Um goleiro chamado Fábio

  • por Victor Gandra Quintas
  • 30 Dias atrás

“Olá, meu nome é Fábio e eu quero contar uma história!

Tudo começou há 37 anos, quando nasci, no Mato Grosso. Foi lá, em Nobres, que vivi toda a minha infância. Não tive muitas oportunidades no futebol nesta época. Na verdade, eu nem me importava, pelo menos até meus 13 anos, quando me mudei para outra cidade com minha família e, por influência de vários amigos, resolvi buscar uma vaguinha no clube da minha cidade.

Bem, algum tempo depois jogando na base de alguns clubes e em outras equipes semiprofissionais, eu me mudei para um clube profissional, o União Bandeirante, do Paraná. Eu já estava com 17 anos. Fiz 23 partidas no clube paulista, até me mudar, no ano seguinte, para o Atlético Paranaense.

Mais um depois e minha história com o Cruzeiro começava, mas apenas um ”namorico” de verão. Acontece que, de volta ao União, fui emprestado para o Maior de Minas, onde fui reserva, com 20 anos, do goleiro André. Pelo menos ganhei a Copa do Brasil, mesmo fazendo somente 4 jogos pelo clube.

Foto: GloboEsporte.com – Fábio já era alto desde criança.

Dali fui para o Vasco, onde permaneci por 4 anos e fiz uns 150 jogos. Não vou negar, foi um bom período, ainda mais depois que o Hélton saiu e pude ser titular. Lembro que, em 2000, nós ganhamos a Copa João Havelange, que passou a ser reconhecida como o Brasileirão daquele ano, além da Mercosul. Em 2003, já titular, ganhamos o carioca. Foi neste tempo também que estive pela primeira vez com a Seleção Brasileira. Fiz parte de algumas convocações para as Eliminatórias da Copa do Mundo de 2006.

Mas, o lado negativo, foi que tive atrito com o presidente do Vasco, Eurico Miranda, e fiquei afastado do clube por alguns meses. Infelizmente tive que entrar na justiça para resolver meu futuro. Foi então que a minha verdadeira história com o Cruzeiro começou.”

A apoteose de Fábio

E foi assim que tudo começou para Fábio no Cruzeiro. Parecia que, depois deste período pré-Cruzeiro (com a pequena passagem em 2000), faria com que o jogador fosse apenas mais um que vestira esta camisa. Ledo engano!

O cruzeiro passava por uma transformação na época. Era o melhor time brasileiro, vindo de um 2003 inesquecível, ano no qual venceu a chamada “Tríplice Coroa”, com os títulos Mineiro, da Copa do Brasil e Brasileiro. Foi um ano impressionante, até hoje não igualado por nenhuma outra equipe. Mas, como sempre acontece no futebol brasileiro, e planejamento não é um forte, o time perdeu seus principais jogadores. Um deles foi o goleiro Gomes, que partia para jogar no PSV, da Holanda.

Fábio foi o escolhido para assumir a camisa 1 do clube de Minas. Aproveitando-se do problema que envolvia o jogador e seu então clube, o Vasco da Gama, o Cruzeiro, treinado por Levir Culpi, fez proposta para que o jogador assinasse.

De lá para cá são 12 anos de história. Muita coisa aconteceu neste tempo. Fábio viveu altos e baixos, como qualquer atleta vive em suas carreiras. Houve tempos que parecia que a relação acabaria, mas, por sorte do clube e de seus torcedores, não houve desacordo.

Desde que foi contratado Fábio se mostrou promissor. Fazia boas defesas e transmitia segurança aos colegas. Foi importante na transição do clube mineiro, que vinha, como dito, de um ano excelente, mas amargava um desempenho abaixo do normal neste tempo. Mesmo assim o goleiro já colecionava alguns títulos, como o estadual de 2006.

O famoso “gol de costas”

Fábio era um jogador com muita confiança, é isto, apesar de parecer uma qualidade, era seu calcanhar de Aquiles. Por muitas vezes o goleiro abusava da sorte, inclusive driblando atacantes dentro da área, fazendo o coração dos torcedores cruzeirenses disparar.

Mas foi no segundo ano depois de sua chegada o pior momento do jogador com a camisa do Cruzeiro. O ano de 2007 será sempre lembrando como o ano do famoso “gol de costas”. Durante a disputa do campeonato mineiro, o Cruzeiro sofreu uma das raras goleadas para seu maior rival, o Atlético Mineiro.

 

Naquele jogo, o primeiro da decisão estadual, já perdendo por 3×0, o goleiro reclamava do terceiro gol marcado pelo rival. Voltava para o gol quando o juiz autorizou o reinício da partida e, sem notar que a bola estava em jogo, só percebeu o que havia acontecido quando o placar mostrava os 4×0 e a torcida atleticana comemorava efusivamente.

O lance foi bastante bizarro, com uma sucessão de erros do time. Araújo, atacante celeste, deu dois toques na saída da bola, cometendo infração, e foi assim que Vanderlei se aproveitou, surpreendendo o time do Cruzeiro ao finalizar para o gol, com Fábio retornando a sua posição.

Mas não importante como aconteceu, aquele gol ficou como uma mancha na carreira do goleiro que começava a se construir no Cruzeiro.

Tempo de virada

Mas não se pode esquecer o gol de costas. Por pior que tenha sido naquele momento, foi um período de virada para Fábio. Foi ali que percebeu que ainda precisava amadurecer, se quisesse fazer história no Cruzeiro. Sabia que seus companheiros dependiam de seu comando na defesa, e mais que isso, sabia que a torcida cruzeirense queria vê-lo brilhar, e provar definitivamente de que estava no lugar certo.

E foi assim que Fábio abandonou seu lado displicente. Já diminuíra os lances que assustavam a todos, com seus dribles nos atacantes (mas os mantinha esporadicamente), assumindo a liderança da equipe e, aos poucos, se tornando um dos pilares do Cruzeiro.

Para tanto, vencera o mineiro dos dois anos seguintes, em 2008 e 2009. Ainda em 2009, fora vice-campeão da Libertadores, com Adílson Baptista como treinador, perdendo o título dentro do Mineirão, em uma derrota para o Estudiantes da Argentina, que tinha em Verón sua maior estrela.

Fábio fez parte da Seleção na Copa América de 2014.

Já em 2010 o goleiro se consagrou como um dos melhores do Brasil. Gravou suas mãos na calçada da fama do estádio Mineirão e declarou seu amor ao Cruzeiro, como disse ao portal Terra:

Tenho um carinho muito grande pelo Vasco. Foi o clube que me deu oportunidade, fui muito feliz lá, cheguei à Seleção principal (Copa América 2004) e amadureci muito. Já o Cruzeiro é a minha casa. Tenho uma história no clube. Me aperfeiçoei, cresci muito. Hoje não trocaria o Cruzeiro por nenhum outro clube do Brasil e até mesmo do exterior. O carinho do torcedor comigo é muito grande e quero retribuir isso cada vez mais“.

Ainda naquele ano, quando o clube celeste fora vice-campeão brasileiro, Fábio era reconhecido como o melhor goleiro da competição. Ganhara a Bola de Prata da revista Placar, importante e tradicional prêmio concedido ao melhor da competição nacional.

Foto: ESPN – Seleção da Bola de Prata 2013

Um pouco de desconfiança

Apesar de tudo, Fábio sempre levantara dúvidas entre alguns torcedores, mesmo sendo unanimidade entre todos os treinadores que o comandaram. Esta desconfiança adivinha do gol de costa de 2007. A falta de grandes títulos também pesava. Alguns torcedores, os mais supersticiosos, preferiam associar esta falta de conquistas com a presença do goleiro, do que perceber que a falta de organização da direção cruzeirense, que passava por transição com Zezé Perrella, que dívida a função de presidente do clube com sua carreira na política.

Foto: Cruzeiro.com.br – Gomes, Raul e Fàbio

Em 2011 e 2012, mesmo com parcela de desconfiança, Fábio ia escrevendo sua história no Cruzeiro. Completava 400 jogos como titular do time, batia recorde de defesas de pênalti (que jamais fora um de seus pontos fortes) e ainda se tornava recordista prêmios de melhor goleiro atuando em Minas Gerias.

A consolidação

Finalmente o Cruzeiro passava por um período de estabilidade. Sem os irmãos perrella à frente do clube, cabia a Gilvan Tavares o cargo de presidente, a necessidade de apagar o ano de 2012, quando o clube passou maus bocados, com muitas trocas de técnicos, e só se recuperou no final da temporada.

 

Assim, com um 2013 mais calmo, o Cruzeiro, liderado pelo então capitão Fábio, viveria um excelente biênio. Os títulos do Campeonato Brasileiro nos anos de 2013 e 2014 elevavam o goleiro ao status de lenda do clube. Fábio foi um dos grandes nomes neste tempo, com suas importantes defesas e sua forte liderança. Esta boa fase foi consagrada ao ganhar novamente a Bola de Prata da Placar, e agora também com a ESPN, ao final de 2013. Em 2014 completaria seus 600 jogos com a camisa 1 do Cruzeiro.

Planos, lesão e legado

Após este período glorioso, Fábio declarara, em 2013, que gostaria de encerrar a carreira ao final de 2016. No entanto o destino lhe trouxera o pior momento da carreira, com uma torção no joelho, em agosto daquele ano, deixando-o afastado até janeiro de 2017. Foi um período bastante complicado, com a imprensa cravando que o atleta encerraria a carreira, desistindo do futebol, como disse o jornal O Tempo.

Mas Fábio não se rendeu, e, ao retornar deste tempo de lesão, assumiu novamente a titularidade, para então completar 700 jogos pelo Cruzeiro e ganhar a Copa do Brasil de 2017, sendo um dos principais jogadores do clube na competição, talvez o melhor de todo o torneio, mesmo que a Federação preferisse premiar outros atletas, como Gatito do Botafogo (melhor goleiro) e Diego do Flamengo (melhor jogador).

Fábio é o jogador em atividade que está a mais tempo em um clube Brasileiro. São 12 anos e mais de 730 partidas, segundo o Site Oficial do Cruzeiro. Passará, com facilidade a marca dos 800 jogos como titular, ainda mais que seu contrato só se encerra em 2018. E sabe-se lá se ele resolverá encerrar a carreira ou ainda, mesmo depois dos 38 anos, continuará no clube. Renovou o contrato para até 2019, segundo o site oficial do clube.

De toda forma, o clube mineiro conta com um substituto a altura. Rafael segue os passos do goleiro mais velho, sendo seguro toda vez que se faz necessário. Nove anos mais novo que Fábio, assume o posto de sucessor com segurança, tendo no outro a sua principal referência na carreira.

Ignorado na Seleção Brasileira

Mesmo sendo um dos melhores goleiros brasileiros nos últimos 10 anos, Fábio praticamente não foi convocado para a Seleção. É estranho observar tal descaso – já que não há melhor palavra para a situação –  com o atleta.

Em todos os anos, treinadores no comando do Brasil, mesmo elogiando as atuações do goleiro do Cruzeiro, o preteriam a outros goleiros, alguns até mesmo questionáveis. Quem não se lembra de Doni na Copa do mundo de 2010. Aliás, mesmo em amistosos, Fábio foi pouco lembrado.

Algumas declarações questionando os critérios de convocações, principalmente quando Dunga era o treinador, afastaram Fábio da seleção da CBF. Também, em alguns anos, como em 2014, haviam goleiros que passavam por melhor fase, como Victor, que vencera a Libertadores pelo Atlético.

Fato é que Fábio é um dos grandes injustiçados da Seleção. É um nome sempre lembrado entre 9 a cada 10 torcedores brasileiro e jornalistas, não só entre cruzeirenses ou profissionais que cobrem o clube. Agora, aos 37 anos, suas chances são mínimas, mas o goleiro ainda mantém a esperança, como declarou ao Superesportes. Se Buffon jogará uma Copa do Mundo com 40 anos, por que não Fábio? Claro, Fábio não é o melhor da história na posição, mas o cruzeirense tem suas qualidades.

Uma questão de Fé

Por fim, não poderia deixar de falar da religião de Fábio. Um assunto polêmico, principalmente no futebol. Se apegar à Fé fez com que Fábio tivesse a virada na carreira após o vexame em 2007. O próprio atleta destacou em uma entrevista ao GloboEsporte.com, em 2015.

A forma como o goleiro lida com sua crença em Deus causa, muitas vezes, desconforto em algumas pessoas. Chegando ao ponto de até membros da imprensa questionar sua crença. A verdade que isto pouco importa, ou deveria pouco importar. Em um momento que muitos atletas se apegam à mídia, ao dinheiro e à fama, Fábio busca na religião sua segurança. E isto o tem ajudado. Cada um escolhe a forma de viver, e se não estiver prejudicando ninguém, pelo contrário, contribui para sua evolução pessoal, tudo bem.

Daqui para a frente

Fábio está na história do futebol brasileiro, isso é inegável. É um dos maiores ídolos do Cruzeiro. Se perguntar para qualquer torcedor do clube, hoje, com certeza estará entre os 5 jogadores mais lembrados, e com razão. Este status é mérito do atleta e de mais ninguém.

O ano ainda não acabou, mas é improvável que mais coisas cheguem ainda este ano. Mas em 2018 Fábio irá atrás de de dois sonhos: a Libertadores da América e a Seleção Brasileira. Mesmo que não alcance estes objetivos, será lembrado como um dos maiores goleiros que o Cruzeiro já teve, posição compartilhada somente com Raul Plassmann, mas em meio a outros grandes nomes, como Dida, Gomes, André Douring e PC Borges.

Comentários

Natural de Belo Horizonte. Torcedor do Cruzeiro e da Juventus. Um Doente por Futebol. Desde pequeno um apreciador do esporte mais popular do mundo, preferindo mais em acompanhar do que jogar (principalmente por não ter talento algum com a bola).