Especial As Ligas de Lionel Messi – parte 2 (2009/2010)

  • por Victor Mendes Xavier
  • 5 Meses atrás

1, 2, 3, Hala Madrid!“.

Com essa frase, Cristiano Ronaldo encerrava sua apresentação no Real Madrid, no dia 6 de julho de 2009. Ali, mesmo que fora de campo, a mais de 625 km, começava a temporada para o Barcelona. O sucesso do histórico rival em 2008/2009 mexeu com o brio madridista. Não apenas pela Tríplice Coroa, mas pela sensação de inferioridade, confirmada num confronto contra o Barça.

14 de maio é a data. Pouco depois de ser humilhado no Bernabéu, a torcida do Real começava a enxergar uma luz (conhecida) no fim do túnel. Nesse dia, Florentino Pérez anunciava sua candidatura para presidente do clube. 18 dias depois, foi oficializado, dado que era o único candidato capaz de fornecer as garantias necessárias de €57,389M ao cargo. 8 de junho anuncia Kaká por €65M; 11 de junho, Cristiano Ronaldo: €80M para tirar o vigente melhor do mundo do Manchester United. Mais do que futebolística, a guerra agora era midiática. Ou seja, Joan Laporta, à época presidente do Barcelona, precisava dar uma resposta à altura do combo “Kaká-Cristiano Ronaldo”.


A CHEGADA DE ZLATAN IBRAHIMOVIC

A solução veio de Milão. Até hoje, poucos sabem se Guardiola participou da negociação que levou Zlatan Ibrahimovic a se transferir da Internazionale para o Barcelona, mas ela aconteceu, por €68M, divididos entre €45M à Inter + €20M dos direitos federativos de Samuel Eto’o e o empréstimo de Alexsander Hleb, que, posteriormente, viria por desistir de jogar na Itália para voltar ao Stuttgart, obrigando o clube catalão a pagar mais €3M aos Nerazurri. Pronto, em uma tacada, o Barça contra-golpeava e demonstrava poderio econômico. Primeiro pelo “show business” que envolveu todo o acordo — e do próprio centroavante. E, claro, pelo potencial de Ibra. Levando-se em consideração que Henry chegou ao Camp Nou após o seu auge, era evidente que o sueco foi a maior contratação do FCB desde Ronaldinho.

Foto: Site Oficial do Barcelona | Ibrahimovic foi a resposta do Barcelona às contratações de Kaká e Cristiano Ronaldo por parte do Real Madrid

Mas sempre houveram perguntas a serem respondidas: 1) como Ibra se adaptaria ao estilo de Guardiola; 2) como Ibra reagiria sendo coadjuvante?; 3) como Guardiola faria pra tirar o melhor da dupla? O tempo fez questão de responder. O terceiro ponto sempre foi o mais interessante. Quando Pep tirou Messi da ponta direita para o centro do ataque não foi somente para confundir a cabeça de Real Madrid e Manchester United, mas sim porque enxergava no argentino essa aura de arco-e-flecha que anos depois faria mais sentido. Ou seja, o comandante queria ver Leo mais próximo de Iniesta e Xavi, aumentando seu poder de influência na mortal circulação de bola culé. Como se convenceu para voltar atrás na decisão de frear a evolução do gênio como falso nove para retorná-lo às beiradas do campo a fim de introduzir Ibrahimovic no sistema, não sabemos, mas que deve ter sido duro para um profissional tão metódico e perfeccionista, disso não há dúvidas.

É importante ponderar a injustiça que é minimizar a curta passagem do natural de Malmö somente ao fracasso nos âmbitos coletivos e individuais. O 4-3-3 funcionou até onde pôde e, quando perdeu validade, Guardiola teve a sensibilidade que lhe é comum para alterá-lo, mesmo que custasse a titularidade de Ibra. Mas o Barça fez boas partidas nesse período, tal qual Zlatan teve boas atuações. Por exemplo, as vitórias contra Atlético de Madrid (5×2) e Zaragoza (6×1). Qualidade dos adversários à parte, sobretudo o segundo, seria desonestidade não realçar a maneira como o Barcelona chegou aos triunfos e a importância do camisa 9 neles. Por mais que, claro, estivesse longe da versão dos tempos de Calcio, Ibra estava sendo decisivo. Como foi nos clássicos contra o Real Madrid e Espanyol, marcando os únicos gols do Barça nos duelos. Em outras palavras, o atacante estava cumprindo à risca o seu papel e havia a esperança que, semanalmente, o ajuste ao “tiki-taka” fosse ser natural.

GUARDIOLA SE CONVENCE DE QUE O MELHOR DE MESSI VIRIA NO CENTRO DO ATAQUE

Paradoxalmente ao dito no parágrafo acima, foi justamente na maior noite de Zlatan como blaugrana que Guardiola percebeu que não havia mais por que deixar Messi enfiado no bendito lado direito. Barcelona e Real Madrid fizeram o primeiro clássico da era Cristiano Ronaldo na 12ª rodada, no Camp Nou. O Real era líder do campeonato, com um ponto de vantagem ao Barcelona, e visitou o oponente com o objetivo de arrancar na tabela. Por isso, Manuel Pellegrini montou um planejamento até “ousado”. Subiu a linha defensiva até o meio-campo, a 30 metros da área de Iker Casillas, e estreitou o jogo barcelonista no campo ofensivo. A compactação não viria na defesa, e sim no círculo central. Aquilo asfixiou Xavi, reduziu as interferências de Iniesta e colocou um Busquets ainda imaturo em apuros. Contra Messi, a chave foi dobrar a marcação, adiantando Marcelo para o meio e escalando Arbeloa de lateral-direito. Quando recuperava a bola, Cristiano Ronaldo e Kaká levavam o Camp Nou à loucura.


Devido a um desgaste muscular que inclusive o tirou do importante confronto contra seu ex-time quatro dias antes, Ibrahimovic começou no banco naquela noite. Henry foi o centroavante. Para escapar da armadilha de Pellegrini, Pep mexeu na formatação tática: Messi saiiria da direita pra vir jogar por detrás de Henry, e Keita seria o encarregado de fazer as vezes de ponta pela direita, com Iniesta na esquerda e Xavi e Busquets de volantes. Um 4-2-3-1 improvisado às pressas que melhorou o Barça e o levou à vitória. Mas repare bem na atuação de Messi no vídeo acima. Veja que, nos 45 minutos iniciais, o argentino sempre recebia a bola enjaulado, diferentemente da etapa final. Lionel tocou mais vezes na pelota, pôde protagonizar jogadas individuais e conduziu o Barça à frente. Uma experiência que serviria de argumento para as posteriores mudanças.

MESSI DE CAMISA 10 OU MESSI DE FALSO NOVE: A SOBERANIA ARTILHEIRA DE MESSI COMEÇA A SER VISTA

 

O Barcelona terminou 2009 levantando os seis troféus possíveis, mas para treinador ainda poderia ser melhor. Talvez não em termos de entretenimento, mas sob uma perspectiva competitiva. É por isso que a virada do ano é super importante para entender o porquê da dinastia de Messi em La Liga no século XXI. Durante o meses de janeiro e fevereiro, o time somou sete vitórias e um empate sem convencer tanto. A primeira (e única) derrota saiu na 22ª rodada contra o Atlético de Madrid. No intervalo de tempo, Pep seguia, ora sim, ora não, querendo ativar o 4-2-3-1. Mas os problemas globais do Barça seguiam e a única peça de confiança para resolver um jogo era Messi. Quer um exemplo?

Mais uma vez, o superclássico. No segundo turno, Real e Barça se encontraram no Bernabéu empatados em pontos, na rodada 31. Como o empate lhe dava vantagem e os pesadelos por Cristiano Ronaldo transitando com espaços ainda estavam vivos, Guardiola baseou sua prancheta na monopolização total da posse de bola e na cadência. Para isso, deslocou Puyol à lateral direita, Daniel Alves subiu para a ponta direita e, sem nenhum centroavante de ofício à disposição, Messi foi falso nove. O Barça evitou sofrer riscos e, portanto, usou e abusou de Xavi para não perder a bola. Só deu uma única finalização: a do gol de Messi. O tento do argentino impulsionou os merengues a saírem ao ataque e aí Xavi castigou todo e qualquer erro inimigo. O Barça venceu, somou três pontos cruciais na conquista do bi-campeonato, mas, acima de tudo, foi embora de Madrid com a sensação de que, com Messi em campo e próximo do área, já começava uma partida com 1×0 a seu favor.

Tal afirmação foi ratificada em território madrilenho, mas já poderia ser feita anteriormente. Entre as rodadas 25 e 30, Lionel anotou assustadores dez gols, incluindo dois hat-tricks nas exibições históricas contra Valencia e Zaragoza (os outros: 24ª, um gol contra o Málaga; 25ª, dois gols contra o Almeria; 30ª, um gol contra o Athletic Bilbao). Mesmo tendo conquistado a Bola de Ouro e sido protagonista de La Liga e Liga dos Campeões em 2009, pela primeira vez o Olimpo se voltou com olhares diferentes a Messi. Para este que vos escreve, é justamente nessa sequência que começa o auge do camisa 10. As primeiras comparações com nomes como Pelé e Maradona começaram a surgir, até porque, entre essas rodadas de Liga, Messi também marcou três gols no Stuttgart e mais quatro no Arsenal, na Liga dos Campeões. A sensação de que estávamos privilegiando um talento único no esporte nunca foi tão forte. Como não se lembrar da descrição de Arséne Wenger? “O Messi faz coisas impossíveis serem possíveis. É um jogador de playstation”, disse o francês.

Foto: Reprodução | Abril de 2010: pela primeira vez na carreira, Messi começava a ser comparado com Pelé e Maradona

E isso é somente o início desse modo “ganha-ligas” que Messi desenvolveu nos últimos dez anos. O Barça poderia estar em um mau dia, mas jogava com uma tranquilidade exarcebada porque os jogadores sabiam que Messi macaria um gol, o que necessariamente significava estar sempre mais próximo da vitória do que os concorrentes. Mas com Messi saindo da ponta direita, quem faria aquela função? Pois bem, surgiu em definitivo Pedro Rodriguez. O canário, que havia ganhado suas primeiras oportunidades no ano anterior, ganhou seu espaço quando Guardiola decidiu retornar ao 4-3-3 com Messi de falso nove variando para o 4-2-4, com Bojan ao seu lado na referência, e Iniesta ou Keita aberto à esquerda. E esse último sistema só deu certo porque Pedro soube aproveitar brilhantemente os espaços cedidos em sua zona. Se havia um temor pela perda de profundidade sem um ponta de ofício, Pedro logo fez questão de saná-las com extrema eficácia. E, com o “desaparecimento” indiscutível de Ibra, o citado Bojan teve sua relevância, inclusive sendo um bom complemento sem bola a Messi já estabilizado de falso-centroavante.

Foto: Site Oficial do Barcelona | Pedro, à época ainda chamado de Pedrito Rodriguez: solução de Guardiola para a falta de um ponta direita, com a estabilização de Messi como falso 9

Ao tropeçar contra o Espanyol de Pochettino no Cornellà El Prat na 33ª rodada, os azulgrenás deram emoção à Liga, mas logo trataram de finalizá-la com cinco vitórias nas cinco jornadas finais (3×1 contra Xerez, 1×4 contra Villarreal, 4×1 Tenerife, 2×3 Sevilla, 4×0 Valladolid). Nelas, Bojan e Pedro marcaram três gols; Messi, mais sete. Fim de Liga, Barça mais uma vez campeão. Bojan e Pedro titulares, Ibra em total descrédito. E Messi pela primeira vez exibindo a capa de alienígena.

Quem poderia pará-lo?

Leia a primeira parte do especial, relembrando o título de 2008/2009, clicando aqui.

Na semana que vem, a terceira parte, contando a história do título de 2010/2011 e os especiais confrontos iniciais contra José Mourinho.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.