Como vinho? A grande temporada de Naldo

Fazia três anos que o Schalke 04 não tinha um ano tão bom quanto o vivido na temporada 2017/18. O vice-campeonato alemão foi o grande alento para o torcedor que antes do final da disputa já sabia que perderia duas de suas joias, Leon Goretzka e Max Meyer. Mas não foi só a posição na tabela que trouxe conforto. As ideias do jovem treinador Domenico Tedesco levaram uma lufada de ar fresco a Gelsenkirchen, assim como a consistência de um jogador que é mais velho do que o próprio comandante: o brasileiro Naldo.

Barreira intransponível e inquebrantável

Excetuados períodos de lesões, desde que desembarcou na Alemanha, no já distante ano de 2005, Naldo é um dos brasileiros mais consistentes do Velho Continente. Aos 35 anos, e com os 36 já batendo à porta, manteve esse estatuto no último Campeonato Alemão. O capitão dos Azuis Reais pode até ser o goleiro Ralf Fährmann, mas o comandante da retaguarda do time foi Naldo.

A despeito da idade, disputou todos, isso mesmo, todos os jogos do Schalke na Bundesliga 2017/18. Ele esteve presente em cada minuto. Isso significa o prodígio de não ter tido uma lesão ou uma suspensão sequer. Cartões, aliás, foram apenas quatro amarelos, em 34 partidas. O brasileiro foi o pilar da terceira melhor defesa da Alemanha, atrás apenas da do Bayern de Munique, o campeão, e do Stuttgart — que sofreu apenas um gol a menos.

Foto: schalke04.de

Boa parte desse registro se deve às decisões de Tedesco, como não poderia ser diferente. Via de regra, o time do Vale do Rühr entrou em campo com três zagueiros. Isso serviu ao defensor brasileiro às mil maravilhas.

Por vezes, teve a parceria de Benjamin Stambouli (volante francês convertido em beque) e do garoto Thilo Kherer. Em outras ocasiões, atuou ao lado do sérvio Matija Nastasic. Todos esses bem mais jovens. Enquanto eles ofereceram a Naldo as benesses de uma vitalidade que é impossível conservar para sempre, o brasileiro deu em troca sua segurança, confiança e experiência, com todo o seu imponente 1,98m.

As marcas de Naldo

Aliás, essa estatura o possibilitou ser mais uma vez imperial pelo ar. Apenas o senegalês Salif Sané e o também brasileiro Caiuby venceram mais duelos aéreos na temporada, em média. Por jogo, Naldo foi superior em 4,9 bolas que disputou. Foi também o quinto zagueiro que mais afastou o perigo das proximidades de sua meta, com média de 5,7 cortes.

Por motivos mais que óbvios, foi o zagueiro com o pior registro de desarmes do elenco do Schalke. É natural que tenha sido assim. Sua tarefa não foi o combate direto, mas a cobertura e proteção. Tudo pensado para extrair do brasileiro o que de melhor oferece nessa altura de sua carreira.

Foto: schalke04.de

“Nosso treinador está fazendo um grande trabalho. Ele é o melhor técnico que já tive. Estou orgulhoso dele”, disse Naldo ao site da Bundesliga.

Com John Terry havia feito na temporada 2014/15, no título do Campeonato Inglês conquistado pelo Chelsea, Naldo foi a única figura que o torcedor do Schalke pôde aplaudir em cada minuto de sua boa campanha. Fez aquele que, para muitos, foi seu melhor ano no país — a despeito da regularidade que o caracterizou também nos tempos de Werder Bremen e Wolfsburg.

Os gols e derbies

Não foi apenas lá atrás que o zagueiro se destacou. Os impressionantes sete gols e duas assistências que registrou igualaram a marca ofensiva de 2014/15, a melhor de toda a sua carreira. Não obstante, mais importante que isso foram os momentos em que o beque apareceu para colocar sorrisos na face de seu torcedor.

Indiscutivelmente, o momento mais emocionante da temporada dos Azuis Reais foi o empate contra o rival Borussia Dortmund, por 4 a 4. Por quê? Por toda a circunstância do jogo. Os aurinegros abriram nada mais nada menos do que uma vantagem de 4 a 0.  Em 25 minutos do primeiro tempo. Mas o Schalke 04 foi atrás do prejuízo e aos poucos não só diminuiu o vexame, como impediu que ele, de todo, se consumasse.

Foto: schalke04.de

Lá estava Naldo para, aos 49 minutos do segundo tempo, anotar o tento do empate. Pelo alto. Voando imparável. Do campo para os braços de um torcedor em transe, que não conseguia acreditar na força da luta que seu time acabara de demonstrar.

O curioso é que no segundo turno o brasileiro voltou a mostrar outra de suas especialidades contra seu maior antagonista. Dessa vez sem drama, mas com a mesma gana. Daniel Caligiuri foi derrubado a certa distância do gol de Roman Bürki. Mas, para alguém que porta um míssil nos pés, a distância foi só um componente a mais para garantir a beleza do foguete disparado. Ali, Naldo fechou o placar de uma vitória por 2 a 0 contra o Dortmund.

Ao longo da temporada também vitimou Stuttgart (2x), Eintracht Frankfurt (também no último minuto, selando um empate por 2 a 2), RB Leipzig e Hamburgo.

Elogios e prêmio para consagrar um belo ano

A crítica não pôde ignorar a grandeza da temporada de Naldo. Como sempre, atrás foi um paredão. Como nunca, à frente foi extremamente decisivo. Tite, o treinador da Seleção Brasileira, chegou a declarar que tinha Naldo em seu radar. Ele acabou não chegando perto de ser chamado, mas a própria lembrança já foi muito justa. E os motivos vão além de seu belo desempenho nos gramados.

Para Alessandro Schöpf, seu companheiro, ele é um “modelo a ser seguido”. Já o marroquino Amine Harit não poupa palavras para dizer que Naldo “é uma maravilha”, ambos em reportagem do site oficial da Bundesliga.

Foto: schalke04.de

O maior reconhecimento, entretanto, veio de seus companheiros de trabalho — e não apenas daqueles do Schalke 04. Ao final do Campeonato Alemão, Naldo foi eleito o melhor jogador da competição pelos jogadores profissionais do país. 248 atletas participaram da votação, que o colocou à frente de Robert Lewandowski e Joshua Kimmich, os dois do Bayern. Tedesco também foi eleito pelo mesmo júri o melhor treinador da temporada.

Quem diria que, com a idade já avançada, Naldo manteria tão alto nível de futebol e regularidade? Ao menos seu treinador acreditou fielmente nisso e interpretou com perfeição as aptidões de seu atleta. O resultado foi nada menos que brilhante. Parece que, como o vinho, o brasileiro só melhora com o passar dos anos.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho), 25 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no O Futebólogo e na Revista Relvado.