A faraônica temporada de Mohamed Salah

Quando da contratação de Mohamed Salah pelo Liverpool, dezenas de textos foram escritos explicando os motivos pelos quais o recém-chegado (procedente da Roma) marcaria muitos gols pelo novo clube. No entanto, por mais que houvesse bons motivos para se fazer considerações a esse respeito, existiam dúvidas com relação ao que o egípcio poderia mostrar. Em sua primeira passagem pela Terra da Rainha, vestindo a camisa do Chelsea, não deixara a melhor das impressões. É bem verdade que suas oportunidades foram escassas. Porém, com aproximadamente metade da temporada 2017/18 concluída, é possível atestar que Salah foi uma contratação perfeita para os Reds.

O jogador ideal para o time de Jürgen Klopp

Não é novidade para ninguém a adesão do treinador Jürgen Klopp, comandante do Liverpool, pelo counter-pressing ou gegenpressing. Essa proposta de jogo leva, habitualmente, a equipe que a utiliza a pressionar o adversário ferozmente, assim que a posse de bola é perdida. Ou seja: demanda aplicação tática e condicionamento físico exemplar. Simplificadamente, tem-se que a ideia é a recuperação rápida da bola durante a fase inicial do contra-ataque adversário, contragolpeando-o na sequência.

Já em 2016/17, os Reds trabalhavam dessa forma, com Roberto Firmino, Philippe Coutinho e Sadio Mané, seu mais forte trio ofensivo, sendo fundamental para o sucesso da tática. No referido ano, também ficou evidente o quanto o Liverpool se ressentiu das ausências de Mané, primeiro em razão da disputa da Copa Africana de Nações e, posteriormente, em decorrência de lesões. Sem seu mais veloz e fisicamente privilegiado atacante, o time não conseguiu manter o mesmo desempenho.

Foto: LiverpoolFC.com

Diante disso, quando se abriu a janela de transferências do último verão europeu, estava claro que o clube precisava de reforços, tanto para poder executar melhor sua proposta quanto para sofrer menos na ausência de um de seus titulares. Assim, a ocasião levou a Anfield Road, dentre os destaques do ano vencido no Velho Continente, o jogador mais adequado ao estilo de jogo proposto por Klopp. Salah encantara seu último treinador, o rígido Luciano Spalletti, pela qualidade técnica, capacidade para marcar e assistir, mas, acima de tudo, pela entrega intensa durante os 90 minutos de cada jogo.

A temporada 2016/17 foi individualmente mágica para o egípcio. Considerando apenas as partidas do Campeonato Italiano, Salah participou de 26 gols da Roma (com 15 tentos e 11 assistências), ou 29% de todos os gols Giallorossi. Nessa campanha, o clube da capital italiana foi o que mais vezes marcou em contra-ataques na Serie A, dados que tornam ainda mais evidente o fato de que Liverpool e Salah tendiam a formar um casamento perfeito.

A rápida adaptação

As características de Salah rapidamente se mostraram adequadas para o jogo do Liverpool. Canhoto que gosta de atuar pelo flanco direito, ofensivamente oferece um grande leque de possibilidades à sua equipe. O egípcio é talentoso com a bola nos pés e, portanto, arma importante na progressão com a bola. Porém, não é só isso que o distingue.

Uma de suas características mais importantes é a procura pela proposição de tabelas. Acompanhado por Roberto Firmino, ganha muito espaço à frente com esse tipo de movimento. Como? O brasileiro recua, trazendo consigo ao menos um marcador, recebe a bola de Salah e a devolve rapidamente, colocando o egípcio em velocidade nas costas da defesa adversária e em boas condições de marcar. A contribuição coletiva de Firmino não pode ser subestimada. Em muitas ocasiões, acaba por ser assistente ou a peça que dá o penúltimo passe antes de um gol. É a referência que faz jogadores como Salah e Mané se destacarem tanto.

Foto: LiverpoolFC.com

Além disso, outra possibilidade que o ex-Roma trouxe consigo foi a de trabalhar com o lateral direito. Enquanto o atacante avança para a parte interna do campo (ou para construir jogadas ou para finalizar), não raro sendo acompanhado pelo lateral esquerdo adversário, fica livre o campo para o avanço do ala. Isso tudo é sempre feito em ritmo elétrico, com intensidade e muita explosão física.

Impacto imediato, prêmios e elogios do chefe

Com isso, as previsões iniciais se concretizaram. O primeiro gol oficial com a camisa do Liverpool veio já na estreia do clube na Premier League. No empate contra o Watford, empurrou para as redes bola enviada por Roberto Firmino. Foi um lance de puro oportunismo, em que não desistiu da bola – uma das grandes marcas de Salah. Desde então, somou mais 18 tentos com a camisa dos Reds, 13 na Premier League e outros cinco na UEFA Champions League. Além disso, tem mais quatro assistências.

Foto: PremierLeague.com

É de se destacar a partida fantástica que fez contra o Arsenal. Na terceira rodada, marcou um gol, fez uma assistência e levou o prêmio de melhor em campo. O egípcio também já tem doubles contra Maribor, West Ham, Southampton e Stoke City. É pouco?

Diante desse desempenho fulgurante, foi eleito o melhor jogador do mês de novembro da Premier League. Além disso, conquistou a láurea de melhor jogador africano do ano, oferecida pela BBC. Deixou para trás Pierre-Emerick Aubameyang, seu companheiro Mané, e Naby Keita, meio-campista do RB Leipzig e que chegará ao Liverpool na próxima temporada.

Tal desempenho não poderia passar sem elogios de Jürgen Klopp:

“Contra o Watford, nos primeiros duelos, parecia que ele não era duro o suficiente, não era forte o suficiente para os desafios. No campeonato, isso pode ser difícil, mas desse momento em diante, ele já estava na competição. Isso é o mais importante. [A contratação de Salah] Foi um trabalho fantástico do scout […] Ele é um garoto fantástico, o que sempre ajuda a pessoa a se encaixar rapidamente […] Não penso que ele precisou nem de meia hora para se encaixar no time – ele foi fantástico desde o primeiro dia”, disse o treinador após a goleada, por 7 a 0, contra o Maribor.

Foto: LiverpoolFC.com

A importância do amadurecimento na Itália

No entanto, para chegar nesse estágio, Salah teve que se provar. A passagem do Chelsea foi um período duro em sua trajetória. Na altura, o egípcio se ressentia de falta de confiança. Aos 21 anos, a mudança do Basel para os Blues acabando sendo de difícil adaptação. A demonstração mais clara desse fenômeno ocorreu recentemente, quando Didier Drogba, lenda do clube londrino, falou um pouco sobre sua relação com Mohamed.

“Houve um período em que ele me escrevia: ‘Eu não marco gols. Não sei a razão’. Eu dizia: ‘É apenas uma questão de tempo e confiança’. Quando você tem confiança tudo pode acontecer e você pode ver que agora ele está marcando gols. Eu vejo o quanto ele evoluiu com o passar dos anos. Ele teve que ir à Itália para jogar e depois retornar à Inglaterra para mostrar que é o jogador que sempre acreditamos que ele era”.

 

Drogba, em uma só frase, demonstrou que Salah precisava de maior confiança em seu tempo no Chelsea e que a conseguiu na Itália. Primeiro na Fiorentina e depois na Roma. Com a camisa da Viola, marcou seis gols e entregou três assistências em apenas 16 jogos do Campeonato Italiano de 2014/15. Nas duas temporadas que se seguiram, já na capital, somou mais 29 tentos e 17 assistências, em 65 jogos (considerando apenas a Serie A).

Salah é o mais decisivo da Premier League

O fato é que, desde que retornou à Premier League, Salah se tornou o jogador mais decisivo da temporada. Ninguém tem uma soma de participações diretas em gols superior à do egípcio, que é o artilheiro isolado do certame. Seus 14 gols e três assistências, o colocam à frente  de gente como Romelu Lukaku (10G e 4A), Harry Kane (12G e 1A), Raheem Sterling (11G e 3A), Kevin De Bruyne (6G e 8A), Leroy Sané (6G e 8A) ou David Silva (5G e 8A). Alguns de seus tentos foram verdadeiras pinturas, como a finalização perfeita no clássico contra o Everton.

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Foto: LiverpoolFC.com

Não há dúvidas: a temporada de estreia de Salah pelo Liverpool é um sucesso absoluto. Em seu retorno à Premier League, trouxe consigo a confiança adquirida em duas temporadas e meia no futebol italiano. Não precisou de tempo para se adaptar. É claro que tudo isso só foi possível com o casamento entre a proposta de Klopp e seus predicados técnicos. Hoje, o egípcio é o maior destaque individual dos Reds e um dos melhores jogadores do futebol inglês.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho), 25 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no O Futebólogo e na Revista Relvado.