A hora H para José Mourinho

O Manchester United é um dos clubes mais acostumados às vitórias no cenário mundial. É também uma daquelas entidades de que mais se espera coisas boas e se cobra por resultados. Não poderia ser diferente: trata-se do time de futebol com maior receita no mundo. Levantamento feito pela empresa de auditoria e consultoria empresarial Deloitte revelou que o clube teve receita de £676,3 milhões em 2017. Não obstante, o título da Premier League não chega desde a temporada 2012/13. Os sucessores do mítico manager Alex Ferguson ainda não conseguiram tirar a equipe da fila. Esperava-se que o multicampeão José Mourinho fosse capaz de obter tal sucesso. Ainda não o foi. E é isso que nele se busca quando se projeta a terceira temporada do português no comando mancuniano.

Mourinho: entre erros e acertos

A margem para investimentos no estádio Old Trafford é sempre alta. Mas é acertado dizer que algum dinheiro já foi desperdiçado na gestão do Special One. Os €105 milhões entregues à Juventus pelos direitos de Paul Pogba não trouxeram os resultados futebolísticos esperados. Sim, ele provocou a venda de milhares de camisas e virou holofotes do mundo inteiro para o clube, mas na cancha não causou o impacto esperado.

A chegada de Henrikh Mkhitaryan foi um fiasco absoluto. O armênio nunca se encontrou em Manchester. Nesse caso, entretanto, seu valor no mercado foi útil ao clube, facilitando uma dura negociação que levou o chileno Alexis Sánchez à equipe e conduziu o meia ao Arsenal. Do ponto de vista financeiro, a negociação não foi ruim, mas os resultados no campo, justamente aqueles pelos quais o clube é mais cobrado, foram pífios.

Foto: ManUtd.com

Houve também a chegada de Victor Lindelöf, jovem zagueiro sueco, ex-Benfica. A princípio, a falta de adaptação ao ritmo da Premier League condicionou o defensor a ser taxado de fracasso também (ainda que haja margem para evolução). O problema real é a necessidade constante de obtenção de resultados expressivos. Ser segundo colocado na Premier League — a milhas de distância do campeão e rival Manchester City — está longe de ser suficiente.

É claro que nem tudo foi ruim. O clube acertou em cheio nas contratações de Eric Bailly, Romelu Lukaku e Nemanja Matic. O primeiro, aliás, só tem um problema: a sucessão de lesões que acompanha sua trajetória.

Mourinho também conquistou um título da Liga Europa e outra da Copa da Liga Inglesa; glórias insuficientes para um clube das dimensões dos Red Devils. É evidente que é melhor conquistar o que quer que seja do que nada, porém em Manchester só se pensa em dois objetivos: Premier League e Liga dos Campeões.

Há mudanças em curso

Mourinho está passando por um verdadeiro escrutínio público, terminado o segundo ano de sua gestão. Como não poderia ser diferente (considerando sua trajetória), a polêmica tem rondado o treinador. Após perder o título da Copa da Inglaterra para um Chelsea que para muitos jogou à moda de José Mourinho — utilizando o popular “park the bus”, montando um ferrolho defensivo praticamente intransponível —, o treinador se perdeu em si mesmo, ao criticar os Blues por jogarem como “uma equipe que defende com nove jogadores”, algo que o treinador já fez diversas vezes.

Mas, se não houvesse polêmica, não estaríamos falando de José Mourinho. E o comandante já mostrou em alguns momentos ter a capacidade para reestruturar uma equipe e levá-la às glórias. Seu excesso de rigor com os atletas já foi colocado em causa muitas vezes, mas é certo que em alguns contextos resultou em evoluções positivas. O caso mais recente disso talvez tenha sido o processo pelo qual passa Pogba.

Foto: ManUtd.com

Houve algum momento da temporada 2017/18 em que o francês foi sacado por Mou. As performances dentro do campo iam de mal a pior, as vaias e críticas nas redes sociais aumentando. Então, o meia foi posto de lado, e, quando foi reincluído, respondeu. Seu final de temporada foi positivo. Algo que o próprio atleta reconheceu:

“Ele deixou-me no banco mas eu respondi dentro de campo e dei o meu máximo […] É importante para mim, faz-me amadurecer”, revelou ao Canal+.

Realidade não tão distinta é a que vive Alexis Sánchez. Desde que chegou, o chileno atuou regularmente, sem tempo para se adaptar. Contrastou, pois, partidas magníficas com jogos horríveis. Era natural que assim fosse, mas, como dito, no Manchester United os resultados são esperados não para amanhã ou hoje, e sim para ontem.

As expectativas são muitas, assim como os receios

Para 2018/19, são esperadas mudanças e o medo da famigerada “terceira temporada de Mourinho” — aquela que ficou popularmente conhecida como a que evidencia um desgaste do comandante com os atletas — paira no ar. Os ingleses do Independent foram taxativos ao dizer que “ainda que não exista um descontentamento generalizado no elenco, há uma inquietação”. O técnico precisa de resultados e os jogadores sabem disso.

Apesar disso, agora Mourinho terá mais possibilidades de acertar a equipe ao seu modo. Na primeira temporada, começou esse processo, permitindo a saída de jogadores pouco utilizados, como foram os casos de Morgan Schneiderlin, Bastian Schweinsteiger e Memphis Depay. Depois, foi o ídolo eterno do clube, Wayne Rooney, quem saiu. A seguir, Mou precisou gerir a grave lesão que sentenciou o final da passagem de Zlatan Ibrahimovic pelo clube e culminou na contratação de Lukaku.

Foto: ManUtd.com

De 2016/17 para 2017/18 o português notou alguns problemas, que foram resolvidos — exemplo claro foi a contratação de Matic, um dos grandes acertos do treinador. Entretanto, o meio-campo seguiu com deficiências, em parte por falta de confiança em peças como Marouane Fellaini e Ander Herrera, que até tiveram participações esporádicas importantes, mas nunca se afirmaram no time, e em outra em razão das dificuldades com Pogba. Essa realidade ficou escancarada quando o garoto Scott McTominay passou a ser utilizado. Faltou consistência e criatividade.

Mas os problemas estão sendo geridos

Para resolver parte desses problemas, o Manchester United foi atrás do brasileiro Fred, que vem de ótimas temporadas com o Shakhtar Donetsk e disputará a Copa do Mundo. Outra carência óbvia ficava na lateral esquerda, com os improvisos de Ashley Young. Durante muito tempo foi especulada a contratação do ala brasileiro Alex Sandro, da Juventus. Até agora, entretanto, o clube confirma apenas a contratação do português Diogo Dalot, promessa vinda do Porto. Apesar de ser lateral direito de origem, acumula algumas atuações pela esquerda.

Esses negócios pontuais se juntam a uma estrutura que tem Pogba finalmente em crescente e uma incógnita em Sánchez. Eventual negociação do goleiro David De Gea seria um problema. Até o momento, porém, não passa de especulação.

Mourinho teve problemas no curso de sua trajetória no Manchester United e, verdade seja dita, pode até não ter encontrado um cenário de terra arrasada quando chegou ao clube mancuniano, mas a realidade era ruim.

Foto: Shakhtar.com

Sua terceira temporada aparece como um potencial ponto de viragem em sua trajetória, tanto no clube quanto como treinador. O final de seu trabalho no Chelsea foi péssimo e o caminho traçado em Old Trafford não tem sido promissor. Novo fracasso poderia determinar uma mudança de rumos na carreira do vitorioso comandante.

Ao mesmo tempo, não há momento melhor dentro do clube para dar a volta a esses acontecimentos. Após duas temporadas, os problemas do time foram sendo suprimidos e devidamente detectados. Jogadores como Luke Shaw, Daley Blind e Matteo Darmian deve sair e as potenciais soluções já começaram a chegar.

As perspectivas para 2018/19 tendem mais para o lado positivo, mas os fatores determinantes continuam sendo os mesmos. Pogba e Sánchez entregarão o futebol que deles se espera? De Gea continuará na baliza mancuniana? Fred e os demais reforços se adaptarão ao clube? São muitas as perguntas. No centro de todas elas está José Mourinho, o treinador que, mais do que nunca, precisa de resultados expressivos.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho), 25 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no O Futebólogo e na Revista Relvado.