Fim e renovação, juntos

Por @EryckWaydson

Falta pouco para a bola rolar em mais uma Copa do Mundo. Nesta edição, o Uruguai não chega com a mesma força de 2014 – havia conquistado a Copa América 2011 e saiu da África do Sul, em 2010, com o quarto lugar. A Rússia também reserva, muito provavelmente, o último Mundial no currículo do eterno maestro Óscar Washington Tabárez Silva, que já não tem a saúde de outrora. No meio disso tudo, temos uma convocação pautada na renovação. Doze dos vinte e três chamados (52%), disputarão pela primeira vez o torneio – a média de idade é de 26,5 anos. A mensagem é clara: Tabárez pode estar saindo, mas quer deixar um plantel estruturado para os próximos desafios da Celeste.

Na última Copa, a eliminação veio logo nas oitavas, após um 2 a 0 para a Colômbia. Desde o fim do Mundial no Brasil até o final de 2017, foram 40 jogos disputados (19 vitórias, 8 empates e 13 derrotas), com 62 gols marcados e 43 sofridos. Na Rússia, não há fatores que entreguem algum tipo de favoritismo. No ranking da FIFA, inclusive, o Uruguai está atrás de países como Tunísia, Dinamarca e Polônia. Entretanto, El Maestro Tabárez tem demonstrado otimismo. “Existe uma evolução no trabalho. Ao longo do tempo, você consegue encaixar melhor as peças e acredito que, atualmente, temos uma grande variedade de opções, principalmente no setor ofensivo. O nosso elenco é forte e isso me deixa muito animado”, declarou.

Convocação oficial da seleção uruguaia (Foto: Federação Uruguaia de Futebol)

O Uruguai está no grupo A, ao lado da Arábia Saudita, Egito e Rússia. A estreia acontece no dia 15 e junhodro, às 9h (horário de Brasília), contra o Egito. Na edição 2018, os seguintes jogadores disputarão pela primeira vez uma Copa do Mundo:

  • Martín Campaña – 29 anos – Independiente (Argentina)
  • Gastón Silva – 24 anos – Independiente (Argentina)
  • Guillermo Varela – 25 anos – Peñarol (Uruguai)
  • Nahitan Nández – 22 anos – Boca Juniors (Argentina)
  • Lucas Torreira – 22 anos – Sampdoria (Itália)
  • Matías Vecino – 26 anos – Inter de Milão (Itália)
  • Rodrigo Bentancur – 20 anos – Juventus (Itália)
  • Carlos Sánchez – 33 anos – Monterrey (México)
  • Diego Laxalt – 25 anos –  Genoa (Itália)
  • De Arrascaeta – 24 anos – Cruzeiro (Brasil)
  • Jonathan Urretaviscaya – 28 anos – Monterrey (México)
  • Maximiliano Gómez – 21 anos – Celta de Vigo (Espanha)

E não é apenas o fato de ter grande presença de jovens. Também há qualidade. Bentancur, por exemplo, é o mais novo do plantel – mas tem dados bem interessantes. A porcentagem de passes certos é de 86,8%. Para o terço final do campo (gerando situações de gol), é de 77,3%. Estatísticas muito parecidas com o de Torreira, também meia, que tem 89,1% e 78,4% nos mesmos quesitos, respectivamente. Já o atacante Maximiliano Gómez marcou 17 gols em sua primeira temporada no Campeonato Espanhol – com 21 anos. Os números ratificam que a renovação vem com talentos. Só há um pesar: o idealizador disso tudo está de saída.

Há algum tempo, ficou perceptível que, fisicamente, Tabárez não é mais o mesmo. Carrinho elétrico e muletas se tornaram comuns para o comandante nos treinos e jogos. Tudo isso por conta de uma neuropatia crônica – que afeta os nervos periféricos. Referente ao assunto, o treinador sempre foi superficial. Pediu respeito à situação, cessou rumores sobre doenças mais graves e mostrou-se inteiramente focado na equipe.

Hoje com 71 anos, Óscar Tabárez construiu a sua popularidade desde muito tempo atrás. Como zagueiro, a carreira foi interrompida por conta de problemas físicos. Assim, para seguir trabalhando, escolheu ser professor de uma escola primária em Montevidéu. Ali nasce o apelido de El Maestro (professor, em português). Em 1983, de volta ao banco de reservas, agora no Sub-20 Celeste, conquistou o título dos Jogos Pan-Americanos de Caracas – conciliando sala de aula e campo. O sucesso pediu que ele escolhesse um lado. Desta forma, o futebol ganhou um grande treinador. E o Uruguai, um ídolo nacional.

Tabárez em foto icônica, após conquista dos Jogos Pan-Americanos, em 1983 (Foto: Reprodução)

As 180 partidas pelo país (contabilizando jogos anteriores ao início da Copa 2018), recorde mundial de um técnico à frente de uma seleção principal, não traz tantas taças – mas premia com símbolos, que não deixam de ser conquistas. Na Copa do Mundo de 2010, primeira do projeto encabeçado por Tabárez (que chegou depois da não classificação ao Mundial na Alemanha, em 2006 – vale salientar que o Uruguai também não participou em 1994 e 1998.), veio um quarto lugar, com Forlán sendo eleito o melhor jogador da competição. No ano seguinte, o fim de um jejum que vinha desde 1995: a conquista da Copa América em cima do Paraguai, por 3 a 0, ultrapassando a Argentina e tornando-se, assim, o maior vencedor do torneio, com 15 títulos – coroando a chamada “Geração de Ouro”.

Como todo ciclo tem fim, após 12 anos, El Maestro vai se despedir da Celeste. São quatro Copas do Mundo – contando com a de 90, quando assumiu a equipe a partir de 1988. Gradativamente, o comandante trouxe jovialidade para onde havia reconhecimento quase que somente pela garra. Muito provavelmente, o Tri não virá neste momento. Mas fica um legado. Uma estrutura pronta para quem vier a assumir o comando de um time que mantém as suas raízes, mas que agora será mais que uruguaio. Será para sempre Tabárez.

Título da Copa América em 2011 coroou “Geração de Ouro” do país (Foto: Conmebol)

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.