questões extracampo. Na atual crise, esse vácuo de poder foi rapidamente preenchido pelo experiente treinador, que faz um papel de escudo já desempenhado, outrora, por Eduardo Baptista e Diego Souza.

Diretor de futebol, Gustavo Dubeux toca violino enquanto o navio naufraga: diz enxergar evolução em uma equipe que, nas sete primeiras rodadas do returno do Brasileiro, precisou de 80 (oitenta!) finalizações para fazer um gol, e chega a outubro sem vencer no campeonato desde julho. Já o executivo remunerado, Alexandre Faria, mostra que já entendeu quem é que manda. Foi o primeiro a legitimar o esporro de Porto Alegre, garantindo que “não podia ser o treinador errado”.

Torcida inflamada

Muitos torcedores compraram a ideia de que Diego Souza e outros jogadores estariam boicotando o Sport (Foto: Reprodução)

A retórica e a prática agressivas de Luxemburgo, que fizeram sucumbir diretoria e elenco, têm recebido muito apoio das arquibancadas. O treinador tem mostrado sagacidade e inteligência para falar exatamente aquilo que a maior parcela da torcida quer ouvir. Suas entrevistas coletivas se limitam ao discurso da falta de vontade dos atletas, que foi engolido como verdade absoluta por grande parte dos torcedores, ou à autoexaltação da sua carreira, como se suas conquistas tivessem algum poder de interferir no futebol tétrico apresentado pelo Sport nos últimos três meses.

Foi assim, conquistando o torcedor pelo ouvido e ocupando o vácuo deixado por dirigentes hesitantes ou ineptos, que Vanderlei Luxemburgo virou dono das chaves do Sport. Mesmo sendo diretamente responsável pelo forte declínio rubro-negro no Brasileiro – o time terminou a 26ª rodada na zona de rebaixamento –, o técnico tem na mesa uma proposta de renovação e parece ser o senhor do destino rubro-negro na temporada. Enquanto a diretoria se abstém de assumir suas responsabilidades e tenta parecer fiel a uma filosofia de continuidade na comissão técnica, ele vai ficando, tentando controlar a fogueira que ele mesmo alimentou. Se não conseguir, não tem problema. Sempre é tempo de começar um novo projeto.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.