É hora de Tite reconhecer as falhas e evoluir

  • por Victor Gandra Quintas
  • 24 Dias atrás

Antes de mais nada, que digam que só gosto de “cornetar” o trabalho do Tite frente à Seleção, afirmo que o trabalho do treinador é um dos melhores dos últimos anos. Reafirmo, como fiz em jogos anteriores, que o Brasil tem muito potencial e deve sim, ser a seleção favorita ao título mundial.

Mas a cada convocação e a cada jogo percebemos que a uma possível conquista será na base de muita dificuldade. Não, eu não digo que seria fácil de toda forma, mas o que vemos é uma seleção dificultando algumas coisas em que deveria evoluir.

POSICIONAMENTO DE RENATO AUGUSTO

Em primeiro lugar vamos comentar a forma que o Renato Augusto tem sido aproveitado na formação do Tite. Utilizando-se do 4-3-3, com Casemiro à frente da defesa, a formação do Brasil aposta no controle de meio-campo para dar liberdade aos laterais e, claro, ao forte trio de ataque, liderado por Neymar.

Foto: Pedro Martins / Mowa Press

Mas, neste jogo frente à Inglaterra, e em algumas partidas anteriores, podemos ver que Renato Augusto acaba “sobrando” na partida. Esta formação do Brasil é muito boa quando o adversário ataca, já que você limita o avanço adversário e tem saída rápida pelos lados, tanto pelo lado direto com Daniel Alves e Coutinho, quanto pela esquerda com Marcelo e Neymar.

Mas, quando o Brasil precisa buscar o jogo, vemos um Renato Augusto perdido. Em vários momentos o ex-corintiano não se posiciona para dar opção aos colegas. Contra a Inglaterra, em questão, sua função seria de cobertura ao Marcelo, mas como o lateral não teve muitas chances para atacar, o posicionamento de Renato não ajudava a evolução no Brasil. O que vimos, portanto, foi um jogador apenas inflando o meio-campo.

E não é culpa do jogador. Ele tem treinado assim, ainda mais para dar mais liberdade ao Paulinho, que transita mais ao ataque. Aliás, Paulinho mesmo pouco aproveitou sua principal característica, os avanços ao ataque. Uma das únicas vezes, quase no final da partida, depois de jogada individual do Neymar, o volante do Barcelona quase marcou, parando em Hart.

POSSE DE BOLA IMPRODUTIVA

O Brasil teve 63% de posse de bola. Uma marca excelente, não fosse pela ineficiência da criação de jogadas. Não adianta dominar a posse da bola se ela não tem um destino concreto para a finalização das jogadas. Fica evidente a falta de qualidade na criação quando vemos que o Brasil conseguiu errar 45 passes na partida, média de 1 erro a cada 2 minutos. Esta marca negativa acontece, pois, sem a criação, os jogadores tentam mais jogadas individuais, encaixar algum passe mais incisivo, mas sem segurança.

Este era um jogo que a bola deveria circular mais sim. O Brasil cumpriu a função de manter a posse de bola, mas precisava infiltrar mais na defesa adversária, com uma criação melhor. Não havia um jogador que pensasse a distribuição de bola no meio-campo.

O TRIO DE ATAQUE

Inteligência, controle de bola, mobilidade, drible, etc. Estas são principais características do trio de ataque do Brasil. No entanto, falta algo: a criatividade. Mais uma vez o Brasil depende da individualidade dos jogadores de ataque, coisa que sempre aconteceu na história do Brasil em Copas. Sorte que temos craques para isso, é claro. Mas depender disso sempre, não é boa coisa.

Foto: Pedro Martins / Mowa Press

Coutinho nitidamente não se sente confortável atuando pelo lado direito. Falta de vontade não tem, pelo contrário, mas a inadaptabilidade do atleta na função o atrapalha. Neymar, hoje, ficou bastante isolado, tendo poucas opções e toques. E pior, foi marcado, muitas vezes, por 3 ou 4 jogadores, o que limitava muito seus movimentos. Cabia a Jesus recuar buscando o jogo, mas parava na barreira inglesa. Bem, é assim que vai ser frente a grande parte das seleções com que o Brasil jogar.

CONSTRUÇÃO DE JOGADAS

Com o meio-campo travado, as jogadas pelas laterais reduzidas e a defesa inglesa impedindo o trio de ataque de jogar, coube muitas vezes a Daniel Alves de fazer a bola transitar no campo. O lateral direito, que foi capitão nesta partida, se posicionava muitas vezes no meio de campo, buscando a bola na defesa e tentando jogar ao ataque. Bem, esta não deveria ser sua função, mas como suas necessidades defensivas não foram exigidas, o jogador do PSG pôde tentar atuar em outra função. Claro, continuou improdutivo.

Foto: Pedro Martins / Mowa Press

 A INGLATERRA DE SOUTHGATE

O Brasil é, se não a melhor seleção do mundo atualmente, umas das 3 melhores. A Inglaterra, mesmo jogando em casa, e ainda tendo vários jogadores importantes fora por lesão, optou por se defender, abdicando do jogo. Trata-se uma opção covarde? Pode até ser, não fossem os argumentos já citados. Jogando em casa, melhor sair com um empate do que com a derrota, não é mesmo?

Para o Brasil foi excelente esta forma da Inglaterra jogar, pois pôde mostrar as fragilidades do time de Tite diante de equipes muito fechadas.

Foto: Pedro Martins / Mowa Press

Southgate fez a leitura correta do comando canarinho. Posicionou o seu time com 3 zagueiros altos, cada um preso em algum atacante brasileiro, com os seus laterais ajudando a limitar os avanços brasileiros. No meio, Dier era o cara que tentava fazer a bola girar, buscando, ocasionalmente, os atacantes em algum lance rápido. Teve pouquíssimas chances, já que queria mesmo era não tomar gols. A função de Southgate foi ainda facilitada com a falta de criatividade do meio-campo brasileiro.

AS SUBSTITUIÇÕES DE TITE

Se uma formação não está dando certo, o que devemos fazer? Mudar! Bem, Tite fez três substituições, mas a formação e forma de atuar do time continuou a mesma. Depois de metade do segundo tempo jogado, o treinador resolveu tirar Renato Augusto e Coutinho (que, como cotado, não estavam ajudando em nada o time) e colocar Fernandinho e Willian.

Foto: Pedro Martins / Mowa Press

Para Tite, Fernandinho pode fazer funções mais ofensivas. Muitas vezes ele já comentou isso em entrevistas. Mas sabemos, ao acompanhar o Manchester City, que ele atua mais fixo no meio, com funções quase que somente defensivas. Assim, Fernandinho entrou em campo tentando fazer a mesma função de Renato Augusto. Não acrescentou muito, obviamente, apesar de alguns bons desarmes e até um chute a gol em falha do meio-campo inglês. Mas, em essência, o time continuou do mesmo jeito.

Já Willian, muito mais habituado ao lado direito do campo do que Coutinho, teve bons momentos, com sua individualidade trazendo ar novo ao ataque. O problema que esteve muito sozinho na função, não tendo muito sucesso no que tentava.

A terceira substituição foi ainda mais ineficaz. Firmino no lugar do Jesus. A característica dos atletas é bastante parecida, com mobilidade no ataque. Mas novamente o mesmo problema, o jogador ficava isolado entre os atletas ingleses.

Houve, depois das mudanças, algumas chances, mas todas dependendo da individualidade dos jogadores (como no lance do Paulinho) ou nos pouquíssimos erros da defesa da Inglaterra (o chute do Fernandinho). A mudança de postura do brasil só aconteceu quando Southgate mudou o seu time e tentou buscar mais o ataque nos últimos 10 minutos, oferecendo espaço ao Brasil.

ALTERNATIVAS DE JOGO

Este era, evidentemente, um jogo que precisava de alternativas de ataque. Mesmo que as mudanças na partida não surtissem efeito, pelo menos seria algo diferente. Em alguns jogos anteriores, Tite já havia tirado Renato Augusto e colocado Willian, trazendo Coutinho para o centro da armação. Este era um jogo que pedia isso. O Brasil precisava de mais atletas criativos no meio, que pudessem encontrar um meio de penetrar na defesa inglesa.

Outra característica de jogador que seria interessante nesta partida era a de um jogador que, dotado de mais força física, poderia fazer frente aos zagueiros ingleses. Diego Souza era a opção no banco de reservas para esta função. Aliás, o jogador do Sport foi elogiado por Tite exatamente por isso.  Esta foi a defesa que o treinador fez ao ser questionado da convocação de Diego Souza. Mas, quando o jogo precisou, ele optou por Firmino, que faria o mesmo que Gabriel Jesus vinha fazendo na partida.

Então, em uma partida como esta, vemos que as convocações devem ser questionadas. Coutinho, segundo disseram durante a transmissão do jogo, não teria condição de jogar 90 minutos, já que voltava de lesão. Assim, se Tite optasse pelas mudanças sugeridas neste texto, Coutinho não poderia ser o armador no time. Olhando para o banco de reservas, quem poderia ser? Diego ou Giuliano. Bem, dois jogadores que não mudariam muita coisa (aliás, o primeiro vem tendo muito mais jogos ruins no Flamengo do que jogos bons). E, se Tite não utiliza Diego Souza para uma função que ele mesmo disse que o jogador faria, por que convocá-lo?

Leia mais: Tite não merece ser questionado em suas convocações?

E AGORA?

Esperemos, então, que este jogo tenha realmente servido para o que muita gente espera, que os erros observados sejam corrigidos. Não basta esperar que os adversários se adaptem ao Brasil, para facilitar ao time de Tite de jogar, mas cabe ao treinador realizar as mudanças necessárias para mudar a partida. Em uma Copa do Mundo, em que apenas um jogo se decide a vida da seleção, as decisões devem ser rápidas e com pouca margem de erros.

E, mais uma vez, nos preocupamos com as opções de banco, que se mostram limitadas à certas exigências. No entanto, como já mostrado nas diversas convocações, cabe a nós confiar nas definições de Tite e torcer pelo hexa.

Comentários

Natural de Belo Horizonte. Torcedor do Cruzeiro e da Juventus. Um Doente por Futebol. Desde pequeno um apreciador do esporte mais popular do mundo, preferindo mais em acompanhar do que jogar (principalmente por não ter talento algum com a bola).