Especiais As Ligas de Lionel Messi – parte 3 (2010/2011)

  • por Victor Mendes Xavier
  • 7 Meses atrás

Assim como na parte 2 do especial, esta terceira parte também tem início em Madrid. Ou melhor: em Milão. Além dos 1187 km de distância, entre as duas cidades havia algo em comum: José Mourinho. Ao ser o principal responsável por impedir o bi-campeonato barcelonista em solo europeu (e, consequentemente, um hipotético e icônico triunfo na final no Santiago Bernabéu) com a Internazionale, Mou foi o encarregado de levar a fórmula do sucesso à Espanha. Florentino Pérez, não satisfeito em juntar grandes estrelas, enfim teve a serenidade de perceber que para enfrentar um grande time como o Barcelona era preciso (oras pois!) ter um grande time. Para isso, buscou o comandante na Itália e deu toda liberdade para o natural de Setúbal formar o elenco que teria a árdua tarefa de impedir que o projeto catalão se tornasse de vez uma dinastia.

Josep Guardiola terminou a temporada 2009/2010 consciente de que o poderio de seu ataque seria quase que impossível de ser medido fincando definitivamente Messi na posição de falso nove. Após hesitar em transformar seu maior craque por completo em “centroavante”, partindo do princípio de que ainda havia esperança no encaixe de Ibrahimovic, Pep abocanhou o bi-campeonato nacional com uma base ofensiva tipicamente da cantera: Xavi organizando, Pedro aberto à direita, Bojan próximo de Messi e Messi finalizando. Para a nova campanha, havia a certeza de que, pela primeira vez desde que assumira o comando do time em 2008, o meio-campo seria o grande bastião do estilo de jogo: Xavi e Iniesta estavam em plena forma física, técnica e mental, após serem protagonistas do inédito título mundial da Espanha meses antes.

O TRIANGULO XAVI-INIESTA-MESSI E A QUESTÃO DAVID VILLA

Dois pontos foram inegociáveis. O primeiro, o posicionamento de Messi, que consequentemente o acercava da dupla de meias. O segundo, que também tinha relação com o primeiro, era de que os companheiros de ataque do camisa 10 tinham que complementá-lo. Até por isso, mesmo com o fracasso retumbante de Ibra, chegou ao Camp Nou um novo goleador: David Villa. Sonho de consumo do Real, o desempenho de Guaje nos últimos anos o colocava maior que o Valencia. Essencialmente diferente de Zlatan, chegou à Catalunha para jogar pelo lado esquerdo, posição que, embora não fosse a preferida, já estava acostumado a jogar, seja pela seleção ou nos próprios tempos de Valencia.

Em em um time que naturalmente ficaria 60% do tempo com a bola nos pés, jogar tão aberto não sugeria tantos problemas. Ainda assim, Guardiola não o limitou de fato à ponta, como fez com Henry. Se, no time de 08/09, os desmarques de Eto’o inspiravam os passes mais verticais, em 10/11 o asturiano ficou encarregado de ter esse papel, aproveitando o vácuo que Messi deixava quando descia alguns metros. Se formos analisar pelos números, a temporada foi boa: 18 gols em 34 jogos, sendo alguns importantes, como os dois contra o Real Madrid, ou o que evitou o tropeço em Gijón, sua casa, diante do Sporting. Mas por algum motivo que (confesso) este que vos escreve não sabe explicar, Villa “parou” de funcionar no terço final de La Liga. Desgaste? Possivelmente. Mas a verdade é que o camisa 9 foi um espectro de si mesmo nos meses finais. O grande lampejo veio com o golaço na final da Liga dos Campeões contra o United, quando Guardiola, misteriosamente, decidiu utilizá-lo pelo lado direito, trocando de posição com Pedro Rodriguez.

APÓS AS DÚVIDAS INICIAIS, O AUGE EM NOVEMBRO E DEZEMBRO DE 2010

Foto: Site Oficial do Barcelona | David Villa: do bom rendimento no primeiro turno à queda no returno, o Guaje foi um bom complemento a Messi falso nove e teve noites memoráveis, como os dois gols contra o Real Madrid

Ainda que o desempenho inicial não fosse tão convincente, o Barça era impulsionado pelo ritmo de pontuação do Real Madrid. Em seus primeiros meses com Mourinho e liderados por um grande Cristiano Ronaldo, os merengues passaram as 12 rodadas iniciais sem derrota (10 vitórias e dois empates). Coletivamente, já era diferente do insosso time de Pellegrini. Özil e Di María mostravam por que foram comprados de Werder Bremen e Benfica, respectivamente, e no círculo central os lançamentos em profundidade de Alonso marcavam o alucinante ritmo da equipe. No mesmo período, o Barça foi surpreendido duas vezes. E as duas no Camp Nou: logo na segunda rodada, caiu para o modesto Hércules e quatro rodadas depois empatou com o Mallorca. Suou para vencer Valencia e Zaragoza nas jornadas seguintes, até o primordial confronto contra o Sevilla, pela nona rodada.

Como o Barça estava longe de exibir a melhor versão no início da temporada, o confronto contra o Sevilla foi visto com seriedade pela imprensa especializada. Os andaluzes viviam bom momento, personalizado nas figuras de Luis Fabiano, Kanouté e Jesus Navas. Mas com quatro minutos de jogo Messi convidou os adversários para o seu show. Ao final, o 5×0, mais do que uma goleada, representou a primeira grande noite do Barça 10/11. No total, o Barça venceu 16 partidas consecutivas, ficando surreais 31 rodadas sem sofrer uma única derrota (após o revés para o Hércules, foi sofrer um novo somente na trigésima-quarta rodada, para o Real Sociedad, quando Guardiola utilizou um time misto). O auge foi em novembro e dezembro. Para se ter noção do quão pletórico foi o jogo barcelonista nesses dois meses, em oito jogos, a equipe marcou 32 gols e sofreu somente três. Já era algo histórico, mas ficou ratificado naquele histórico 29 de novembro.

O TIKI-TAKA ESMAGADOR CONTRA REAL MADRID, REAL SOCIEDAD E ESPANYOL

Foto: Reprodução | Capa do Marca há uma semana do clássico evidenciava: confiança do madridismo em um resultado positivo no Camp Nou era alta

Era o primeiro Superclássico da temporada e pela primeira vez em dois anos o Real chegava com a auto-estima maior para encarar o grande rival. O Barça tinha recuperado as melhores sensações, mas havia a expectativa de que o Real enfim iria competir. Não competiu. Em uma das maiores imposições vistas na história da rivalidade, o Barça se exibiu naquela que foi a grande noite da Era Guardiola. Era a perfeição em forma futebolística. O que foi visto durante 90 minutos daquela chuvosa segunda-feira em Barcelona não pode ser definido por qualquer adjetivo “comum”. Evitando os lirismos que romantizem mais o texto, o 5×0 despertou a grande besta coletiva daquele esquadrão. Duas semanas depois, no mesmo Camp Nou, uma nova Real, dessa vez a de San Sebastian, foi impiedosamente derrotada pelos azulgrenás. A nova exibição, que representou um novo 5×0, contra a Real Sociedad foi a partida que Cruyff sempre sonhou. O terceiro gol, marcado por Messi, sintetizava: aquele time não poderia ser parado. Para completar o combo de espetáculo, sete dias depois, no dérbi barcelonista, um 1×5 fora de casa contra o bom Espanyol de Mauricio Pochettino, com um Pedro imparável.

 

 

Mesmo o primeiro Real de Mourinho, que conseguiu copar a taça da Copa do Rei na final contra o Barcelona, não foi capaz de competir semanalmente contra esse Barça. Lá para março, a disputa estava sentenciada. Os culés fecharam o tri-campeonato com 96 pontos, quatro a mais que o Real. Com 31 gols e 18 (!) assistências, Messi, é claro, foi o MVP da competição. Para muitos, até hoje, a grande temporada da carreira do argentino. Se foi ou não, a verdade é que foi o ano onde mais próximo de Xavi e Iniesta esteve. Um triangulo que mudou a lógica do esporte.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.