A Era Paulinho

  • por Doentes por Futebol
  • 4 Meses atrás

Por Sérgio Lopes

Qualquer eliminação do Brasil em Copa do Mundo é traumática. Mas talvez a derrota brasileira para a Bélgica seja a que deixa a menor sensação de terra arrasada entre as últimas. Pra falar a verdade, essa sensação não existe. E temos que nos esforçar para manter esse sentimento. O trabalho de Tite tem que continuar e os melhores jogadores do time, que ainda são jovens, devem liderar o próximo ciclo.

Contudo, por melhor que tenha sido o trabalho de Tite, críticas podem e devem ser feitas, até como forma de contribuir para a evolução do seu trabalho à frente da Seleção. Uma delas, que se quer tratar neste texto, é a falta de zelo com o setor do campo mais decisivo do futebol há muitos anos – o meio-campo. Não é coincidência que a ultimas três seleções campeãs mundiais contavam com jogadores fora de série nesse setor (Pirlo, Xavi e Kroos).

O Brasil precisa ter mais neurônios nessa região do campo, e não é de hoje. Longe de querer crucificar este ou aquele jogador, mas Paulinho é o grande símbolo desse momento do futebol brasileiro que se contenta com um jogador de meio campo cuja maior qualidade é a infiltração. A maldita infiltração. A detestável figura do “elemento surpresa” que tanto ilude torcida e imprensa.

Paulinho é um equívoco cometido em 2014 e insistido em 2018. O Brasil perdeu esses dois mundiais fundamentalmente no meio de campo, pela pobreza de ideias na região de criação. É medíocre se contentar com um volante que seja elemento surpresa. Tudo que o futebol moderno pede é que esse jogador NÃO seja um elemento surpresa. Esse cara tem que pegar na bola o tempo todo, ditar o ritmo do jogo, ser o imã da equipe. A seleção brasileira pagou um preço muito alto, em 2014 e 2018, por ter que aturar um jogador que não arma e defende, mas que eventualmente faz gols.

A falta de preocupação de Tite com esse aspecto do jogo ficou clara já na convocação. Foi um erro estratégico, apontado por muitos naquele momento, levar o imprestável Taison (zero minutos na Copa) no lugar de mais um jogador de meio-campo, que poderia muito bem ter sido um Arthur ou um Paquetá. Jogadores jovens, criativos e que poderiam oxigenar o meio-campo da seleção, criando opções para o jogo de hoje, por exemplo.

A reformulação na seleção brasileira não precisa ser total. A comissão técnica de Tite representou um grande avanço, em termos de ideias e metodologia de trabalho, reaproximando o Brasil do futebol de alto nível. Entretanto, alguns conceitos atrasados, como o tal do volante elemento surpresa, persistiram, talvez até pela falta de experiência de Tite em torneios deste nível. Assim, esperamos que o choque de realidade de hoje faça com que ele perceba que Paulinho resolve muito em Brasileirão e Libertadores, mas em Copa do Mundo a conversa é diferente.

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