Brasil 1×7 Alemanha: será que a ficha já caiu?

  • por Lucas Sartorelli
  • 10 Meses atrás

 

Mundo abismado: o que aconteceu?

“E lá vem eles de novo, olha só que absurdo…”

O tom incrédulo e desesperado das palavras de Galvão Bueno ficaram marcados no folclore popular. “O 7×1 nosso de cada dia” passou a ser usado como analogia para situações ruins da política e outras mazelas do cotidiano e da sociedade.

No entanto, às vésperas de uma nova copa do mundo, o impacto do resultado de Brasil 1×7 Alemanha parece não alcançar o tamanho que deveria, ou pelo menos, o povo ainda aparenta estar anestesiado, sem o tempo devido capaz de assimilar o choque de tudo o que aconteceu naquele 8 de julho de 2014.

Levando em conta o futebol como esporte com baixa pontuação, especialmente em jogos decisivos envolvendo grandes potências da categoria, fica inconcebível entender o que aconteceu. No entanto, olhar um pouco para a história talvez nos ajude a compreender a imensidão do ocorrido.

Fator casa

A começar pelo fato da seleção anfitriã ter sido a vítima do infortúnio. Até 2014, o placar com mais gols contra uma equipe mandante de mundial aconteceu no longínquo ano de 1954, quando a Áustria não tomou conhecimento dos suíços e venceu por 7×5, nas quartas de final do torneio, calando o estádio Olímpico, em Lausanne. A mesma Áustria levaria um choque de realidade logo na fase seguinte, num revés de 6×1 para a Alemanha, que se sagraria campeã.

Nas duas copas adiante, o Brasil começava a dar mostras de sua força no futebol, protagonizando outros dois placares elásticos contra donos da casa. Em 1958, na final em Estocolmo, venceria a Suécia por 5×2. Quatro anos depois, em Santiago, a vítima seria o Chile, dessa vez nas semifinais, num 4×2 que revelaria o enorme talento de Garrincha, Pelé, Vavá e cia de vez para o mundo e carimbaria o bicampeonato mundial para a seleção canarinho.

O tri viria em 1970, no México, com um time mais maduro, e que por vezes, seria eleito o melhor onze de todos os tempos. Na final contra o Itália, a consagração máxima com goleada de 4×1 para os brasileiros, fora o baile. Itália, a finalista, que nas quartas de final, em Toluca, passou por cima dos anfitriões mexicanos também em um 4×1, marcando mais um capítulo de placar largo contra mandantes em nossa história.

Chile 2×4 Brasil: uma seleção acostumada a calar torcidas adversárias

Por fim, o último caso, em 2010, quando o experiente Uruguai empurrou a África do Sul para bem longe do sonho de passar às oitavas de final da copa do mundo em casa, vencendo por 3×0 e calando as vuvuzelas da maioria dos presentes.

Difícil explicação

Diferente de alguns casos citados, no contexto do esporte atual e do confronto que resultou nos sete gols da Alemanha, não é preciso tentar recorrer a justificativas de nível técnico dos times, culpados individuais, ausência de craques, desmotivação ou qualquer outro fator que possa explicar o evento. Por que ele, por si, já é inexplicável.

Considerando a era moderna do futebol, onde os conceitos de preparação, valores e profissionalismo em geral nunca foram tão elevados, fica praticamente impossível sequer imaginar uma seleção que vai até o estádio adversário, lotado e absolutamente tomado de boas expectativas, numa semifinal de copa do mundo, e marca 5 gols com 28 minutos de bola rolando, culminando num descomunal placar de sete gols a um, com a equipe triunfante desperdiçando oportunidades de aumentar a conta e por fim, tocando a bola como quem, mais do que ninguém, quer que aquela humilhação termine.

Também já marcamos 7 num jogo de Copa

No entanto, é bom ressaltar que o 7×1 um dia já esteve a nosso favor e em uma copa também no Brasil. Em 1950, num quadrangular final com Espanha, Uruguai e Suécia, os suecos foram as vítimas, num Maracanã abarrotado de gente. Goleada que entra para a lista das maiores da história do torneio, como Uruguai 8×0 Bolívia (1950) Iugoslávia 9×0 Zaire (1974) ou Alemanha 8×0 Arábia Saudita (2002). E aqui vai mais uma situação única que só o Brasil protagonizou na humilhação da semifinal de 2014: nos 88 anos de mundial, em nenhum dos maiores placares, a equipe que atropelou o pobre adversário alcançou o êxito da Alemanha de construir uma vantagem de 5 gols com menos de 30 minutos. Nem mesmo em Hungria 10×1 El Salvador (1982), o maior de todos os massacres.

Um fenômeno tão peculiar e tão sem precedentes que logo que o apito final soou, imediatamente começaram a surgir as famosas teorias conspiratórias em torno do acontecimento, em grande parte motivadas pelo viés dos diversos protestos políticos da época. Por fim, muito se falou, mas nada se provou até então.

Mineiraço x Maracanazzo

Se o Maracanazzo, constantemente lembrado ao longo da história, com todos os seus protagonistas e injustos vilões, levou décadas para ser parcialmente superado, é de se esperar que o novo vexame, e não apenas o novo, mas o maior acontecimento futebolístico da história, leve séculos para ser digerido.

A fábrica de talentos não irá cessar e a seleção brasileira vai revelar novos craques. Em menos de 4 anos, a equipe se refez com um novo comando técnico, recuperou o fôlego e embarca para a Rússia como uma das favoritas para o título. E provavelmente será assim em 2022, em 2026, em 2030…

Brasil literalmente engolido pela Alemanha: uma marca que ficará para sempre

Mas o 7×1, ó fiéis apreciadores de futebol, independente dos resultados e conquistas futuras, não nos abandonará, porque o tempo, fatalmente, e cada vez mais nos fará alcançar a noção do que se passou aconteceu naquele 8 de julho de 2014 no estádio do Mineirão. Um dia que entrou para a história de Brasil e Alemanha, do futebol e do esporte em geral.

 

Noventa minutos de uma partida que passará de geração para geração como nenhuma outra na história, seja em forma de lembrança, relato ou versão. Como uma manifestação enigmática que vai nos acompanhar por toda a eternidade. Que a gente só sabe que aconteceu.

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Paulistano, projeto de jornalista e absolutamente ligado a tudo o que envolve essa arte chamada futebol, desde a elegante final de uma Copa do Mundo às peculiaridades alternativas das divisões mais obscuras de nosso amado esporte bretão. Frequentador assíduo nas melhores (e piores) várzeas e peladas de fim de semana, sempre à disposição para atuar em qualquer posição.