Arjen Robben: dias de lutas, dias de glórias

  • por Victor Mendes Xavier
  • 5 Meses atrás

Arjen Robben tem 34 anos e a cada dia está mais próximo da despedida como classe mundial. É claro que o talentoso ponta-direita holandês vai seguir dando mostras de sua qualidade nos gramados nos anos a seguir, mas é evidente, acompanhando o Bayern de Munique nesta temporada, que a prodigiosa capacidade técnica e de decisão está se apagando. Normal, o natural de Bedum é um ser humano como qualquer outro e o tempo, infelizmente, é implacável. O mesmo tempo que também será benevolente com a sua carreira no futebol. Aconteça o que acontecer, daqui para frente, uma coisa está fincada na narrativa desse esporte: Robben fez jus às expectativas criada quando ainda era um menino das divisões de base do Groningem e construiu uma bonita biografia a ser contada no futuro.

É por isso que, acima de tudo, devemos aproveitar ao máximo as próximas duas semanas de Liga dos Campeões da Uefa. Quando entrar em campo com seu Bayern de Munique para encarar o poderoso Real Madrid pela semifinal da maior competição de clubes do mundo, será uma das últimas vezes de Robben como jogador de elite em um cenário de tanto protagonismo. Nesta quarta, o primeiro capítulo, em Munique, na Allianz Arena, às 15h45; na terça-feira que vem, no mesmo horário, mas em Madrid, no Santiago Bernabéu, a batalha final. Contra o mesmo Cristiano Ronaldo contra quem obteve sucesso em 2012, mas foi sorrateiramente derrotado em 2014 e 2017, Robben vai tentar o que tem sido uma tarefa árdua nos últimos quatro anos: acabar com a hegemonia madridista na competição na qual o Real é o maior vencedor. Se conseguirá, não sabemos, mas desfrutemos até o fim.

Sobretudo se formos analisar o último confronto entre Real e Bayern. Deu Real, nas quartas-de-finais da Liga passada, por 4×2, no Bernabéu. Cristiano Ronaldo marcou três, naquela que também foi a grande jornada de Marcelo e Carvajal. Mas a atuação de Robben merecia um parágrafo à parte nas crônicas esportivas do dia seguinte. Talvez o hat-trick do português tenha escanteado de forma injusta a exibição do camisa 10 do Bayern. Mas quem viu, sabe. A impressão que dava é que, se tivesse mais 90 minutos, seguiria driblando quem quisesse. Aliás, ver que Robben, naquela noite, não conseguiu eliminar o Real só adiciona mais méritos à classificação blanca. Como tamanha classe, perigo, grandeza e ameaça não conseguiu a vaga nas semifinais?

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Robben tem sua particularidade: pode estar dando tudo errado, mas ele vai continuar pedindo a bola na sua amada ponta direita e tentando o drible. É por isso que, não importa a plenitude técnica e física, um jogador da sua estirpe e nobreza sempre irá intimar o adversário e ainda servem como espelhos para os mais “novos”, com James, Thiago, Kimmich ou Müller. Em especial em uma competição onde os melhores, de fato, triunfam, ter no seu elenco tanta hierarquia individual pode (e será) um trunfo para o Bayern e Jupp Heynckes.

Foto: Site Oficial da Uefa | Com o uniforme da Holanda, Robben fez duas Copas de nível acima da média

Hoje, abril de 2018, Robben goza de status de craque absoluto, mas nem tudo foi fácil, inclusive no próprio Bayern. Vamos voltar ao tempo. Primeiro, no Chelsea de José Mourinho. O comandante português criou um time à sua feição: pontas abertos, muitas transições e contra-ataques. Um ritmo sublime que dominou a Premier League. Robben tinha 20 anos, naturalmente verde, mas igualmente constante. As lesões o impedira de ter maior continuidade, mas o potencial era visível. Não à toa, o Real pagou aproximadamente 40 milhões de euros para tê-lo em seu plantel.

Em Chamartín, mais uma vez as lesões. Em 2007/2008, temporada de estreia, só foi a campo 21 vezes. Teve pouco impacto no título espanhol (a não ser pelas rodadas finais onde fez boas partidas). No ano seguinte, sim, pôde agraciar o madridismo. Teve uma fase tão interessante que, inclusive, não era raro vermos comparação com Lionel Messi na imprensa de Madrid. Comparações descabidas à parte, que Robben sempre fez questão de não concordar (“Messi é o melhor jogador do mundo. Está em uma forma magnífica. Para mim, é de outro planeta. É o melhor, diferenciado”, disse, em janeiro de 2009, às vésperas de um superclássico”) a verdade é que, naqueles cinco primeiros meses de 2009, o holandês demonstrou uma enorme aptidão para decidir jogos. Já não era mais o Robben de Mourinho, aquele da ponta esquerda e dribles à linha de fundo, e sim o Robben que viria a ganhar notoriedade anos depois e que todos conhecemos: o da ponta direita, com agressivas diagonais em direção ao gol e um controle de bola digno de Messi. Porém, a volta do megalomaníaco projeto de Florentino Pérez resultou numa falta de aposta pelo então camisa 11, e as chegadas de Cristiano Ronaldo e Kaká no verão travaram sua sequência em Valdebebas.

E aí apareceu o Bayern de Munique na história. Robben foi uma contratação decisiva para a trajetória do clube da Baviera. Após o fim do lendário ciclo de Effenberg, Kahn, Scholl, Lizarazu e Elber, o gigante alemão entrou num buraco de frustrações europeias que não foi possível nem alcançar as semifinais do torneio. A tentativa de recuperação de prestígio continental iniciou com a chegada de Louis van Gaal para comandar o time, um ano antes da negociação para tirar Arjen do Real Madrid. O que foi passado a limpo na memória (ou não, mas que, de qualquer forma, precisamos relembrar para dar sentido à matéria) é que até o último minuto da final da Liga dos Campeões de 2013, em Wembley, Robben era quase um sinônimo para perdedor. Não importava que, durante cinco temporadas com o Bayern, ele tivesse aumentado suas estatísticas ou feito a temporada da vida (até então) na campanha de debute na Alemanha, com direito a título da Bundesliga, da Copa da Alemanha e com eliminatórias memoráveis na Europa, contra Fiorentina, Manchester United e Lyon: Robben era “amarelão”.

Inegavelmente, sua relação com a derrota era dolorosa. Robben perdeu, em sequência, as finais da Champions em 2010 e 2012. Nesse último, teve a bola do título em seu pé esquerdo, mas desperdiçou um pênalti perante Peter Cech. Ah, claro: como não esquecer a final da Copa do Mundo de 2010? De novo, falhou quando não podia: cara-a-cara com Casillas, a um passo de realizar o sonho dos mais de 17 milhões de holandeses, perdeu o gol. Perder já era uma palavra comum em seu dicionário. Mas a volta por cima veio no momento menos esperado.

Heynckes resolveu dar sequência ao time construído em 2011 com uma alteração significativa: a entrada de Toni Kroos. Com o tempo, ficou definido que Kroos jogaria atrás de Mandzukic, com Müller deslocado à ponta direita e Robben deslocado ao…banco. Aquele Bayern foi fantástico do início ao fim. A versatilidade ofensiva, a verticalidade com a bola e a intensa maneira como executava seu jogo fez daquela equipe uma das mais mortais da história recente do futebol europeu. Uma lesão de Kroos, no entanto, ressuscitou nosso herói. Fadado ao fracasso, Robben voltou ao time titular na reta final da Liga dos Campeões. O Bayern atropelou Juventus e Barcelona e chegou a mais uma final, contra o rival nacional Borussia Dortmund. O jogo estava empatado até os 44 minutos do segundo tempo. Robben, que havia perdido três boas oportunidades, parecia próximo de um novo baque. Mas dessa vez tudo foi diferente. Quando saiu na cara de Weidenfeller, fez o que não fez contra Casillas e Cech: o gol. Em uma tacada, decidiu uma final, deu a orelhuda ao Bayern e jogou para o espaço o estigma de perdedor.

Daí para frente tudo mudou. Sentir o gosto do triunfo tirou um muro das costas do holandês. É como se sua carreira fosse dividida em antes e depois da final de Wembley. Dentro de campo era outro jogador. Não no que diz respeito à questão técnica, e sim mental. Vide a Copa do Mundo tão determinante e completa que realizou no Brasil, em 2014. Para muitos (inclusive para este que vos escreve), o MVP moral da competição. O horizonte, até então, negro, dessa vez só trilhava uma direção: o dos grandes. Porque Robben, à sua maneira, está na história.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.