Julen Lopetegui e a Espanha mais humana

  • por Victor Mendes Xavier
  • 5 Meses atrás

O bom desempenho nas Eliminatórias somado aos surgimentos e ascensões de algumas figuras individuais levaram à Espanha o status de uma das favoritas ao título da Copa do Mundo. Não poderia ser diferente: qualquer evolução em relação aos últimos torneios oficiais já seria suficiente para potencializar a capacidade do atual ciclo. A bem da verdade, por mais que Vicente Del Bosque tenha tido méritos na conquista do Mundial de 2010 e da Euro de 2012, a sensação, depois da eliminação na Euro de 2016, era de que sua validade no comando técnico do time já havia sido ultrapassada. Pudera. A mesma Espanha que durante dois anos parecia impossível de ser derrotada gradativamente foi passando por um processo de declínio tático, físico e técnico que o afastou dessa aura de “invencível”. Pior: expôs muitas das fragilidades do estilo de jogo. Que o digam Holanda e Chile, que passaram por cima dos ibéricos na Copa de 2014. Levando em consideração que o conhecido “tiki-taka” também estava em sendo colocado em xeque nas competições nacionais e europeias (fracassos de Barcelona e Bayern de Guardiola na UCL 2013 contra equipes que não prezavam tanto pela bola), era evidente a necessidade de mudança.

O basco Julen Lopetegui foi o encarregado de cumprir essa missão. À primeira vista, um nome controverso por alguns motivos. O primeiro é que, historicamente, a RFEF sempre priorizou treinadores mais experientes em detrimento dos mais novos. No século XXI, Iñaki Sáez, Luis Aragonés e o próprio Del Bosque se despediram das carreiras como técnicos tendo como último trabalho a Espanha. Javier Clemente ainda está na área até os dias atuais, mas, quando fora anunciado, em 1998 (ficou até 2002), já tinha um currículo extenso. Lopetegui, ok, começou sua ocupação em 2003, mas sempre em times de base. A primeira grande oportunidade? 11 anos depois, no Porto. E aí está a outra razão da desconfiança existente: Julen fracassou em Portugal. Após alguns meses de bom futebol, o Porto foi definhando até agonizar nas últimas partidas. O resultado foi a demissão do comandante. Ainda assim, um ponto tem que ser levado em consideração: nas seleções de base, o triunfo de Lopetegui foi inegável.

Durante o tempo em que treinou a Espanha Sub-19, Sub-20 e Sub-21, o natural de Asteasu montou times verdadeiramente competitivos e lidou com muitos personagens-chaves do plantel que vai à Rússia tentar o bi-campeonato mundial, como De Gea, Thiago, Koke e Isco, espinhas-dorsais do fantástico elenco da Euro Sub Sub-21 de 2013. No mesmo time, também estavam Carvajal e Rodrigo. Na final em Jerusalém, a Roja esmagou a Itália de Verratti, Insigne, Florenzi e Immobile com três gols de Thiago e outro de Isco: 4×1. Então, havia a sensação de emular o que fez a Alemanha quando efetivou Joachim Löw. Löw trabalhou com variados jogadores que lideraram os germânicos ao título de 2014. Aliás, exemplo melhor não existe. Quando os garotos da Alemanha esmagaram a Inglaterra por 4×0 na decisão da Euro Sub-21 de 2009, ensaiavam uma inesquecível Copa com a seleção principal no ano seguinte e uma mais ainda a cinco anos. Neuer, Jerome Boateng, Khedira e Özil, titulares na África e no Brasil, arrebentaram no torneio.

Foto: Site Oficial da Real Federação Espanhola de Futebol | Isco Román: o grande nome da “Era Lopetegui”

Basicamente, uma das tarefas de Lopetegui, portanto, consistia em unir o “novo mundo” com o “velho”: mesclar, de forma objetiva e vencedora, a geração de Isco e Thiago com a de Iniesta e Silva. Assim, construiu a equipe que vai começar, no próximo dia 15, contra Portugal, a caminhada pela tentativa de buscar, pela segunda vez, a mais desejada taça do futebol. Uma equipe com virtudes e defeitos, claro. Acima de tudo, verdadeiramente humana: em um bom dia, bate de frente com qualquer outra favorita, pelo poderio ofensivo, mas recheada de incógnitas defensivas que podem colocá-la em risco num mata-mata.

E muito dessa vulnerabilidade acontece pelo fato da Espanha atacar com muitos jogadores. Quando a Roja está com a bola, praticamente só três jogadores “guardam” posição: Sergio Ramos, Piqué e Busquets. Alba tem liberdade para avançar à linha de fundo, até porque o movimento natural de Isco, ponta esquerda, é centralizar, permitindo o flanco canhoto ficar a cargo do lateral culé. Cena semelhante que ocorre no lado direito, com Carvajal e Silva. Ou seja, os laterais têm fundamental importância dentro do sistema espanhol porque são os responsáveis por criar profundidade e as oportunidades pelas beiradas. Mesmo assim, eles nunca estão sozinhos. Quando um recebe a bola, sempre há quem se aproxime para oferecer opção de passe. O grande perigo acontece quando a Espanha perde a bola no seu campo de ataque.

No famoso “correr pra trás”, deixa a desejar. É por isso que o grande trunfo defensivo da Fúria nasce na forma como ataca e como pressiona após perder a pelota. É paradoxal, mas a Espanha precisa atacar bem para se defender bem. E dentro desse cenário de pressão, Busquets é primordial, porque consegue recuperar o máximo de bolas possíveis. No entanto, se algo foge de seu controle, os problemas aumentam. Quando não teve o volante do Barcelona, Lopetegui optou por Koke, pela sensibilidade de se juntar aos meias mais à frente e participar do jogo de passes. Contra Alemanha e Suíça, a Espanha jogou bem, mas ficou visível que faltou algo. Os resultados (dois empates por 1×1) embora não digam totalmente o que foram os encontros, logicamente ligam o alerta quanto à capacidade de se defender sem bola e controlar as transições adversárias.

Até pela “falta” de energia de Silva, o canário tem liberdade para flutuar pelo centro e se encontrar com Thiago ou Koke, Iniesta e Isco. A grande arma: com a bola nos pés, a versatilidade ofensiva espanhola é única e poderosa. É tanta qualidade junta que quase por inércia as chances são criadas. Há algumas dúvidas quanto à “repartição de espaços” (se é esta a definição correta). É por isso que tudo depende da fluidez dessa troca de passes. Se a Espanha consegue vencer uma pressão a partir de uma triangulação, facilita todo o seguinte (contra a Suíça, sem Isco, crucial Iniesta permitindo levar a bola mais à frente com limpamente).

Foto: Site oficial da Real Federação Espanhola de Futebol | Em sua última Copa, Iniesta terá um papel fundamental. Apesar das dúvidas quanto às questões físicas, é o líder técnico da Espanha

É bom salientar que embora a estrutura tática e a inspiração continuem sendo o Barcelona, a Espanha joga “outra coisa”. Uma pequena amostra foi dada naquela que foi a grande exibição da Espanha com Lopetegui (ao lado do 6×1 contra a Argentina, em março desse ano). No triunfo diante da Itália no Santiago Bernabéu, Lopo escalou seu time sem um centroavante de ofício (Asensio fez as vezes de falso nove naquela noite). Após impor seu jogo no primeiro tempo, a novidade veio na etapa final: com Busquets, Koke, Iniesta, Isco, Silva e Asensio em campo, a Espanha recuou e jogou à base dos contra-ataques. O que isso quer dizer? Que finalmente existe um plano B.

A Roja, que há quatro anos mostrou-se sem alternativas às ligações diretas holandesas e à intensidade chilena, atualmente mostra ter alternativas aos cenários de desconfortos (olho na relevância de Lucas Vazquez no Mundial). Outra coisa é que o potencial finalizador de Koke, Isco e Asensio é maior que o de Xavi, Xabi Alonso e Fàbregas. Até por isso é difícil imaginar que a Espanha do “1×0” dê as caras. Não somente por isso, mas também porque Lopetegui dispõe de mais cartas na manga que criem ocasiões individuais do que o potente coletivo de 2010 e 2012. Se tivesse que comparar, é uma equipe que lembra mais o do título europeu de 2008, de Aragonés, aquela mesma que aguardava pacientemente no 4-1-4-1 sem a bola para contra-atacar.

A Espanha não chega ao território russo com a obrigação de ser campeã. Há, na opinião pública e na imprensa nacional, a consciência que, a despeito do rótulo de ‘favorita’, existem seleções acima (leia-se: Brasil e Alemanha). Assim como igualmente existe o pensamento de que esta seleção pode competir até o limite. Lopetegui cumpriu a primeira parte de seu objetivo: revitalizou a Espanha. Agora é com Isco, Iniesta, Silva e cia.
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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.