Por que o Lanús encanta na Libertadores 2017

  • por convidado
  • 26 Dias atrás

(Por Michel Corbacho, do blog “A Cancha“)

Quem está atento ao futebol acompanhou a semifinal entre Lanús e River Plate. Grande parte por motivo de buscar conhecer o adversário do Grêmio na grande final. E muitos  rasgaram elogios ao futebol apresentado pelo Lanús. O clube emergente do futebol argentino fez história! Localizado na Cidade de Lanús, que conta com aproximadamente 213 mil habitantes, eliminou o poderoso River Plate após reverter uma diferença de três gols. Precisou de quatro, pois o 3 a 2 servia ao River pelos gols marcados “fora de casa”.

 

Além de eliminar um gigante do futebol sul-americano, chegou pela primeira vez na sua história a uma final de Copa Libertadores da América. Grande feito pelo time que será analisado a seguir.

Em grupo equilibrado, o Lanús cresceu no decorrer da competição

O Grupo G contava com três equipes equivalentes e capacidatas para passar da fase de grupos. Nacional-URU, Chapecoense, além dos próprios argentinos. E os resultados começaram de maneira, no mínimo, interessante. Nas duas primeiras rodadas do grupo, todos os visitantes venceram. O Lanús estreou em casa diante do Nacional-URU e perdeu por 1 a 0. Depois, atuando longe do La Fortaleza, bateu a Chapecoense por 3 a 1, na Arena Condá.

Jorge Almirón está no comando técnico da equipe desde 2015. Almirón conseguiu classificar sua equipe na primeira colocação do grupo ( 13 pontos conquistados e saldo de 10 gols). Há de se destacar que a Conmebol creditou o placar de 3 a 0 em favor do Lanús diante da Chapecoense na partida de volta, na Argentina. Isso porque, a Chapecoense escalou um jogador irregular e perdeu os pontos que tivera conquistado ao bater os argentinos por 2 a 1.

Na última rodada, Almirón e seus comandados enfrentaram o tradicional Nacional-URU, em Montevidéu. Os argentinos bateram os uruguaios por 1 a 0. Foi uma partida muito bem estruturada taticamente dos granates (alcunha do clube na Argentina).

O Lanús encerrava a primeira fase da Libertadores com a segunda melhor campanha geral. Por isso que receberá o jogo final em pleno La Fortaleza. Grande prêmio ao espetacular esforço deste time que teima em superar as espectativas.

A grande surpresa da Libertadores 2017?

Alguns consideram os granates como a grande surpresa desta edição de Copa Libertadores. Mas como consideradar surpresa uma equipe que tem números tão incisivos na competição?

A equipe de Almirón tem a cara do seu treinador. Prioriza pela posse de bola, por criações de jogadas ofensivas baseadas em troca de passes rápidos (característica do futebol argentino). E, quando preciso, recomposição tática com saída em velocidade para os contra-ataques.

Leia mais: o xadrez de Almirón

Excelência no passe

O Lanús é a equipe que mais troca passes nessa Libertadores. Já foram 4978 passes, com aproveitamento de 91% (aproximadamente). Além de pintar entre as três equipes de melhor ataque (19 gols) e com mais passes para finalização (89). Fica atrás apenas de Grêmio e River em toda a competição. 

Para exemplificar, quatro dos cinco jogadores que mais acertaram passes na competição são do Lanús: Marcone, Braghieri, Gómez e Román Martínez. Completando o top-5 está Ramiro (Grêmio). Entre os 11 primeiros, cinco são atletas do Lanús e quatro do Grêmio, equipes que apresentam melhor futebol nesta edição de Libertadores.

Índice dos atletas que mais acertam passes na Libertadores 2017 (Fonte: Footstats)

Ou seja, a final da Libertadores 2017 coloca de frente duas das melhores equipes da competição, merecidamente.

Sabe tratar a bola, mas também sabe sofrer

O estilo de jogo apresentado por esse Lanús é realmente de encher os olhos. Mas, mesmo assim,  superou dificuldades nas duas últimas fases da Libertadores. A equipe de Almirón passou por duas provações; revertendo situações adversas em dois duelos contra argentinos.

Nas quartas, enfrentou o San Lorenzo e sofreu derrota na ida (2 a 0, em Boedo). Em casa, o Lanús conseguiu devolver o mesmo placar. E passou pela equipe dos cuervos nos pênaltis (4-3) com grande atuação do goleiro Esteban Andrada.

Na semifinal – que ficará eternamente na memória de todo torcedor granateeliminou o River Plate em uma virada histórica. Esteve perdendo por 2 a 0 dentro de casa (3 a 0 no agregado). E conseguiu se classificar à final da competição ao marcar quatro gols (três deles no segundo tempo). O Lanús foi técnica aliada à garra; uma equipe que parece nunca desistir.

Mesmo sofrendo e saindo atrás do placar, o time não se desespera e mantém o seu estilo de jogo. Passe, posse, velocidade e forte pegada no meio de campo são os recursos utilizado por Almirón para guiar o Lanús em meio à adversidade. Os números abaixo apresentam a reação dos granates ao sofrer um gol.

Os números do Lanús 15 minutos antes e depois de sofrer gol na Libertadores 2017 (Fonte: Footstats)

Surpreendentemente, o Lanús melhora o índice na troca de passes após ter sua meta vazada. Como a imagem acima indica: desarmes e finalização melhoram. E os argentinos recorrem pouco aos cruzamentos (o Lanús é apenas o 15º da Libertadores neste quesito).

Trata-se de uma equipe que busca o futebol bem jogado. Recorre ao passe, busca a criatividade e composição tática para alcançar as vitórias. Evita recorrer aos cruzamentos ou bolas alçadas na área, (de maneira precipitada)

 

Disposição tática

O Lanús é bem organizado taticamente por Almirón, que arma um 4-3-3 na formação inicial da equipe. Os granates atuam assim desde a época de Schelotto. Porém, no decorrer do jogo, podem-se analisar diversas variações; tanto ofensivas quanto defensivas em relação a disposição inicial dos jogadores.

O 4-3-3 de Almirón demonstra algumas variações durante as partidas. Depende bastante de cada confronto. A equipe se recompõe bem ao sistema defensivo; muitas vezes, no 4-1-4-1. Os homens de lado, Acosta e Silva, preparados para sair rapidamente nos contra-ataques.

Defendendo

Na partida diante do Nacional-URU, pode-se analisar a recomposição do Lanús. Trata-se de um 4-1-4-1para alguns, 4-5-1. Mas o importante a frisar são os 10 jogadores no campo defensivo. Apenas José Sand mais adiantado e os outros nove atrás da linha da bola.

Lautaro Acosta, atacante destaque dos granate, recua até a linha de volantes para auxiliar no sistema defensivo. Chama a atenção a entrega tática de Acosta. Muito por ser um dos destaques do elenco tanto no quesito técnico, quanto no representativo. Possui bastante rodagem, tendo passado por Sevilla e Racing Santander na Espanha e pelo gigante Boca Juniors na Argentina.

Flagra da recomposição defensiva do Lanús. São nove jogadores atrás da linha da bola.

Apesar da sua posição original, Acosta se adapta ao futebol moderno praticado pela equipe de Almirón. Além de partir com muita velocidade na transição para o ataque, ao ser o principal jogador entre os titulares para iniciar os contra-ataques.

Atacando

Na goleada diante do Zúlia, o Lanús também demonstrou algumas de suas virtudes ofensivas. Não apenas pelos cinco gols marcados diante da modesta equipe venezuelana e pela força que possui quando atua como mandante. Mas também pela forma de como os gols saíram.

Por vezes, quando chega com a posse de bola, marca presença no campo ofensivo com representativa quantidade de jogadores. Neste duelo diante dos venezuelanos, a equipe granate chega com sete homens no setor de ataque.

Na imagem abaixo temos Iván Marcone (primeiro volante), um dos organizadores do time – muitos dos primeiros passes saem dos pés dele. Marcone conta com várias opções de passes e sequência da jogada ofensiva neste ataque do Lanús.

Um ataque de opções! Lanús chega ao setor ofensivo com sete jogadores no campo adversário.

Ainda diante dos venezuelanos, o Lanús chega ao segundo através do pressing, por meio de pressão no adversário desde a sua saída de bola no campo defensivo.

Na imagem, o Zúlia tenta sair com a bola em lançamento para o lateral-esquerdo, enquanto que o Lanús pressiona a saída adversária com cinco jogadores mais adiantados. Inclusive, o lateral-direito José Gómez, que se antecipa ao lançamento e oferece assistência para o gol de José Sand.

No estilo pressing o Lanús gera dificuldades para a saída de bola adversária.

Os Destaques Individuais na Libertadores 2017

As equipes que apresentam bom futebol, por consequência, contam com algumas peças fundamentais.

José Gómez (lateral-direito)

No Lanús de Jorge Almirón, José Gómez é uma das peças fundamentais para o esquema e proposta de jogo do Lanús. O lateral-direito de 24 anos esteve presente nos jogos olímpicos do Brasil. 

 

Dos 11 jogos que esteve presente no torneio, de fora diante do The Strongest por lesão, Gómez é o jogador com melhor aproveitamento na equipe do Lanús66,7% dos pontos foram conquistados enquanto ele esteve em campo. Oferece suporte ofensivo à equipe ao ir ao fundo e assistências para finalização (09 na Libertadores). Também auxilia nos contra-ataques e ocupa a terceira posição entre os melhores passadores da Libertadores 2017. Nos desarmes, Gómez tem aproveitamento de 96% (total de 24 corretos).

O mapa de calor do lateral demonstra o quão fundamental Gomez é para o apoio ao setor ofensivo granate. Muitas vezes, atua como um ala pelo flanco direito.

Mapa de Calor de José Gómez na Copa Libertadores 2017 (Fonte: Footstats).

Iván Marcone (primeiro volante)

Marcone também tem muita importância no sistema de jogo granate. É o jogador que mais acerta passes na Libertadores 2017. Seus números até as semifinais totalizam 616 passes com 93,6% de aproveitamento. Alia sua qualidade no passe ao desarme seguro. É o principal jogador nos desarmes desta competição: 38 desarmes certos, média de 84% de acerto. Baita volante!

 

Titular e presente nos 12 jogos do Lanús no torneio, Marcone tem um aproveitamento de 64% dos pontos junto com a equipe. Oferece consistência ao meio-campo, graças a sua função de “primeiro combate”. Desarma com muita capacidade técnica para sair e chegar mais à frente, no ataque.

Acosta e Sand, ataque de respeito

Uma dupla que representa, aproximadamente, 60% dos gols do Lanús na Libertadores: Lautaro Acosta e José Sand. É como se fala na Argentina: “todo 7 tem seu 9”. Acosta já ofereceu 15 assistências para finalizações e três gols. Enquanto que Sand é o vice artilheiro do torneio com oito gols marcados, após 24 finalizações (17 na direção do gol).

Acosta e Sand, a importante dupla do Lanús na Libertadores 2017 (Foto: lanus.com.ar).

São dois jogadores que auxiliam também ao sistema tático da equipe. Visto que Acosta consegue recompor bem pelo flanco esquerdo, muitas vezes. Como demonstrado anteriormente nas análises táticas, recua até a linha de volantes para reforçar o sistema defensivo da equipe. Além de ser o principal jogador para iniciar os contra-ataques deste Lanús.

José Sand faz com frequência o papel de pivô, atuando de costas para a defesa adversária. Desprende-se dos zagueiros e oferece passes para a infiltração dos homens que chegam como surpresa. Na maioria das vezes, o próprio Acosta ou Alejandro Silva pelos lados do campo. (Conforme o vídeo demonstra abaixo no gol diante do Nacional-URU).

 

Renato Gaúcho e o Grêmio que se cuidem

O Lanús chega com totais méritos e futebol muito bem jogado para esta final de Copa Libertadores. Mesmo sendo clube bem menos tradicional do que o adversário brasileiro, pode perfeitamente gerar complicações ao copeiro e tradicional Grêmio.

Será que veremos acontecer um título inédito de um clube na Libertadores? Isso não há como cravar. Mas é praticamente certo de que a bola será muitíssimo bem tratada por ambas as partes na final. Tanto pelo lado do Grêmio quanto pelo lado dos granates comandados por Almirón.

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