A evolução de Sterling é mais um grande trabalho de Guardiola

Raheem Sterling despontou no Liverpool como grande esperança do torcedor dos Reds. Ao lado de Philippe Coutinho, Daniel Sturridge e Luis Suárez, infernizou defesas. Entortou marcadores e sinalizou que poderia se tornar um jogador de altíssimo nível. Dessa forma, motivou o Manchester City a despejar mais de £40 milhões em um menino que, naquela altura, tinha apenas 21 anos. Porém, apesar de deter números sólidos com a camisa dos Citizens, o winger foi muitas vezes criticado e até ridicularizado. Dizia-se que era improdutivo e, sobretudo, que finalizava muito mal. Porém, a chegada de Pep Guardiola mudou por completo o panorama da carreira do inglês.

A adaptação de Pep Guardiola à Inglaterra

Todos os times por onde passou o treinador Pep Guardiola passaram por períodos de mudanças paradigmáticas. Com o Manchester City não foi diferente. Em 2016/17, aos poucos o catalão foi implementando as suas ideias, ao mesmo tempo em que diminuía o espaço de atletas experientes como Pablo Zabaleta e Yaya Touré. Na Inglaterra, pela primeira vez em sua vida, o treinador encontrou um cenário em que não existia um conceito pronto e bem definido no clube. Não havia um modelo, ou prática, consolidados como a forma com a qual se espera que o time jogue, algo com o que teve de lidar no Barcelona e no Bayern de Munique.

É também verdadeira a afirmação de que Pep nunca havia estado em um contexto de futebol tão competitivo como é o da Premier League. Na Espanha ou Alemanha, a disputa pelo título nacional nunca incluiu mais do que três equipes, realidade totalmente diferente da vivida em solo inglês. Guardiola viveu um ano de avaliações. Esse terminou por confirmar as saídas de jogadores como Zabaleta, Gael Clichy, Aleksandar Kolarov, Jesús Navas e até mesmo de Nolito, que foi aposta fracassada do comandante.

Foto: ManCity.com

Outra realidade rapidamente percebida foi a vontade de renovar sua equipe e apostar em jovens jogadores. Algo que já havia feito em outras alturas de sua carreira. Assim, apostou nas contratações de Gabriel Jesus e foi dando, gradualmente, espaço a Leroy Sané; ganhou confiança no futebol de John Stones; e renovou a fé em Sterling. Quando já se imaginava que o jogador surgido no Liverpool não passaria de uma promessa, Guardiola insistiu em seu uso.

Confiança desde o início

Moldando o time para atuar com apenas um jogador na contenção, dois meias pela faixa central, dois ponteiros e um centroavante (tudo isso com muita fluidez), o treinador insistiu em Sterling desde o início da temporada 2016/17. Enquanto boa parte do público seguia dizendo que o jogador era “apenas velocidade”, que era improdutivo, tomava decisões erradas e finalizava terrivelmente (críticas essas que muitas vezes condiziam de fato com a realidade), Pep enxergava qualidades; via no camisa sete dos Citizens o potencial que levara o clube a gastar tanto em sua contratação.

“Estou muito satisfeito com o que ele [Sterling] fez até agora. Ele é um lutador. Nos últimos dois jogos foi decisivo, o gol contra o Arsenal, o pênalti contra o Hull quando o jogo estava duro. Não podemos esquecer que ele é muito, muito jovem. É claro que todos os jogadores precisam de um processo para melhorar, mas estamos muito felizes com o que ele tem feito”, disse Guardiola em entrevista coletiva às vésperas de confronto contra o Liverpool, em dezembro de 2016.

O nascimento de um atleta mais completo

Quase sempre lotado na ponta direita, já na temporada 2016/17, Sterling deu sinais de amadurecimento. Somadas Premier League e UEFA Champions League, anotou nove tentos e criou nove assistências em 40 jogos. Outros dados dão conta da evolução pela qual passou. Um exemplo é o índice médio de 1,9 desarmes obtido nas partidas de UEFA Champions League. Na edição anterior, sua média foi de 1,1. Entretanto, aquele time ainda não havia alcançado a coesão desejada por Pep.

Em especial as laterais careciam de renovação. Chegaram Kyle Walker, Benjamin Mendy e Danilo, que, com suas capacidades atléticas, têm ajudado demais os wingers (tal realidade também vale para o improvisado Fabian Delph, que vem atuando na esquerda). Estes ganharam parceiros muito mais influentes e potentes, tanto ofensiva quanto defensivamente.

Suas contratações ajudaram a dar a compactação pretendida por Guardiola, aproximando os setores da equipe. Melhorou-se ainda mais a saída de bola, facilitou-se o desenvolvimento individual dos talentos e o crescimento do time enquanto coletivo. Aliás, aparentemente, os números de desempenho defensivo de Sterling parecem piores. Em sua frieza, de fato são. Contudo, a evolução do time que hoje conserva mais a posse da bola justifica tal realidade. Ela era de 60,9% na Premier League de 2016/17 e passou a 66,2%. O recurso do desarme é cada vez menos necessário.

Foto: ManCity.com

Como antecipara o jornalista Marti Perarnau, em Pep Guardiola: a evolução, “a assimilação das ideias de Pep não deve ser rápida, mas sim tomar todo o tempo necessário. Não é um projeto reativo que prioriza os espaços que o adversário deixa, nem está focado na destruição do jogo do rival, mas é um modelo proativo e construtivo. É um modelo de ataque que se baseia na edificação lenta e segura de uma estrutura de jogo”. Seria possível encaixar alguém tão veloz e agudo em uma estrutura de “edificação lenta”? O tempo tem provado que sim.

Um ponta que dá alternativas

Aberto pela direita, o Sterling da temporada 2017/18 se associa muito bem com seus companheiros. Quando o lateral Kyle Walker (a adição que mais beneficiou o winger) vai à linha de fundo, Sterling fecha pelo meio e abre o espaço para o ala atacar. Se o jogo fica congestionado pelo meio, o ponta alarga o campo e força o adversário a se abrir. Em outras ocasiões, quando tem espaço para conduzir a bola, tenta o drible – não mais como movimento prioritário, mas como um de seus vários recursos. E claro: diante da privilegiada visão de jogo de Kevin De Bruyne e David Silva, muitas vezes o time explora a velocidade de Sterling, apostando em passes em profundidade e nas movimentações do inglês.

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Com a confiança renovada, o camisa sete voltou a ser produtivo e decisivo. Tem múltiplas funções e se tornou jogador de confiança de Pep.

“Raheem [Sterling] sabe que um atacante ou um ponta tem que marcar gols. Não sobreviverá em uma equipe do máximo nível sem marcar gols. É muito importante para nós. Tem que melhorar seu último passe. O faz bem, mas pode melhorar. Os grandes jogadores tomam a decisão correta no momento oportuno. Tem 22 anos. Melhorará porque é jovem e estamos aqui para ajudá-lo”.

Os números confirmam: Sterling evoluiu

Sem a devida análise, no futebol os números raramente dizem algo. Porém, é significativo perceber que Sterling é o artilheiro do City na atual edição da Premier League. Como Sérgio Agüero, já anotou nove gols (somando-se a Champions League, são 13). Sua capacidade de tomar melhores decisões em relação a seu passado é impressionante.

Em 2016/17, o inglês finalizou às balizas adversárias 64 vezes, convertendo sete gols, ou 11% de seus chutes. Nessa temporada, anotou nove vezes em 28 oportunidades, confirmando em tentos 32% de suas finalizações. Aliás, o ponteiro é o segundo jogador do elenco que mais chuta a gol em média. Fica atrás apenas do artilheiro argentino. Isso sem perder suas principais características. É, por exemplo, o segundo jogador do elenco dos Citizens que mais dribles tenta por jogo. Apenas Leroy Sané usa o recurso mais vezes. Na EPL, Sterling tenta 1,7 por partida; na Champions essa marca sobe para três.

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Além disso, Sterling tem marcado gols decisivos. Contra o Everton, marcou o tento que sinalizou o empate para o City. Por outro lado, fez os gols decisivos das vitórias contra Southampton, Huddersfield, Feyenoord e Bournemouth. Para além de ter se tornado um jogador coletivamente mais útil do que em anos anteriores, o inglês passou a ser fundamental para os planos de Pep Guardiola. E o sucesso de sua equipe.

“Ele tem sido importantíssimo para mim, especialmente com as coisas básicas e simples”, disse Sterling antes da partida contra o Napoli, em outubro.

Como já havia feito em outras instâncias de sua carreira, o comandante catalão viu no camisa sete um diamante bruto. Vai lapidando-o. E se o argumento valia para justificar atuações inconsistentes, também pode ser utilizado para alimentar as esperanças de ainda mais evolução: Sterling sequer completou 23 anos.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho), 24 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no O Futebólogo, no Chelsea Brasil e na Corner.