Toni Kroos, o penúltimo maestro

  • por Victor Mendes Xavier
  • 3 Meses atrás

A Alemanha busca a sua quinta taça de Copa do Mundo. Para isso, vai precisar quebrar um jejum que dura 56 anos: desde 1962 uma seleção não ganha consecutivamente o Mundial. Os concertos de Garrincha e Vavá no Chile foram responsáveis pelo bi-campeonato do Brasil, única seleção ao lado da Itália 34-38 a revitalizar o título. Bom, como o foco do texto não é a superstição (ou curiosidade), é bom falar, logicamente, das quatro linhas. A Alemanha chega à Rússia com mais dúvidas que no ciclo anterior. Há as incertezas defensivas, os momentos de peças-individuais chaves, a “ausência” de hierarquia (leia-se, figuras tão identificadas com a camisa como Michael Ballack, Philipp Lahm ou Bastian Schweinsteiger num mesmo grupo) e até mesmo a hesitação coletiva, ratificada nos desempenhos em amistosos neste ano. Claro que a concentração e o empenho numa Copa serão diametralmente opostos em comparação aos de jogos não oficiais, mas há outros fatores que tornam a Alemanha mais “humana”. Mas nem tudo é obscuro, longe disso. Há os pontos positivos, que são múltiplos. E, dentro desse panorama, a principal resolução estará representada na presença de Toni Kroos. Mais uma vez, o camisa 8 será a grande estabilidade dos germânicos.

Atualmente, Kroos goza de um status único no elenco alemão. A imagem de referência na Deutschland foi sendo construída gradativamente desde as divisões de base. Nascido em Greifswald, ingressou e permaneceu por quatro anos nas categorias inferiores do Hansa Rostock. Não tardou até chamar a atenção dos olheiros do Bayern de Munique. Em 2006, mudou-se para a Baviera, um passo importante em âmbito profissional. Integrante dos times sub-17, sub-19 e sub-21 da Alemanha, deu seu primeiro lampejo ao mundo no Mundial Sub-17 de 2007, na Coreia do Sul. A Alemanha de Kroos ficou com terceiro lugar, mas o desempenho do meia foi tão impactante que até mesmo ídolos do futebol do país ficaram lisonjeados. “Prestemos atenção no desenvolvimento do camisa 10. Já, já será um dos melhores do mundo“, disse o Kaizer, à época, em discurso autentificado por Gerd Müller. Toni foi eleito o MVP e ficou com Chuteira de Bronze da competição, pelos 5 gols marcados.

Foto: Site Oficial da Fifa | O jovem Kroos, último da esquerda à direita, foi o melhor jogador e terceiro artilheiro do Mundial Sub-17, na Coreia do Sul, em 2007

Se hoje Kroos se destaca pelos passes e a capacidade de organização no meio-campo, aquele jovem era diferente. Atuava praticamente como um segundo atacante, com tendência a armar o jogo por trás do centroavante. O futebol alemão já passava por mudanças. O estilo pragmático e físico dava vez a uma maior leveza, dinamismo e troca de passes em espaços reduzidos. O meia representava um elo entre as antigas e as novas gerações. A ordem e disciplina do século XX com a inteligência e plasticidade do século XXI. Não poderia ser diferente. Seu pai, Roland Kroos, foi futebolista como ele, e sua mãe, Birgit Kammer, foi campeã de Badminton pela Alemanha Oriental. Em outras palavras, a essência competitiva sempre esteve no DNA do protagonista do texto. “O que faria se não fosse jogador de futebol? Eu simplesmente não sei. Nunca tive outra oportunidade a não ser jogar futebol e ser profissional“, admitiu, em entrevista ao Bild em 2009.

Com 17 anos e 265 dias, estreou com o time A do Bayern, logo após o Mundial na Coreia, uma marca até então inédita no clube, quebrada anos depois por David Alaba. Como Kroos ainda estava verde e precisava de sequência para evoluir, foi emprestado ao Bayer Leverkusen. Lá, conheceu um personagem crucial na sua carreira: Jupp Heynckes. “É uma pessoa incrível. Não é especial somente pela capacidade como treinador, mas sim pela forma como cria um bom ambiente de trabalho. Eu vivi isso no Bayer e no Bayern e creio que me ajudou bastante a crescer como atleta“, disse Kroos, às vésperas do confronto entre Real Madrid x Bayern de Munique pela semifinal da Liga dos Campeões 2018, em abril.

Com Heynckes, Kroos seguiu jogando como meia-atacante, mas com um quê dos famosos trequartistas italianos, aqueles camisas 10 que gostam sempre de estar em contato com a bola. Mais do que isso, para Toni era imprescindível ver o jogo de trás. Ou seja, na teoria, seu posicionamento era na meia-lua da área, mas, na prática, passava mais tempo no círculo central. Essa característica, para o bem e para o mal, representava um “defeito” que Kroos nunca pôde combater. Na era do 4-2-3-1, não seria muito interessante o segundo jogador mais adiantado da prancheta tática viver tanto tempo “recuado”. Mas Heynecks deu um jeito de mascarar a “debilidade.” Em primeiro lugar porque, quando retornou de empréstimo, em 2011, o meia seguiu jogando adiantado, mas com companheiros que soubessem atacar o espaço permitido por seus movimentos, como Müller, Ribery ou Javi Martinez. Em segundo, porque o comandante deu um jeito de explorar essa peculiaridade e transformá-la em virtude. Kroos, mesmo sem saber, já atuava como um maestro. E a mutação completa veio com o treinador seguinte, o mais adequado para lidar com isso: Josep Guardiola.

Não é preciso ser repetitivo e explicar quem é Guardiola e o que mais admira dentro de campo. Quando chegou ao Bayern, o catalão precisava de alguém que pudesse emular o que foi Xavi durante o período no Barcelona, um elemento que balizasse a exportação do tiki-taka à Bundesliga, de erro zero. Contratou Thiago Alcântara, familiarizado com a ideia. Mas encarregou Kroos de ser esse homem. De uma temporada para a outra, Toni foi atrasado definitivamente, jogando por dentro, à frente do primeiro volante, e tocando na bola mais de 80 vezes por partida. A cada jogo, deixava claro que nasceu para jogar ali. Sempre tomava a decisão correta e dificilmente falhava. 90% de efetividade durante a temporada.

A conversão de Kroos em volante ajudou indiretamente também a seleção alemã, pois permitiu a Joaquin Löw utilizá-lo dessa forma na Copa de 2014. Se formos pensar que, na estratégia inicial, não havia espaço para Kroos porque a dupla de volantes formada por Schweinsteiger e Khedira era intocável e, mais à frente, Özil era o titular, para o certame no Brasil o técnico resolveu abrir o esquema: 4-3-3 com Kroos e Lahm, na primeira fase, e depois Kroos e Khedira, com Bastian atrás. Independente da formação, a bola passava sempre pelos pés de Kroos. 633 passes completados, com 92,3% de média de acerto. A Alemanha tinha um time para sair jogando com segurança desde a defesa e, a depender do cenário deparado, poderia acelerar e aproveitar o trio de ataque. É verdade que a facilidade foi grande, mas no fatídico 7×1 o meio-campo germânico colocou no bolso o brasileiro.

Foto: Site Oficial da Fifa | Brasil 1×7 Alemanha, a grande atuação de Kroos na última Copa do Mundo.

Embora a atual geração alemã seja comparada com a da Espanha 2010-2012, há uma distinção clara: enquanto a Espanha se preocupava em ter a bola para se defender, a Alemanha tem uma dinâmica de jogo vertical. Aí, Khedira tem sua funcionalidade, pelos movimentos profundos que gera. Sami gosta de (e tem) liberdade para ir à linha de fundo, dando fluidez ao sistema ofensivo. E quem o permite isso? Kroos. Para Toni, o sistema de Löw o brinda de tudo que necessita: uma quantidade variada de linhas de passes para fazer de luxo sua milimétrica precisão. E com Khedira alargando o campo, o camisa 8 pode lança-lo em profundidade a todo instante.

Mesmo sendo estreia, o jogo de amanhã será uma declaração de intenções. Nos três primeiros dias de Copa, vimos a maioria das seleções baseando suas marcações a partir de uma média pressão, tendência esta que certamente continuará, ainda mais com o elétrico México de Juan Carlos Osório. Por isso que um membro de tanta solidez maximiza ainda mais a saída de bola: se a Alemanha vence uma primeira linha de marcação, terá mais espaço para correr com Müller e Draxler ou achar Özil entrelinhas para acionar Werner. Acontecendo isso, a tetra-campeã terá meio caminho percorrido para vencer um duelo. Como parar Kroos? Veremos nas próximas semanas.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.