Brasil x Japão: o jogo que há por trás do jogo

Sexta-feira, 10 de novembro de 2017; Lille, Stade Pierre-Mauroy, 13h, horário de Paris. Classificados para a Copa do Mundo de 2018, Japão e Brasil foram os protagonistas de um amistoso que tomou ares de goleada no primeiro tempo. Mas, no segundo, com as diversas alterações feitas de parte a parte, passou a ser um jogo com a cara do ambiente, frio. É bem verdade que não fazia um frio excruciante – os termômetros apontavam a casa dos 10ºC. Porém, aquela chuvinha londrina e o vento potencializavam a gélida sensação do local. Entretanto, o referido encontro teve muito mais componentes do que aqueles vistos durante os 90 minutos, pelas 16.922 pessoas que acompanharam  partida (o anel superior do estádio se manteve fechado).

A seleção pela primeira vez

Do lado de fora do belo e novo estádio (inaugurado em 2012), cerca de uma hora e meia antes de a bola rolar, não havia aquela concentração típica do futebol brasileiro, cercada por muita cerveja e tira-gostos que variam de região para região. Contudo, havia cerveja e, sobretudo, havia brasileiros. Não o público comum. Outro, que raramente tem voz, o emigrante. São de conhecimento geral as dificuldades e desafios da vida no Brasil. O que levou e leva muita gente que obtém uma oportunidade a deixar o solo verde-amarelo. E a multidão brasileira era formada por muitos deles.

Gente como o Leonardo, cruzeirense, que há 17 anos mora na Bélgica:

“Essa é a primeira vez que venho ver o Brasil jogar, vamos ver, não é? […] Nunca tive uma oportunidade de ver um jogo do Brasil, então, como dessa vez estou tendo a oportunidade, espero que seja emocionante”.

Vale o registro de que junto a ele, havia mais três brasileiros. Uma turma diversificada que uniu torcedores de Fluminense, Santos e Palmeiras. O santista da vez, Bruner, rasgou elogios ao treinador da Seleção Brasileira, Tite, mas não perdeu a oportunidade para fazer coro a algo que tem sido questionado:

“O Tite é um cara bem estudado, que só agregou à Seleção Brasileira, que realmente estava precisando disso […] alguém por quem os atletas  tem uma visão de mais respeito enquanto profissional, só tem a somar para o nosso país […] eu acho que o Cássio não deveria estar ali [ri]. O Vanderlei deveria ter uma oportunidade”.

Foto: Wladimir Dias/DPF

De Minas Gerais para a Bélgica

Pouco depois, foi a vez de encontrar uma amistosa turma de rivais: de atleticanos e cruzeirenses. Estes também vivem em solo Belga, na capital, Bruxelas. Dentre os seis que compunham o grupo, nenhum havia podido ver a Canarinho em campo até então.

“Só de estarmos prestigiando o nosso país, né, a nossa terra natal, eu estou aqui há treze anos, vivo aqui, mas a gente nunca esquece…”, disse Éder, no que foi corroborado por seu amigo Geraldo.

Por sua vez, os amigos da roda também questionaram a opção do treinador brasileiro no que diz respeito ao defensor da meta brasileira:

“Eu acho que tem uma falha. O goleiro. Acho que ele [Tite] peca na parte do goleiro, ele não está convocando os melhores da atualidade […] Para mim, o goleiro indicado para o Brasil hoje é o Diego Alves. Não pelo que ele faz hoje no Flamengo, mas pelo que ele fez na Espanha […] Os outros dois são Alisson e Ederson”,  atestou Breno.

Há cinco anos fora do país, também em Bruxelas, Caio era outro estreante, todavia dono de outro ponto de vista:

Estou animado, a Seleção está em uma fase boa […] Acho que ele [Tite] tem mais contato com o jogador, que ele põe confiança no jogador, mas quer ver resultados, tem muito disso, conversar com cada jogador, falar o que quer […] Felipão e Dunga eram muito ‘vamos colocar e ver o que vai dar’ […] Dentre os jogadores convocados, não vejo nenhum grande problema, não há ninguém que você fale ‘esse com certeza não traria’, ele experimentou, fez várias convocações diferentes”.

Foto: Wladimir Dias/DPF

A seleção brasileira é de todos

Tais relatos, conduziram, ainda, a um apontamento pertinente: a Seleção Brasileira deve, majoritariamente, atuar em solo nacional, sim, próximo de seu povo, como se clama. Porém, para isso, não é imperativo que nunca se possa jogar fora. Há brasileiros por todo o mundo; trata-se de gente que apenas busca melhores oportunidades e que, ainda que a espera possa ser maior, também tem o direito de ver sua seleção nacional em campo.

A cobertura da seleção pela primeira vez

Apesar da ansiedade, o Doentes por Futebol encarou a oportunidade de se entrometer no seleto grupo daqueles que acompanham a Seleção Brasileira. Credencial pendurada no pescoço, continuou a missão. No entanto, um medo existia: e se a bateria do celular acabasse? Como enviaria o material para ser compartilhado? Temor de lado, nada disso aconteceu. E logo dezenas de fotos e vídeos foram sendo armazenadas. Enquanto o VAR fazia seu papel, assinalando pênalti para o Brasil, que, com Neymar, Marcelo e Gabriel Jesus construiu placar folgado na primeira etapa.

Foto: Wladimir Dias/DPF

O ambiente dinâmico, uma verdadeira babel em que se ouviam majoritariamente português, inglês, japonês e francês, parecia hostil à conversa. Nada mais distante da realidade. A distância que os televisores e rádios impõem ao telespectador e ouvinte é pró-forma. Por trás de tudo, estão pessoas comuns – donas de uma missão importante, mas comuns. E que já estrearam um dia, sentindo a mesma ansiedade. Trata-se de gente que te pede uma foto, e que tira outra em retorno.

Da cabine de imprensa foi ainda possível perceber a seriedade do trabalho feito pela comissão técnica da Canarinho, que registrou cada milímetro das atividades de seus atletas.

Foto: Wladimir Dias/DPF

Entre a coletiva e a zona mista

Organizador do evento, o Japão teve voz primeiro na sala de imprensa. Em desenvolto francês, Vahid Halilhodžić, ex-treinador do próprio Lille, comentou a atuação de sua equipe. Enquanto isso, a maior parte dos jornalistas brasileiros se acotovelava (com respeito, é claro), na busca por um lugar privilegiado na zona mista. Nesse momento, passavam os atletas nipônicos, cujo semblante não demonstrava alegria, mas também estava longe de registrar profunda decepção. Sem as presenças de Shinji Kagawa, Shinji Okazaki e Keisuke Honda, era sabido que as dificuldades seriam grandes, o que se confirmou.

E então veio a hecatombe, por meio de murmurinho: Neymar acompanharia Tite à coletiva. Toda a estrutura montada na zona mista se desfez num corre-corre. Na velocidade da luz, tripés foram desmontados, câmeras e microfones carregados e levados à sala de imprensa. Craque e comandante falaram e tudo foi registrado. Interessante também foi notar a tensão na hora dos registros, uma vez que entradas ao vivo dependiam do recebimento de informações diretas do Brasil. E então, tudo acabou. Voltamos ao ponto de partida: a zona mista.

Foto: Wladimir Dias/DPF

Lutando pelo privilégio de falar com os atores principais daquele dia, repentinamente os jornalistas todos eram um corpo só, presos entre si mesmos. E, assim, o DPF conseguiu as palavras de Jemerson, Danilo, William, Gabriel Jesus e Edu Gaspar.

Jemerson

Perguntado sobre a importância da oportunidade recebida às vésperas da Copa do Mundo, o zagueiro do Monaco falou:

“Tudo é fruto do trabalho, desde a base, até subir, ter as oportunidades que os treinadores me deram, para eu poder desfrutar do meu trabalho, acho que não fica só nesse jogo, mas no dia-a-dia, não só na Seleção, mas também no clube. Tem que ir bem primeiro no clube para chegar aqui […]”.

Danilo

Por outro lado, o lateral contratado nesta janela pelo Manchester City; outro que ganhou chance, ressaltou a importância da mudança de clube, e de sua versatilidade, para seu retorno:

“É um pouquinho de cada coisa, acho que uma das coisas que eu buscava quando da mudança de clube era voltar à Seleção Brasileira. É um pouquinho de cada coisa, um pouquinho da confiança do Pep [Guardiola], um pouquinho do meu trabalho diariamente, pouquinho da mudança de ares […] é importante no futebol de hoje em dia ter jogadores que atuam em várias posições. Ainda mais em uma Copa do Mundo, que é um torneio curto, com poucos jogadores, poucas chances de mudanças”.

 

Willian

O meia-atacante do Chelsea ressaltou que o Brasil não pode pensar em adversário:

“Independente do adversário, que nós formos enfrentar, temos que pensar em nós, na nossa evolução, no nosso desempenho. Temos que jogar bem, jogar com excelência, fazer por merecer vencer”.

Gabriel Jesus

A seu tempo, registrou a importância do coletivo:

“Ali na frente, a gente tenta ao máximo achar um companheiro, a melhor saída, a melhor jogada. Às vezes vamos errar, é normal, mas sempre querendo ir em busca do gol. Começa desde lá de trás, com uma bela saída do goleiro com a zaga, dos laterais, dos volantes, dos meias e chega lá para gente. É um trabalho em equipe”.

Finalmente, Edu Gaspar, coordenador técnico da Seleção, consignou que “estamos no caminho certo, de proximidade, respeito, ajuda, transparência. Isso é fundamental para um grupo estar em harmonia”.

Saldo final

O desempenho brasileiro no segundo tempo preocupou. Mas certamente Leonardo, Bruner, Geraldo, Éder ou Caio não se importaram. Viveram uma tarde importante. Para o Doentes por Futebol, também foi um momento de entrada. Por trás de cada jogo, há outro, dos bastidores. Nele, cabem correria, ansiedades e receios; mas também parceria e solidariedade. Tudo isso, para que o torcedor receba sempre a melhor cobertura possível.

Foi nossa primeira experiência cobrindo um jogo da Seleção Brasileira principal, vamos trabalhar para que seja o início de muitas.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho), 24 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no O Futebólogo, no Chelsea Brasil e na Corner.