Viradas em fases eliminatórias de Copas do Mundo são raras

  • por Igor Leal da Fonseca
  • 4 Meses atrás

Copas do Mundo sempre são associadas à emoção, sangue e luta até o último instante. Copas constroem heróis e derrubam mitos, muito por conta do formato de mata-mata, venerado por torcedores mundo afora. Mas numa coisa as Copas deixam a desejar: viradas em fases eliminatórias. Desde 1986, quando foi instituído o modelo com oitavas, quartas, semi e final, foram disputadas 120 partidas eliminatórias, excluindo a disputa pelo terceiro lugar. Em pouco mais de 11 por cento desses jogos, um time saiu atrás e terminou classificado para a fase seguinte. Confira abaixo essas partidas

URSS 3×4 Bélgica – 1986

Classificada em primeiro no Grupo C, terminando à frente da poderosa França de Platini, parecia que a partida das oitavas contra a Bélgica seria uma mera formalidade para os soviéticos. Após perder para o México na estreia, uma vitória magra contra o Iraque e um empate contra o Paraguai, a equipe comandada por Scifo conseguiu a classificação apenas como uma das melhores terceiras colocadas. Tudo indicava que o Exército Vermelho avançaria, ainda mais quando Belanov abriu o placar aos 27’. Aos 56’, Scifo empatou, mas 14 minutos mais tarde Belanov novamente colocou os soviéticos em vantagem. Ceulemans deixou tudo igual e o jogo foi para a prorrogação. Nela, os belgas abriram 4×2 faltando 10 minutos para o final, viram Belanov chegar ao hat-trick aos 111’ de jogo, mas conquistaram a classificação para as quartas.

 

Dinamarca 1×5 Espanha – 1986

 

A Dinamarca chegou à Copa credenciada por uma semi-final de Eurocopa dois anos antes, quando quando deixaram Bélgica e Iugoslávia para trás na fase de grupos e caíram para os espanhóis apenas nos penais. Após uma vitória magra na estreia contra a Escócia, o time liderado por Elkjaer e com o promissor Michael Laudrup triturou os uruguaios por 6×1, na pior derrota da Celeste na história da competição. Na última rodada, outro baile, dessa vez em cima da Alemanha – finalista da edição anterior -, com a Dinamarca vencendo por 2×0. Nas oitavas, o confronto com os espanhóis ganhou ares de ‘’vingança’’ e os dinamarqueses abriram o placar aos 33’ de jogo. Um gol de Butragueño pouco antes do intervalo deixou tudo igual. No segundo tempo, os espanhóis marcaram mais quatro gols – sendo três do ‘’Abutre’’ e despacharam a ‘’Dinamáquina’’ de volta para casa.

 

Nigéria 1×2 Itália – 1994

 

Fazendo sua estreia em mundiais, a Nigéria conseguiu a proeza de terminar em primeiro no grupo que tinha a Argentina e a Bulgária de Stoichkov. Nas oitavas, o confronto contra a Itália – apenas terceira no seu grupo e com dois gols marcados em três jogos – parecia ser acessível para os nigerianos, bastante adaptados ao calor do verão dos EUA, enquanto os italianos terminaram as partidas da fase de grupos se arrastando. Aos 25’ de jogo, as ‘’Super Águias” abriram o placar e mantiveram a vantagem praticamente até o fim do jogo. A expulsão de Zola aos 75’ parecia a pá de cal sobre os italianos, mas Roberto Baggio empatou faltando pouco mais de dois minutos para o fim do tempo regulamentar. Na prorrogação, Baggio fez mais um e virou o jogo para a Itália, mesmo com um a menos em campo.

 

Bulgária 2×1 Alemanha – 1994

 

Atual campeã do mundo na Copa de 94, a Alemanha fez uma fase de grupos sem sustos, passando em primeiro na sua chave. Já os búlgaros perderam para a Nigéria na estreia – um sonoro 3×0 -, ganharam da Grécia na segunda rodada e surpreenderam o mundo ao bater a Argentina por 2×0, terminando em segundo na chave. Nas oitavas, os alemães bateram os belgas por 3×2 e os búlgaros despacharam o México. Após um primeiro tempo sem gols, a Alemanha saiu na frente com um gol de Matthaus logo na volta do intervalo, mas os búlgaros viraram com gols de Stoichkov e Letchov e impediram a Alemanha de alcançar a quarta semi-final de Copa do Mundo seguida.

 

Alemanha 2×1 México – 1998

 

Os mexicanos fizeram campanha consistente em 98, fazendo bons jogos contra Holanda e Bélgica na fase de grupos e derrotando a Coréia do Sul. Era possível acreditar em ‘’revanche’’ contra a Alemanha, que derrotou o México nos penais nas quartas da Copa de 1986. E o que era possível se tornou factível quando Hernandez abriu o placar para o México logo após o intervalo. Klinsmann deixou tudo igual quando faltavam quinze minutos para o fim e Bierhooff decretou a virada aos 86’ de jogo.

 

Brasil 3×2 Dinamarca – 1998

 

Credenciada pela goleada para cima da Nigéria nas oitavas, a Dinamarca chegou ao confronto contra o Brasil pensando em surpreender e tudo indicava que a zebra aconteceria quando Jorgensen abriu o placar aos 2’ de jogo. Bebeto e Rivaldo viraram o jogo ainda antes dos 30’, Brian Laudrup deixou tudo igual aos 50’, mas Rivaldo voltaria a colocar o Brasil em vantagem.

 

França 2×1 Croácia – 1998

 

A Croácia chegou ao mundial da França como uma equipe que todos sabiam que possuía ótimos jogadores no cenário europeu, mas que todos os grandes feitos da região estavam ligados à Iugoslávia. Após vencer Jamaica e Japão na primeira fase, os croatas eliminaram a favorita e muito mais experiente Romênia nas oitavas e deram um passeio na Alemanha nas quartas. O jogo seria duro para a anfitriã França e Suker tratou de confirmar isso abrindo o placar com um minuto do segundo tempo. Thuram empatou praticamente na saída de bola da França e deu números finais ao jogo aos 69’. Até hoje, é a única virada em semi-final de Copa desde que esse modelo foi instituído.

 

Suécia 1×2 Senegal – 2002

 

Senegal já havia surpreendido o mundo ao bater a França na estreia por 1×0. A equipe comandada por Diouf também havia protagonizado o melhor jogo da fase de grupos, um emocionante empate em 3×3 com os uruguaios. Já os suecos chegavam ao confronto respaldados pela liderança do seu grupo, eliminando a fortíssima e favorita Argentina na fase de grupos da competição. O experiente e multi vencedor Larsson abriu o placar para os suecos, mas Henri Camara deixou tudo igual ainda no primeiro tempo. Jogo disputado e com boas chances de lado a lado, mas sem alterações no restante do tempo regulamentar. Na prorrogação, os senegaleses marcaram o 2×1 faltando um minuto para o intervalo e, devido ao critério do ‘’gol de ouro’’, despacharam a equipe sueca de volta para casa.

 

Coréia do Sul 2×1 Itália – 2002

 

Cotada como uma das principais candidatas ao título e tendo no elenco jogadores como Buffon, Maldini, Totti e Vieri,a Itália fez uma primeira fase bem ao seu estilo, classificando-se com apenas 4 pontos, graças ao gol salvador de Del Piero aos 85’ no jogo contra o México e à improvável vitória do já eliminado Equador contra a Croácia. Já os coreanos, passaram sem sustos pela primeira fase, eliminando as tradicionais seleções de Portugal e Polônia. Ainda hoje alvo de controvérsia por conta da atuação do equatoriano Byron Moreno na arbitragem, o jogo causa fúria em qualquer italiano que se preze. Dentro de campo, a Itália abriu o placar com Vieri aos 18’ e manteve a vantagem até os 88’, quando Seol deixou tudo igual. Na prorrogação, Totti sofreu penalidade claríssima não marcada e, para completar a tragédia, foi expulso de campo por simulação. Faltando três minutos para o fim, Ahn virou para os coreanos e colocou os anfitriões nas quartas, na melhor campanha dos sul-coreanos na história da competição.

 

Inglaterra 1×2 Brasil – 2002

 

Se a Inglaterra chegou à Copa como uma das favoritas ao título, o Brasil estava no hall das incógnitas. Era também um jogo dos craques ‘’em recuperação’’, tendo em vista que David Beckham havia quebrado um dedo do pé esquerdo em abril e, pelo lado brasileiro, Rivaldo e Ronaldo vinham de grande período de inatividade, voltando a jogar regularmente apenas na Copa do Mundo. Em falha de Lúcio, Owen abriu o placar para os ingleses, mas Rivaldo empatou nos acréscimos da primeira etapa, após magistral jogada de Ronaldinho Gaúcho. O mesmo Gaúcho fez 2×1 para o Brasil numa improvável cobrança de falta aos 50’ e poderia ter colocado tudo a perder sete minutos mais tarde, quando foi infantilmente expulso. Com um anos em campo e sem Ronaldo nas melhores condições, o Brasil segurou o resultado no restante do jogo e avançou à semi-final.

 

Argentina 2×1 México – 2006

 

Novamente cotada como uma das favoritas, dessa vez a Argentina passou incólume pela fase de grupos, vencendo Costa do Marfim e Sérvia e Montenegro e empatando com a Holanda. Já os mexicanos chegaram ao mata-mata desacreditados após vencerem o Irã na estreia, empatarem com Angola e perderem para Portugal na fase de grupos. Rafa Marquez abriu o placar para o México aos 6’, mas dois minutos mais tarde Crespo deixou tudo igual. O jogo continuou empatado até Maxi Rodriguez acertar um petardo de fora da área num chute altamente improvável e decretar a vitória da Argentina já na prorrogação.

 

Espanha 1×3 França – 2006

 

A Espanha havia vencido Ucrânia, Tunísia e Arábia na fase de grupos, marcando 8 gols e sofrendo apenas 1. Já a França, com Zidane e tudo mais, teve imensa dificuldade nas partidas contra Suíça e Coréia do Sul – dois empates – e só classificou-se após vencer Togo por 2×0 e contar com ajuda suíça, que venceu a Coréia pelo mesmo placar. O clima para os espanhóis era de ‘’agora vai’’, clima esse que parecia confirmado após Villa abrir o placar para a Espanha, mas Ribéry deixou tudo igual ainda antes do intervalo. Vieira colocou os franceses à frente faltando pouco menos de dez minutos para o fim do jogo e, num contra-ataque, Zidane ‘’fez sua estreia’’ naquela Copa, marcando um belo gol já nos acréscimos.

 

Holanda 2×1 Brasil – 2010

 

Na primeira e até hoje única virada sofrida pelo Brasil em fases eliminatórias de Copa e na primeira derrota da Seleção em Copas fora da Europa desde a final de 1950, Robinho abriu o placar para a Seleção Brasileira, que poderia ter ido para o intervalo com larga vantagem, tal o domínio que exerceu sobre a Holanda. Mas num lance de sorte, os holandeses chegaram ao empate logo após o intervalo e um improvável gol de cabeça do pequenino Sneijder sacramentou a virada. Felipe Mello ainda seria expulso de campo em lance de puro destempero, inviabilizando quaquer tentativa dos comandados de Dunga de buscar o resultado.

 

Holanda 2×1 México – 2014

 

Na última virada em fases eliminatórias de mundiais, a Holanda foi mais uma vez protagonista, num jogo marcado por controvérsias de arbitragem e por muita reclamação dos mexicanos. Após um primeiro tempo sem gols, Giovanni dos Santos abriu o placar para o México, que segurou a vantagem até os 88’ de jogo, quando Sneijder acertou um belo chute de fora da área e empatou. Nos acréscimos, o árbitro marcou penalty de Rafa Marques sobre Robben – num lance bastante polêmico – e Huntelaar virou a partida, classificando os holandeses para as quartas.

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33 anos, morador do Rio de Janeiro. Rubro Negro de coração, apaixonado pelo Maracanã, tem no Barcelona o exemplo de clube para o que entende como futebol perfeito, dentro e fora do campo. Estudioso da memória do futebol, tem nessa sua área de maior atuação no site, para preservar a memória do esporte. Dedica especial atenção aos times mais alternativos, equipes que tiveram grandes feitos, mas que não são tão lembradas quanto as maiores do mundo. Curte também futebol do centro e do leste da Europa, com uma coluna semanal dedicada ao assunto. Um Doente muito antes de fazer parte desse manicômio, sua primeira memória acadêmica é uma redação sobre o Zico, na qual tirou 10 e a mesma foi para o mural da escola. Nunca trabalhou com futebol dessa forma, mas adora o que faz junto com o restante do pessoal e se pergunta o porquê de não ter começado com isso antes. Espera recuperar o ''tempo perdido''. Acha Lionel Messi o melhor que viu jogar e tem em Zico, Petkovic e Ronaldo Angelim como heróis.