Estratégia contra talento: o dilema do 4-3-1-2 de Zinédine Zidane

  • por Victor Mendes Xavier
  • 6 Meses atrás

Um dos debates mais assíduos do futebol envolve a associação entre o talento e a estratégia: até que ponto, para um treinador, vale a pena abandonar suas convicções para se adaptar a uma individualidade? O contrário também vale, é claro: até que ponto vale a pena ser tão convicto (ou teimoso, a depender da interpretação) e deixar de escalar uma peça diferencial? A verdade é que, em ambos os casos, há exemplos e exemplos para citar, sejam positivos ou negativos.

Um dos mestres dessa negociação entre criatividade e segurança é Carlo Ancelotti, campeão europeu com Pirlo, Seedorf, Rui Costa, Shevchenko e Inzaghi no Milan de 2002/2003. O plano foi até simples para a montagem do time-base: recuar Pirlo para a posição de primeiro volante, onde viria a se tornar lendário com o passar dos anos. Falar nisso hoje, claro, requer uma simplicidade que, à época, inexistia. Sobretudo porque era duvidosa (e ousada) a eficiência de mover um jogador acostumado a atuar nos metros finais para a frente da defesa. A repetição desse mecanismo, 12 anos depois, no Real Madrid, não obteve o mesmo sucesso: quando recebeu, em uma tacada só, Kroos e James para juntá-los a Modric, Cristiano Ronaldo, Bale e Benzema, Ancelotti quis recordar os bons tempos de Milão, emulando Kroos na função de Pirlo. À parte o bom futebol dos primeiros meses, definhou na parte decisiva da temporada.

O antecessor de Ancelotti em Madrid pensa de outra forma. É lógico que José Mourinho cultua jogadores talentosos, mas o raciocínio dele passa mais por “como eles podem se adaptar a mim?” do que “como vou me adaptar a eles?”. Ou alguém não lembra de como Mou lidou com Milito e Eto’o (dois centroavantes) juntos num mesmo elenco? Ele simplesmente deslocou o camaronês para a ponta direita, deixando o argentino como camisa 9. É claro que nem sempre há espaço para todo mundo. Voltando ao Real, no 4-2-3-1 do gajo na capital espanhola, em 2012/2013, Modric era visto como meia-atacante, que brigava por posição com Mesut Özil, e não como volante, jogando atrás da linha da bola, onde se transformou no, talvez, melhor da posição. Por isso, Mourinho não desfez a dupla Xabi Alonso e Khedira, e Modric ganhou poucas oportunidades. Nas que teve, viu o natural de Setúbal mexer no esquema: Di María, o ponta direita, relegado ao banco e Özil, o camisa 10, atuando pelos lados.

Foto: Reprodução | Samuel Eto’o e Diego Milito, na Internazionale: para Mourinho, o 4-2-3-1 era inegociável, mesmo com os dois camisa 9 juntos. Sobrou a ponta-direita para o camaronês

O Real Madrid de Zinédine Zidane não passa por uma situação tão radical, mas é uma discussão que tem sua validez. Relembremos o segundo semestre de 2016/2017. O Real Madrid atuava num ortodoxo 4-3-3: Casemiro recuado, Kroos e Modric por dentro, trio BBC no ataque. Porém, havia na imprensa e entre os próprios torcedores uma pressão para a escalação de Isco, seja no lugar de Benzema ou no de Bale, ambos com atuações controversas. O encaixe do meia-espanhol foi até “facilitado” com o tempo, visto que Bale, com edema na perna direita, ficou fora de combate por até dois meses. De início, a dúvida quanto ao posicionamento, já que Isco não estava acostumado a jogar aberto à direita (e quando jogou, sobretudo com Rafa Benítez, não foi bem). Zidane, que nunca escondeu o apreço por Asensio e Lucas Vázquez, tendia a colocá-los, naturalmente, em suas posições de origem. Mas a temporada de Isco era acima da média. E, então, como escalá-lo? Mudando o esquema para um 4-3-1-2. Pelo menos na teoria, o ideal: Isco “nasceu” no futebol como meia-atacante à época de Valencia; os laterais, principalmente Marcelo, gostam de subir ao ataque; Cristiano Ronaldo sairia da ponta-esquerda para atuar mais enfiado na área. Elementar, caro Zizou.

Os resultados indicam sucesso total, não? Afinal, foi no 4-3-1-2 da reta final da campanha que o Real Madrid abocanhou La Liga e a décima-segunda Liga dos Campeões. Analisando contextualmente os jogos finais da Champions, a observação é mais exigente. O primeiro jogo com Isco de titular foi contra o Bayern de Munique, pela volta das quartas-de-finais. O Real sofreu. Viu o Bayern forçar seus ataques pelas beiradas desprotegidas com Alaba e Ribery e Lahm e Robben. Os alemães chegaram a reverter o marcador, mas na prorrogação Zidane consertou o sistema inicial colocando Asensio para proteger Carvajal e neutralizar ofensividade bávara. Também prevaleceu a força de Cristiano Ronaldo, autor de um hat-trick, e assim o Real alcançou a semifinal. Nela, o adversário não foi o mais exigente: o Atlético de Madrid de Simeone é a antítese do Bayern de Munique, visto que gosta de acumular o máximo de jogadores por dentro. Na final contra a Juventus, os italianos até pareciam superiores na primeira etapa e Zidane teve a sensibilidade de voltar para os 45 minutos finais tirando Isco do centro e colocando na esquerda; Ronaldo passou a atuar de centroavante e Benzema foi fazer as vezes de um falso ponta-direita. Domínio, goleada e taça para o Real.

A dúvida que segue vigente com Isco é a de sua escalação. Seu nível continua alto e não dá mais para deixá-lo no banco. O 4-3-1-2 foi instaurado para que ele fosse titular, algo justificado pelo excelente ano em 2017. Porém, paradoxalmente ao rendimento do meia, é evidente que a tática penaliza no geral quase que todos os mecanismos de ataque do Real Madrid. Nessa disposição, Zidane maximiza o controle da bola formando um triangulo com Kroos, Modric e o próprio Isco em troca de um posicionamento menos ortodoxo e descontínuo. Kroos e Modric têm mais movimentos exteriores, permitindo Ronaldo e Benzema passar mais tempo entre os zagueiros adversários. É por isso que Marcelo e Carvajal são fundamentais para o funcionamento desse esquema. Não apenas por serem focos constantes de amplitude e profundidade, e sim porque são eles que executam as vantagens que o trio de meias constroem. Ou seja, se Marcelo e Carvajal não estiverem em boas jornadas, o jogo blanco fica mais simples e pobre. E foi esse um dos grandes problemas do primeiro semestre agonizante dos comandados de Zidane.

O 4-3-1-2 é uma faca de dois gumes: não dá para desconsiderar a ativação total de Isco e taxá-lo de falido, assim como também não dá para não notar os erros táticos. Zidane sabe o que passou quando entregou os flancos para o Bayern. Por isso, já acenou com a possibilidade de montar um 4-4-2 com Asensio e Vázquez abertos, quando não teve Modric e Kroos à disposição diante do PSG. Levando em consideração que a dupla mais Casemiro é permanente, o 4-3-3 uma hora ou outra pode voltar, com Isco, de fato, no banco. Porque, por mais que o futebol seja dos futebolistas, a estratégia, em determinados contextos, vale mais que o talento.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.