Luciano Spalletti e a construção de uma nova Inter

  • por Lucas Sousa
  • 22 Dias atrás

30 títulos nacionais, seis continentais e três mundiais. A galeria de troféus da Inter de Milão é das mais completas do planeta. Uma história riquíssima, recheada de grandes nomes e temporadas memoráveis. No entanto, o livro nerazzurri não ganha um capítulo compatível com os anteriores há um bom tempo.

O último grande momento da Internazionale foi na virada da década passada. Ao final do primeiro decênio dos anos 2000, quando culminou uma sequência de cinco títulos nacionais com a conquista da Liga dos Campeões. De lá pra cá, nada muito relevante. A Coppa Italia, em 2010/2011, foi o único brilho de um clube que não foi além da quarta colocação na Serie A desde então.

Foto: Inter/Site oficial – A última Inter campeão da Europa, em 2010

Dez técnicos se passaram e muita grana asiática entrou nos cofres do clube até que a Inter iniciasse uma reação. A temporada 2017/2018, sob o comando de Luciano Spalletti, é a mais animadora desde os tempos de José Mourinho. Finalmente o clube de Milão pode olhar pra frente e ter perspectiva de melhoras, porque a Inter tem sobre onde construir.

Novo comandante de pulso firme

A começar por Luciano Spalletti. O italiano de 58 anos teve duas boas temporadas na Roma. Classificou o clube da capital para a Liga dos Campeões e incomodou a Juventus na corrida pelo título italiano. Além dessa experiência no futebol da bota, Spalletti traz uma personalidade importante para o momento da Inter. O homem barrou Francesco Totti na Roma, sustentou uma relação pouco amistosa com o ídolo e ainda assim manteve a equipe nos trilhos.

Foto: Inter/Site oficial – Spalletti começa a ajeitar o time nerazzurri

Nesse início de trabalho, o novo comandante interista tem alcançado bons resultados na aplicação do seu modelo de jogo: ser vertical e agredir o adversário, mas com ordem e critério. Pressionar alto para quebrar o ritmo rival, mas também ser capaz de defender no próprio campo para explorar a verticalidade. O gol diante da Sampdoria é um resumo da ideia proposta.

O time não está maduro, mas mostra ter rumo. Com a combinação de individualidades importantes, a Inter cresce e faz um belo início de temporada.

Mercado bem feito

Durante a janela de transferências de verão, muito se falou das contratações do rival Milan. Enquanto o Milan comprava muito, a Internazionale era cirúrgica e investia cerca de 50 milhões de euros em três negócios fundamentais para formar seu time titular: Milan Skriniar, Matías Vecino e Borja Valero.

Um zagueiro que sabe jogar

O jovem Skriniar é o arquétipo de zagueiro que casa muitíssimo bem com a ideia de Spalletti. Capaz de se impor fisicamente com seus 1,88m, o eslovaco está longe de ser um “zagueiro-zagueiro”, puramente rebatedor e de duelos corporais. Utiliza-se disso nos momentos em que o time recolhe as linhas para defender sua área. Mas também é capaz de jogar longe do seu gol, graças a sua agilidade, capacidade de recuperação e poder de desarme.

 

Com a bola nos pés, Skriniar também é fundamental para o jogo da Inter. O zagueiro faz do lado direito o setor forte na saída de bola, com passes que superam a pressão rival e colocam o time à frente. Neste trabalho, o eslovaco ganha o apoio de Vecino, outro pilar na iniciação do jogo nerazzurri.

A bola de segurança

O camisa 11 é mais um apto a tirar a bola de trás e fazer a equipe ganhar campo: oferece linhas de passe para os defensores, gira e conecta alguém do quarteto ofensivo rapidamente. Não é o meio-campista que fará um recital de passes espetaculares e organização. Mas é alguém que oferece soluções simples e rápidas, dando fluidez e velocidade no campo defensivo.

O maestro da Inter

O grande organizador de tudo é Valero. Atuando como meia central no 4-2-3-1, o espanhol dá sentido ao jogo azul e preto. Se Skriniar e Vecino dão o dinamismo para a saída, Borja dá a ordem.

Escalação base que Spalletti tem utilizado na Serie A, em seu início na Inter.

Pode assentar o time no campo ofensivo, segurando a bola ou ajeitando para quem vem de trás. Assim como pode dar sequência à velocidade e lançar alguém em profundidade. Partindo do centro, Valero se desloca oferecendo apoios aos seus companheiros e faz o time andar, especialmente quando cai pelo lado direito.

Foto: Inter/Site oficial – Borja Valero dá ritmo e precisão ao jogo da Inter

Esse peso dado por Spalletti à destra do seu time fez Antonio Candreva ressurgir como nome importante do plantel. Embora não seja brilhante tecnicamente, participa desde a saída de bola até a definição das jogadas, oferecendo aproximações ou atacando as costas da defesa. É um jogador simples e útil, que vai oferecer pouco na definição das jogadas além de cruzamentos.

Perisic e Icardi, artilharia pesada dos nerazzurri

No outro lado, está Ivan Perisic, agressivo, vertical e com poder de fogo. Se Candreva e o lado direito da Inter estão ligados à elaboração, no outro flanco está a conclusão. O croata é quem mais chuta a gol na equipe. E o segundo que mais dá passes que viram finalização. Bola no seu pé é quase certeza de uma investida ao gol rival; especialmente por conta da sua relação com Mauro Icardi.

A dupla forma uma das combinações mais perigosas da Itália. Dois jogadores agudos, de poucos toques e quase que totalmente direcionados ao gol. Perisic sempre serve a Icardi e Icardi sempre se coloca como opção a Perisic. Um melhora o outro, e quem ganha com isso é a Inter.

 

Também porque esse jogo vertical proposto por Spalletti ajuda muito o centroavante argentino. Icardi não é 9 só na camisa, seu jogo é muito 9. É daqueles que fica isolado grande parte da partida, quase não participa da construção dos ataques. Tanto que tem, em média, um passe a cada seis minutos de jogo. Porém, nos últimos metros do campo, sempre é opção para finalizar cruzamentos ou enfiadas de bola nas costas da defesa, frequentemente com um ou dois toques. Por isso se encaixa tão bem com Perisic e produz tantos gols no time de Spalletti.

Sucesso? Só o tempo irá dizer

Ainda é cedo para cravar o sucesso nerazzurri. Depende de diversos fatores extracampo. Direção, comissão técnica e jogadores terão que manejar ao longo da temporada. Mas é fundamental que, dentro das quatro linhas, o time indique um padrão. É necessário que a Inter vislumbre uma forma de jogar e consiga resultados que tragam de volta os bons tempos.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.