O ofício de Mauro Icardi

  • por Lucas Sousa
  • 6 Meses atrás

De acordo com o dicionário, a palavra ofício significa “tarefa a que uma pessoa se compromete; incumbência, missão”. Ou então “ocupação, profissão, emprego”. Para Mauro Icardi, poderíamos resumir em “fazer gols”. Icardi não é um apaixonado pelo futebol, que joga pelo amor ao esporte e quer fazer disso sua vida. “É algo que me diverte, mas eu apenas jogo e pronto”, disse em entrevista a Gazzetta dello Sport. Camisa 9, capitão e 10º maior artilheiro da história de um gigante, Icardi encara a artilharia como uma profissão.

Como centroavante, é do tipo de pouca participação e muitos gols. Um modelo de fabricação restrita, que necessariamente precisa de bolas na rede para sobreviver. Nesse sentido, é um trabalhador exemplar. Batalha, acredita, se esforça e entrega o que é esperado. Foram mais de 60 gols nas últimas três edições da Serie A, desempenho ofuscado pelas confusões extracampo. Quando se fala em Icardi, primeiro se lembra das polêmicas e depois do artilheiro.

Acontece que o desempenho do camisa 9 nerazzurri tem superado a repercussão de suas polêmicas.  Em 2017, foram 27 gols em 35 partidas de Italiano. Depois de tantas pautas sobre sua vida pessoal, Mauro Icardi merece atenção pelo seu ofício.

Icardi antes da Inter

Mauro Emanuel Icardi Rivero nasceu em Rosário, terceira cidade mais populosa da Argentina. Com somente 5 anos, iniciou sua trajetória no modesto Sarratea, clube juvenil da sua cidade natal, e já começou a chamar a atenção. Quem logo percebeu o talento de Mauro foi Jose Alberto Cordoba, garçom em um restaurante da região e treinador da equipe do Sarratea, que contou a Gazzetta dello Sport sobre seu primeiro contato com o garoto. “Estava comandando um treino dos garotos de 5 anos, e me trouxeram o Mauro. Ele já era maior que todos os garotos naquela época. Dei uma bola a ele e pedi para conduzir até o meio-campo para ver como ele se saía. Ele correu o campo inteiro e voltou em menos de um minuto, uma velocidade incrível. Tive que olhar seus documentos de novo para me convencer que ele não era pelo menos uns dois anos mais velho do que os outros. Quase imediatamente, eu sabia que tinha um talento natural nas minhas mãos“.

Maurito Icardi no Sarratea, pequeno clube da sua cidade natal

O período no Sarratea foi proveitoso: em 1999, o menino conduziu sua equipe ao título da liga com 51 gols. Mas durou pouco. Em 2001, três anos após iniciar no futebol, Icardi e sua família se mudaram para a pequena Vecindario, nas Ilhas Canárias. Era um período de grave crise econômica na Argentina e seu pai não conseguia emprego. Aproveitando a descendência italiana, a família foi tentar a vida na Europa. O pai encontrou trabalho como garçom e o filho um novo time. O Unión Deportiva Vecindario foi a casa de Maurito entre 2002 e 2008. Hoje, o pequeno clube da ilha não disputa nenhum campeonato oficial por falta de recursos, mas viveu um período de glórias nas categorias de base enquanto teve Mauro Icardi. Com a camisa alvinegra do Vecindario, o jovem de Rosário balançou as redes mais de 500 vezes e conduziu sua equipe a vários títulos na ilha, superando a potência local Las Palmas.

“Lembra do gol que o Ronaldo marcou em Compostela? Então, aqui Mauro Icardi fazia gols assim quando era do infantil”, contou Suso Hernández, treinador de Icardi entre os 10 e 13 anos, ao site El Español.

Na ilha espanhola, o argentino era um verdadeiro fenômeno. Maior, mais forte e mais rápido que os garotos da sua idade, o jovem goleador completava essa potência física com qualidade técnica e, é claro, muitos gols. Em uma final diante dos Las Palmas, Icardi acabou com o jogo marcando sete vezes. Seu ex-treinador Suso Hernandez recorda os anos de Icardi na ilha. “Era uma coisa anormal. Tenho quase 20 anos de treinador e não me lembro de nada como ele. Tinha muito gol e era altamente competitivo. É desse tipo de jogador que sai a cada muitos anos”, lembra.

A ilha de Gran Canária, terceira maior e segunda mais populosa do arquipélago de Canárias, ficou pequena demais para Icardi. Ainda com 13 anos, voou para o continente e aterrissou em La Masia, a famosa base do Barcelona. Com a camisa blaugrana, foi campeão pelo Juvenil B anotando 18 gols e dividiu vestiário com Gerard Deulofeu e Rafinha. No entanto, o período de Icardi no Barça coincidiu com o de uma lenda que afetou sua trajetória no clube.

“Lembro que ele ganhava finais sozinho. Era capaz de conseguir gols do seu próprio jeito, passando por cinco rivais. Era uma máquina de fazer gols” – Suso Hernandez, treinador de Icardi no Vecindario

Em 2007, um ano após a chegada do atacante, Pep Guardiola assumiu o comando do Barcelona B e começou a implantar sua filosofia nas categorias de base. Pep seria campeão da terceira divisão naquela temporada estabelecendo o recorde de pontos, maior número de vitórias e menor número de derrotas do Barça B. No ano seguinte, o treinador assumiria a equipe principal para fazer ainda mais história. Ficou por lá até 2012, período em que abriu as portas para diversos garotos no elenco principal. Bojan, Gai Assulin, Jeffrén e Pedro foram alguns dos atacantes que tiveram minutos em campo sob a batuta de Pep, mas nada de Mauro Icardi.

Mauro Icardi nos tempos de Barcelona

Um atacante alto e forte não tinha espaço naquele time montado por Guardiola, vide o que foi a passagem de Zlatan Ibrahimovic na Catalunha. Icardi sabia que seu estilo não estava para aquele Barça e deixou o clube em 2011, emprestado a Sampdoria. O próprio jogador resume sua passagem pela Espanha: “Canárias me formou para ir ao Barcelona e transformar o futebol em um emprego. No começo, era um hobby e, ao ir para Barcelona, tornou-se um trabalho. O futebol que eu passei nas Ilhas Canárias era um aprendizado para hoje ser o que eu sou. Nós decidimos sair do Barcelona porque o jogo era muito diferente das minhas características e optamos por mudar para o futebol italiano, que é o que mais me agrada”, contou em entrevista ao Marca.

Icardi chegou para o time sub-19 da Samp e em 35 partidas foi às redes 27 vezes. O clube não demorou a pagar os 400 mil euros da cláusula de compra e ficar com ele em definitivo. Ainda naquela temporada, o argentino subiu para o elenco principal. O clube do norte da Itália estava na Serie B, lutando por uma ascensão que viria com uma pequena ajuda do seu novo goleador: um gol nos pouco mais de 100 minutos que esteve em campo.

Na temporada de retorno à elite, a Sampdoria fez pouco mais que o suficiente para se firmar. Começou bem, com três vitórias seguidas e cinco jogos de invencibilidade, mas uma série de sete derrotas trouxe o recém-promovido de volta à realidade. No final, a 14ª colocação ficou de bom tamanho. Icardi foi titular em 24 partidas e teve Éder, seu atual companheiro de Inter, como parceiro de ataque na maior parte do ano. Entre gols e assistências, a dupla foi responsável por 23 dos 43 gols da Samp naquele campeonato. Mauro Icardi terminou como artilheiro do time, com 10 tentos.

Um ano foi o suficiente para o jovem goleador chamar a atenção de um dos gigantes do país. A Inter de Milão já não era a mesma de dois anos antes, quando brigou pelo título e conquistou o Mundial. O 9º lugar em 2012/13 marcou a pior colocação da equipe desde o 13º em 1993/94 e o time precisava se reerguer. Mauro Icardi foi parte de um pacote de reforços de 44 milhões de euros que desembarcou em San Siro para a temporada 2013/2014. Alguns mais experientes, como Gaby Mudingayi, Hernanes, Hugo Campagnaro, Matías Silvestre e Rolando, e os jovens Diego Laxalt, Danilo D’Ambrosio, Ishak Belfodil e Saphir Taider. Icardi foi o segundo maior investimento do clube naquela janela: 13 milhões de euros, cinco a menos que o montante pago a Lazio por Hernanes.

Foto: Facebook oficial – Icardi sendo apresentado como reforço da Inter, em 2013

A história nos conta que a Inter queimou aproximadamente 30 milhões de euros naquele verão. Daquele elenco de 2013, somente mais quatro jogadores permanecem no clube até hoje: Andrea Ranocchia, Danilo D’Ambrosio, Samir Handanovic e Yuto Nagatomo. Desde a chegada de Icardi, a Internazionale mudou bastante. Diferentes técnicos, estilos de jogo e jogadores passaram por Milão. O ponto em comum foi a presença goleadora de Mauro Icardi.

O goleador nerazzurri

A chegada de Mauro Icardi à Internazionale fazia parte do plano de renovação do elenco. Na temporada que antecedeu a chegada do argentino, o ataque nerazzurri era composto pelos experientes Antonio Cassano (30 anos), Diego Milito (35 anos) e Rodrigo Palacio (32 anos), que, juntos, somaram 28 gols na Serie A. A título de comparação, Milito havia marcado 24 vezes dois anos antes, em 2011/12.

A Inter precisava se renovar não apenas na idade, mas principalmente na produção ofensiva. Em seu primeiro ano azul e preto, Icardi alternou entre o banco e o campo, fechando o Italiano com 22 partidas (12 como titular), o 13º jogador mais utilizado pelo treinador Walter Mazzarri. Era o segundo na hierarquia do ataque, atrás de Palacio e a frente de Milito.

Foto: Facebook oficial – Passado e presente nerazzurri: Palacio foi a referência ofensiva da Inter até a chegada de Icardi

Seu caminho para ser um dos grandes artilheiros da Itália começou na segunda temporada nerazzurri. Icardi terminou a Serie A 2014/2015 sendo responsável direto por 48% dos gols da sua equipe: 22 bolas na rede e seis assistências. A essa altura, o argentino já era o terceiro jogador mais utilizado do elenco. Mauro Icardi tinha apenas 22 anos, mas já não era mais aposta. Pelo contrário, começava a se tornar o dono da equipe.

Desde então, o camisa 9 nunca deixou de entregar menos do que 20 gols por temporada da Serie A. O centroavante passou de promessa a certeza muito rapidamente e assumiu a responsabilidade de ser o grande nome de um gigante em baixa. Não só como atleta, mas como líder, já que recebeu a braçadeira de capitão ainda em 2016. Poderia ser um fardo exagerado para um atleta da sua idade, mas Icardi soube lidar com isso.

“Eu sou capitão da Inter. Com minha personalidade, isso é fácil. A capitania é minha missão e isso me enche de orgulho” – Mauro Icardi

Foto: Site oficial – As braçadeiras do capitão nerazzurri

Esse fator mental, aliás, é chave para entender seu alto nível. Icardi demonstra ser centrado nos seus objetivos e não teme a pressão do esporte em alto nível. Gosta da responsabilidade, da expectativa e isso o faz mais confiante. Mauro sabe que é dos melhores do planeta no seu ofício, mas também é ciente que não está mais em Rosário ou Canárias e precisa trabalhar para não regredir.

A parceria com Ivan Perisic

Os números do segundo ano de Mauro Icardi foram impactantes. Ao mesmo tempo em que ilustram a forma brilhante do centroavante, revelam o “Icardicentrismo” que tomava conta da Inter. Naquela temporada de 2014/2015, os gols do argentino garantiram 14 pontos aos nerazzurri. Sem eles, a equipe de Milão terminaria a Serie A com a mesma pontuação da Udinese, 14ª colocada daquele campeonato.

A chegada de Ivan Perisic, vindo do Wolfsburg por 19 milhões de euros, representou uma das aquisições recentes mais importantes da Inter. No seu primeiro ano de Serie A, o croata serviu Icardi cinco vezes e foi às redes em outras sete oportunidades. Os dois formaram a terceira dupla mais goleadora do calcio, totalizando 23 gols e 9 assistências, atrás de Gonzalo Higuain-Lorenzo Insigne e Paulo Dybala-Mario Mandzukic. Numa cartada só os nerazzurri desafogaram e potencializaram seu melhor jogador.

Icardi e Perisic: parceria que conduz a Inter desde 2015

Com Perisic, a Inter ganhou variedade para atacar. Uma de suas grandes virtudes, e seu diferencial em Milão, é não ser unidimensional. Olhe para Antonio Candreva, por exemplo: destro, quase exclusivamente ponta direita e que vive de buscar a linha de fundo e cruzar. Candreva é titular, faz boa temporada e se tornou peça importante para Spalletti, mas oferece pouco além de jogadas em profundidade.

Já o croata agrega mais repertório. Partindo da ponta esquerda, consegue buscar a linha de fundo e cruzar graças à ótima perna esquerda que tem, assim como pode fazer o tradicional movimento diagonal em direção à área. Tal movimento pode ser com a bola, arrancando em conduções de uma posição mais atrasada ou atacando as costas da defesa para receber no espaço. Além disso, com seu 1,87m é nome importante no jogo aéreo. É capaz de receber ligações diretas para colocar seu time perto da área rival e também chega aos últimos metros para finalizar pelo alto.

E onde entra Mauro Icardi nessa história? Primeiro, o centroavante ganhou um garçom de encaixe excepcional. O argentino é um exímio finalizador de cruzamentos, seja por baixo ou por cima, e Perisic tem potência física para ultrapassar o lateral adversário, chegar à linha de fundo e cruzar. Essas conduções do croata também podem ocorrer em direção ao centro e tendo como alvo a infiltração de Icardi. O ponto é que Perisic leva a bola até onde está Icardi.

Icardi também ganhou companhia na área. O camisa 9 não é do tipo de centroavante móvel e a Internazionale parte de formações base com apenas um homem de frente, pedindo a chegada dos jogadores mais recuados, como faz Perisic. Isso representa mais opções de finalização, sobrecarga da defesa e apoios para o portador da bola. O croata também é o alvo de ligações diretas, liberando Icardi para a segunda bola, onde representa uma ameaça maior.

A conexão Icardi-Perisic conduz a Inter há três temporadas. O funcionamento da dupla é fundamental para o rendimento ofensivo da equipe e está ainda mais forte sob o comando de Luciano Spalletti. Já são cinco assistências do croata para o argentino nesta temporada, nenhuma parceria é mais prolífica que esta na atual edição da Serie A.

Como joga Mauro Icardi

A camisa 9 nas costas não é a toa, Mauro Icardi honra o ofício dos goleadores. Verdadeiros predadores da grande área, especialistas em se posicionar para receber a bola e mandá-la para o fundo da rede rapidamente. É um autêntico matador, possui recursos técnicos para arrematar de várias formas e não decepciona quando surge a oportunidade.

“Eu sou o tipo de jogador que, quando eu estiver indo para marcar, eu realmente vou marcar. Eu sou muito agressivo na frente do gol e é assim que eu gosto de jogar. Estou confiante de que, quando houver uma oportunidade de marcar, isso sempre resultará em um gol. Adoro essa perspectiva no jogo, de estar cara-a-cara com o goleiro. É o que eu vivo quando estou no campo. É o que se espera de mim e onde estou mais confiante” – Mauro Icardi

Icardi não é um centroavante de aproximações, de mobilidade fora da área e recuos para buscar a bola. Sua participação na construção do jogo é mínima e a média de 13 passes por jogo é bem inferior a do goleiro Samir Handanovic (24) ou de qualquer jogador que tenha feito alguma partida como titular na atual edição da Serie A.

Em compensação, sua presença na área impressiona. Com desmarques precisos, se coloca na posição correta com o timing exato para finalizar. Parece saber exatamente onde a bola vai chegar tão logo ela sai do pé do seu companheiro, virtude ainda mais evidente nos cruzamentos. Sabe quando dar o passo a frente ou atrás para ganhar meio metro de vantagem em relação ao zagueiro. Este é o jogo de Icardi: movimentos precisos nos metros finais associados a uma capacidade de definição sublime. Buscar a profundidade, receber próximo ao gol e definir o lance.

Tais movimentos verticais, responsáveis pela maior parte dos seus gols com a camisa azul e preta, foram os motivos do retorno de Icardi à seleção argentina depois de quatro anos. O treinador Jorge Sampaoli explica: “Precisamos de um atacante que, além de fazer gols, seja muito profundo. Para o tipo de meia que temos atrás do centroavante, precisamos de uma característica que a Mauro tenha”.

Foto: Instagram oficial – Icardi e Sampaoli: após quatro anos, atacante voltou a defender as cores da Argentina

“A Inter encontrou um grande atacante, que melhora em cada jogo e que tem muito espaço para crescimento. Icardi pode escrever páginas históricas para a Inter e para a Argentina. Ele é um atacante letal na área, ele tem grande inteligência e um sexto sentido para o gol” – Diego Milito, ex-atacante da Internazionale

Seja completando um cruzamento, atacando as costas da defesa ou recebendo entre os zagueiros e finalizando, o camisa 9 está sempre procurando o caminho mais curto para o gol. Realiza sua missão como poucos, tão objetivo quanto preciso. Para Mauro Icardi, quantos menos toques, melhor.

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.