Nas Canchas da Libertadores #1

  • por Lucas Sousa
  • 10 Meses atrás

A fase de grupos da Libertadores 2018 começou com alguns grandes jogos. Na Argentina, o Racing bateu o Cruzeiro e largou na frente do acirrado grupo E. Treinador vice-campeão com o Lanús ano passado, Jorge Almirón e seu Atlético Nacional foram até o Chile e derrotaram o Colo-Colo. Num dos confrontos mais aguardados desta fase, Flamengo e River Plate empataram diante das cadeiras vazias do Engenhão.

Racing 4 x 2 Cruzeiro – A autocrítica de Martínez (e do Racing)

Lautaro Martínez fez três gols e garantiu a vitória do Racing na estreia da Libertadores. Ao final da partida, foi direto: “A verdade é que, pessoalmente, não gostei do jogo que fiz”. De fato, Lautaro não foi brilhante, muito menos o Racing. A partida foi marcada pelas fragilidades defensivas das duas equipes, que concederam mais oportunidades que o aceitável.

A proposta de intensidade total proposta por Eduardo Coudet funcionou nos primeiros minutos, mas logo chegou a conta. A pressão infernal esteve muito descoordenada, especialmente pela defesa sempre recuada, deixando grandes pedaços de campo nas costas da linha de meio. Com a bola, a busca por verticalizar os ataques passava por espetar seus quatro jogadores mais avançados sobre a defesa rival, conseguindo sempre opções de passes mais agudos. O problema é que isso esvaziou o centro do campo e o Cruzeiro teve muito espaço para seus contra-ataques.

O time mineiro passou a explorar essas fragilidades e, aos poucos, foi minando o jogo argentino. Tinha as transições à sua disposição, já que o Racing acelerava seus ataques a todo momento, acionava seu quarteto ofensivo com frequência e chegava próximo ao gol de Juan Musso, que fez algumas boas intervenções. Teve momentos de clara superioridade e criou diversas ocasiões de gol que foram desperdiçadas.

O aspecto decisivo foi o baixo nível defensivo, longe da estabilidade tradicional da equipe de Mano Menezes. Três gols em bola parada, problemas para segurar os ataques agressivos do rival e pouca resistência depois que as pernas começaram a pesar. Ao final, venceu aquele que aproveitou melhor as chances, aquele que teve um goleador incontrolável.

Colo-Colo 0 x 1 Atlético Nacional – Almirón, Hernández e Campuzano

Jorge Almirón, treinador vice-campeão continental com o Lanús em 2017, teve menos de um mês de competição para preparar o Atlético Nacional até a estreia na Libertadores 2018. Ir até o Chile enfrentar o Colo-Colo era um desafio complicado a essa altura da temporada. Porque os modelos de jogo das duas equipes iriam bater de frente e cobrar um nível de atuação incomum para o calendário.

Almirón quer que sua equipe saia sempre com a bola controlada, buscando aproximações e passes curtos. Pablo Guede, treinador do time chileno, é mais hardcore: quer intensidade, sufocar a saída rival, recuperar a bola e atacar. Este cenário deu o tom dos primeiros minutos, com um Colo-Colo agressivo e explorando as fragilidades de Daniel Bocanegra, lateral convertido para volante, no centro do campo. Jorge Valdívia e Jaime Valdés foram os principais algozes do lateral/volante verdolaga: recebiam nas costas dos meio-campistas colombianos, conectavam sua equipe e superavam a marcação de Bocanegra.

Neste cenário favorável ao time da casa, as aparições de Vladimir Hernández eram o alívio para o time verde e branco. Suas movimentações entre as linhas adversárias possibilitavam que sua equipe trocasse passe e avançasse no gramado, desconectando o Colo-Colo da partida aos poucos. A cartada decisiva de Almirón para tomar o jogo para si foi a entrada de Jorman Campuzano no lugar de Bocanegra. O jovem volante deu tudo aquilo que o Nacional precisava: intensidade para controlar Valdívia e circulação de bola rápida para fugir da pressão adversária.

Com 15 minutos em campo, Campuzano interceptou um passe no meio-campo, arrancou e colocou Hernández na cara do gol para garantir a vitória ao Atlético Nacional. Valdívia e Valdés, já cansados, não conseguiam fugir de Campuzano, tampouco a pressão do Colo-Colo era a mesma dos primeiros 45 minutos. Aos visitantes, couberam um ótimo controle sobre a posse de bola, controlando o ritmo da partida até o apito final.

Flamengo 2 x 2 River Plate – A frieza do Engenhão

Quando Flamengo e River Plate pisaram no gramado do Engenhão, a falta de atmosfera já anunciava o que aconteceria pelos próximos 90 minutos. Em campo, brasileiros e argentinos foram contaminados pelo clima de treino que pairava sobre o estádio e apresentaram um jogo lento, amarrado, sem grandes lances de perigo. Em resumo, nada do que se esperava de um jogo de Libertadores.

De um lado, o Flamengo buscava iniciar seus ataques pelos lados, tentando triangulações que envolviam os meias Diego e Éverton, os pontas Éverton Ribeiro e Lucas Paquetá e o apoio dos laterais Pará e Renê. O River controlava bem esse tipo de jogada a partir da típica pressão argentina. Quem recebia a bola tinha logo um millonario incomodando e travando a progressão do lance.

Do outro, o River era mais objetivo com a bola nos pés. Fazia lançamentos e passes verticais e procurava o pivô do centroavante Lucas Pratto. A zaga rubro-negra respondia muito bem rebatendo as bolas aéreas e afastando o adversário da sua área. Principalmente com Juan, que controlou as recepções de Pratto e não deixou o argentino dar sequência aos ataques.

Grande parte dos 90 minutos transcorreu assim, sem ninguém chegar próximo ao gol. O confronto se abriu um pouco mais na segunda etapa, quando Pratto e Rodrigo Mora passaram a pressionar a saída de bola flamenguista, forçando ligações diretas e um jogo de menos controle, com mais bate e volta. Nem assim a partida ganhou em dinamismo.

Com a vantagem do 2 a 1, o Flamengo recuou para defender o placar. Não concedia grandes oportunidades, mas também não representava nenhuma ameaça nos contra-ataques. Chamou o River para o seu campo e levou o empate justamente após a zaga rebater mais um dos tantos cruzamentos argentinos.


Nas Canchas da Libertadores é uma série que traz o resumo de alguns jogos da Libertadores. A cada semana de Libertadores, três partidas serão analisadas por aqui, sempre às sextas-feiras. 

Comentários

Mineiro e estudante de jornalismo. Admira (quase) tudo que cerca o futebol inglês, não esconde seu apreço por times que jogam no contra-ataque (sim, sou fã do Mourinho) e acha que futebol se discute sim. Também considera que a melhor invenção do homem já ultrapassou os limites do esporte.