Os segredos do Atlético de Madrid de ouro do século XXI

  • por Victor Mendes Xavier
  • 4 Meses atrás

“O Barcelona tem o Messi, o Real Madrid tem o Cristiano Ronaldo e nós temos Diego Simeone”.

As aspas acima ajudam a explicar o sentimento dos torcedores do Atlético de Madrid por Diego Simeone, o Cholo. Elas pertencem a Pedro Pedroso. Aos 27 anos, o natural de Barra do Piraí, município do estado do Rio de Janeiro, torce para o Atlético há 15. “Sempre gostei de futebol, então, naturalmente, foi surgindo o interesse pelo Atlético de Madrid. Em 2003, comecei a assistir mais campeonatos e foi justamente quando Fernando Torres estava surgindo. Não teve como escapar”, confessa Pedro, que tem El Niño como grande ídolo. “Possivelmente o jogador espanhol mais carismático que vi. Mesmo não sendo o mesmo, assumo que o desempenho na volta me surpreendeu positivamente. Sempre será uma bandeira enorme do clube”.

A crescente popularidade dos clubes estrangeiros em território nacional não é novidade. A preferência é sempre por clubes mais tradicionais e estrelados, como Real e Barça ou PSG e Manchester City. Um estudo recente feito pela “Stochos Sports & Entertainment”, empresa brasileira com mais de 15 anos no segmento de avaliação do mercado, revelou que, entre 8.167 entrevistados, de 16 a 60 anos, a porcentagem dos que declararam não ter preferência por times do exterior diminuiu de 45,9% para 36,1% em relação ao divulgado um ano atrás.

Foto: Site Oficial do Atlético de Madrid | Simeone sorri, consciente de que criou o maior Atlético de Madrid do século XXI. Time irá para a quarta final europeia em sete anos sob o comando de Cholo

A ascensão da globalização ajuda no processo. Em um mundo cada vez mais dominado pelo capital, a imposição da cultura futebolística europeia, principal centro de movimentação econômica, recai com força em solo brasileiro e de outros países sul-americanos. Em 2017, 16 canais das tvs abertas e fechadas, somados, transmitiram mais de 1000 jogos ao vivo. Em média, são aproximadamente dez jogos por dia, isso sem incluir as partidas oferecidas exclusivamente pelo sistema pay-per-view. O público brasileiro, mais e mais, tem acesso aos times estrangeiros, seja por ações de marketing ou pelas transmissões esportivas.

Real Madrid, Barcelona e Atlético de Madrid tiveram suas respectivas campanhas no campeonato nacional cobertas de cabo a rabo por Fox Sports e Espn Brasil em 2017. Se atualmente o Atléti chama atenção dos diretores de programação pelo sucesso no ciclo Simeone, nem sempre tudo foram flores. Entre 2003, ano em que Pedro começou a torcer para os colchoneros, e 2012, o da estreia de Simeone como treinador, somente três vezes o time de Manzanares terminou entre os quatro colocados do Campeonato Espanhol (ou seja, obteve vaga na Liga dos Campeões da Uefa). Mais: o Atlético chegou a ficar incríveis 14 anos sem vencer uma única vez o grande rival, Real Madrid, entre 1999 e 2013. O fim do tabu chegou em um momento de simbólica importância para os rojiblancos: a final da Copa do Rei de 2012-2013, no Santiago Bernabéu. Era a segunda temporada de Simeone à frente do Atléti e as primeiras pinceladas do time que estava construindo foi dada várias vezes. O triunfo diante do Real de Mourinho foi um exemplo. Para Pedro, o jogo-chave no desenvolvimento competitivo da geração. “Esse título deu fim ao jejum e, ao mesmo tempo, a sensação de início de uma nova era. Dali em diante poucos torcedores podem te dizer que se surpreenderam com o que o Atlético fez no ano seguinte (foi campeão espanhol e vice da Champions)“, conta, orgulhoso. Pudera: em uma tacada, os torcedores voltaram a comemorar uma vitória contra o maior adversário, um título em solo doméstico que não acontecia há 17 anos e ainda viram os inimigos terminarem a temporada sem taça. Estava mudado o cenário.

Pedro Pedroso administra a conta ‘Atlético de Madrid BR’ no twitter, criada um pouquinho antes da conquista da Copa. É também responsável pela página ‘Atlético de Madrid Brasil’, no facebook. A paixão pelo clube é compartilhada na internet há muito mais tempo, desde o orkut. Quando o assunto é Simeone, sobram elogios. “Ele é vital na reconstrução da instituição. O grande mérito da diretoria foi compreender o papel do Atlético no mercado de transferências, ainda que esse modelo seja levado ao limite. Como quando vende Carrasco e Gaitán à China sem poder contratar alguém como reposição. Mas sem Simeone nada disso seria possível. Tudo depende da estabilidade que ele promove“, afirma. Como qualquer torcedor, a decepção pela perda da inédita Champions League foi grande. E Pedro é sincero na resposta. “Como colchonero, devo ressaltar que confiança não é nosso forte”, brinca. “Mas havia a sensação de ‘agora ou nunca’. Veja bem: foram 40 anos sem chegar. E, de repente, você tem duas oportunidades! Eu não diria merecimento. Mas parecia que a gente tinha feito o bastante“, revela.

Não poderia ser diferente. Em 2013-2014, o Atlético eliminou Milan, Barcelona e Chelsea. Vencia a final de Lisboa contra o Real até o minuto 93, quando Sergio Ramos marcou o histórico gol de empate que abriu o caminho à vitória madridista. Em 2015-2016, mais uma vez o Atléti ultrapassou limites e barreiras: deixou para trás um Barcelona que parecia impossível de ser derrotado e o Bayern de Munique de Josep Guardiola. Chegou à decisão de Milão jogando mais que Cristiano Ronaldo e cia. Mas caiu. De novo. Uma derrota que colocou em xeque até mesmo a campanha seguinte da equipe, em 2016-2017. “Inegavelmente, o baque foi muito grande. Colocou em dúvida o próprio sistema. Simeone chegou a fazer mudanças táticas numa tentativa de jogar com mais posse. Ao final da temporada se refugiou em seu modelo clássico e obteve pelo menos a regularidade. A sensação é que a temporada passada serviu pra reafirmar os modelos do cholismo“, diz. Modelo de jogo este que Pedro discorda veementemente quando rotulado de defensivo. “Considero o Atléti reativo. Ele se adapta às condições e necessidades de cada jogo. Acredito que essa imagem se deve ao fato de que boa parte dos grandes jogos que o time fez foram os da Champions. Contra Bayern, Madrid e Barcelona em grande parte do jogo você verá o time jogando mais atrás. O saber sofrer tão presente no cholismo é outro “culpado””, admite. E a continuidade do jogo reativo no futuro pós-Simeone? “O Atlético por muitas vezes jogou algo próximo do que é hoje. Um futebol de velocidade e marcação. Infelizmente, não enxergo no curto-prazo alguém com o potencial de Cholo para dar sequência. Ele é o que une tudo. Nosso Messi e Cristiano Ronaldo“.

A final contra o Olympique de Marseille na quarta-feira, em Lyon, será a quarta de Simeone no comando colchonero em seis anos. A eficiência nos torneios continentais chama a atenção. Além de neutralizar (quase) sempre o adversário, o Atlético de Madrid também consegue impor seu jogo, seja na ligação-direta, na bola parada ou os contra-ataques. Mesmo quando se depara com uma circunstância desconfortável, a equipe se sustenta em uma força mental milimetricamente preparada e encontra soluções para contornar a situação. De 2012-2013 para cá, ocorreram 20 eliminatórias em jogos de ida e volta em âmbito europeu e apenas três revezes: duas vezes para o Real Madrid (quartas-de-finais da UCL 2014-2015 e semifinal da UCL 2016-2017) e uma para o Rubin Kazan, na fase 16 avos de final da Liga Europa 2012-2013. Contextualizando mais o dado, dos dez jogos feitos como mandante, foram seis gols sofridos. Chama mais a atenção que, destes, quatro aconteceram na campanha vitoriosa da Liga Europa 2011-2012, nos primeiros meses de Simeone, quando o argentino ainda fazia ajustes e buscava implantar seu estilo. Ou seja, após essa campanha, só Kaká, em 2014, e Isco Román, em 2017, comemoram um tento no Vicente Calderón. O Wanda Metropolitano passou invicto na atual da Europa League. E olha que muitos craques e bons jogadores visitaram a fortaleza madrilenha. Nomes como Lionel Messi, Luis Suárez, Neymar, Eden Hazard, Frank Lampard, Cristiano Ronaldo, Gareth Bale, Karin Benzema, Thomas Müller, Douglas Costa, Robert Lewandowski, Mesut Özil, Henrikh Mkhitaryan e (ufa!) Pierre-Emerick Aubameyang nada fizeram.

De todos os citados no parágrafo acima, tem um que quebra a cabeça de Simeone: Messi. Se o êxito nos dois embates pela Champions foi total, o mesmo não podemos dizer quando Atlético e Barcelona se encontram pela Liga Espanhola. Simeone já tentou uma dupla marcação, já mudou lateral de lado somente para encarar a canhota de Leo, já tentou avançar a marcação para evitar que a bola ficasse mais tempo ao Barça, mas nada deu certo. Em 12 jogos, nove gols de Messi. Mas mais que isso: o camisa 10 culé frequentemente encontra resposta para cada planejamento do compatriota, seja a partir de um passe em profundidade, de uma arrancada em velocidade ou de uma sequência de dribles desmontando a retaguarda. “Ele é o número 1. Não há na atualidade um único jogador que se aproxime dele”, afirmou Cholo após o último duelo entre as equipes, decidido (pasmém) por Messi, em março. “Se ele tirasse a camisa do Barcelona e colocasse a do Atlético de Madrid, venceríamos por 1×0”, completou.

O ATLÉTICO DE MADRID 2018

Foto: Site Oficial do Atlético de Madrid | Gol de Griezmann em Londres foi crucial na classificação contra o Arsenal na semifinal da Liga Europa

É inegável que a atual campanha do Atlético tem que ser dividida em duas. Até porque uma coisa está ligada a outra: o fato de ter alcançado a final da Liga Europa só foi possível devido ao fracasso retumbante na Liga dos Campeões. Os colchoneros caíram na fase de grupos para Roma e Chelsea. O desempenho foi tão ruim que até o simpático Qarabağ, do Azerbaijão, fez suas graças contra os capitolinos. Se na parte ofensiva Ángel Correa enfim se afirmava e Antoine Griezmann seguía o de sempre, a preocupação maior partia justamente da linha defensiva. A impressão era de que estava mais vulnerável a qualquer ataque. Claro que nem sempre será possível passar 90 minutos sem ceder uma finalização. Mas, a bem da verdade, este é um problema cuja a norma vem, basicamente, desde as saídas de Miranda e Courtois, chaves nessas ações defensivas. A queda do melhor nível de Juanfran e os problemas físicos de Tiago também influenciaram nessa perda de fiabilidade, até porque custou a Simeone achar um primeiro volante de confiança até a estabilização de Thomas Partey no segundo semestre. Aliás, a transformação de Partey, sim, é uma das grandes notícias de 2018. “Hoje já o enxergo como fundamental. Facilmente, um dos casos onde mais consegui ver a solução de um jogador. Ele não acertava um passe de dois metros; hoje dá lançamentos de 40 metros. Sem contar os galhos que quebra na lateral. Ano que vem tem tudo para se firmar como um dos grandes volantes de La Liga“, explica Pedro Pedroso.

Mesmo com vice-campeonato nacional assegurado com uma rodada de antecedência, que inclui um ótimo primeiro turno, a sensação é de que naquelas primeiras 19 rodadas a cota de pontos era baseada muito por uma questão de regularidade do que de boas partidas, em si. Mas por que de uma hora para outra o Atlético subiu de produção? “Diego Costa. Ainda que Gameiro garanta seus gols, jamais chegou perto de oferecer a equipe algo além disso. Com Diego Costa, o Atléti tem o jogador perfeito para seu modelo de jogo. Com isso, a confiança voltou pra todo mundo“, responde o carioca. Bingo. A notícia de que Diego Costa voltaria a vestir o uniforme vermelho e branco provocou, de imediato, um entusiasmo. A única dúvida era de como seria a parceria com Griezmann. Mas a adaptação foi a melhor possível. É com unir o útil ao agradável: o francês tem uma peça à sua frente que oferece opções de tabela e o hispano-brasileiro aproveita os espaços criados pelo companheiro.

Foto: Site Oficial da Uefa | Ao resgate: Diego Costa retornou para impulsionar a recuperação colchonera na temporada

A semifinal contra o Arsenal serviu também para ressuscitar uma figura já marcada na história do clube: Diego Godín. Gradativamente, o tempo vai sendo implacável com o defensor, mas a eliminatória diante dos londrinos foi uma espécie de canto do cisne. Godín vestiu a capa de 2016, recordou seus melhores momentos e foi um muro, realizando seguras e ágeis interceptações. “A espetacular proteção da área, hierarquia e a inteligência. Tem se desgastado cada vez menos. Mas ainda melhora o nível de seu futebol“, destaca Pedro, que não titubeia: é um dos maiores ídolos do Atlético. “Ao lado de Luis Pereira acho que forma a dupla de zaga no time da história do clube. Além do gol do título (de La Liga 2013-2014) ainda há toda a identificação“, completa.

Foto: Site Oficial do Atlético de Madrid | Lucas Hernandez, Koke e Saúl: futuro do Atlético de Madrid garantindo? “Se tiver Simeone, sim”, responde o torcedor Pedro Pedroso

Assim é como o Atlético lutará, no Parc Olympique Lyonnais, por um novo título europeu, o quarto em sete anos do projeto de Diego Pablo Simeone no comando. Um processo que teve seus altos e baixos, mas que, ao seu jeito, não parece estar perto do fim. E o futuro? Com Oblak, Lucas Hernandez, Gimenez, Partey, Correa, Saúl e Koke o Atlético garante anos dourados? A questão é respondida de maneira sucinta: “se estes permanecerem juntamente a Simeone, sim“. Claro: Simeone é a base de tudo. Afinal de contas, o Barcelona tem o Messi, o Real Madrid tem o Cristiano Ronaldo e o Atlético tem Diego Simeone.

Comentários

Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.