É difícil não se impressionar com Ryan Sessegnon

O número de jogadores nascidos nos anos 2000 está aumentando. É natural que seja assim, mas alguns casos ainda provocam profundo espanto. No Velho Continente, talvez o mais impressionante seja o de Ryan Sessegnon. Os 18 anos recém-completados e a cara de menino escondem a grandeza do futebol daquele que foi o principal jogador do Fulham na campanha de acesso dos Cottagers à Premier League.

Titular aos 16

O charme dos dias de Premier League no belo estádio Craven Cottage está de volta. O Fulham finalmente conseguiu o acesso à elite, depois de penar por quatro temporadas na Championship. Isso mesmo, penar. Em 2014/15 e 2015/16, o time quase desceu à League One — a terceira divisão do futebol inglês. Um ano depois, chegou aos playoffs de acesso ao escalão principal, mas não conseguiu subir.

Já naquela oportunidade, porém, havia motivos para o torcedor se animar. Não só a campanha havia sido boa, como um foguete despontara na ala esquerda. Velocíssimo, Sessegnon surgiu como um jogador diferente. Não é só rápido, mas também é habilidoso; não é só habilidoso, tem também uma leitura diferenciada do jogo. Ataca os espaços como poucos, vai à linha de fundo e traz o jogo para o meio do campo. Talvez por isso faça tantos gols.

Foto: FulhamFC.com

Desde o início, mostra também alguma versatilidade, ainda que restrita ao flanco esquerdo. Em regra, os Cottagers atuaram em um esquema 4-3-3, sob o comando do sérvio Slavisa Jokanovic. Com essa configuração, Ryan atuou como lateral esquerdo, meia esquerda e ponta esquerda.

E sua importância não se restringiu ao ataque. Mesmo quando atuou mais avançado, mostrou especial aptidão para recuar nos momentos em que o time era atacado, auxiliando o lateral escalado na ocasião e permitindo ao time uma maior compactação na hora de recuperar a bola. Foi por isso que acabou se tornando a peça-chave do time.

Aos 17 anos, integrou a seleção da segunda divisão. O que se repetiu aos 18. Nessa altura da carreira também já ajudou a Inglaterra a conquistar a Euro Sub-19, em 2017 — foi, também, um dos artilheiros desse certame, com três gols anotados.

Goleador e assistente

Aliás, gols tem sido uma das principais marcas do talento inglês nesse início de trajetória. Sua marca é notável. Sempre pelo flanco canhoto, o garoto já registra a impressionante marca de 28 tentos em 82 jogos. 20 desses gols foram marcados na disputa da dura segunda divisão inglesa.

Não se engane pelo fato de a competição não representar a elite do país. A Championship é um torneio altamente competitivo. Prova disso talvez seja a permanência dos três clubes que subiram em 2016/17, na primeira divisão de 2017/18.

Foto: FulhamFC.com

Sessegnon já registra também 11 assistências. Porém, para quem passa o dia a dia ao lado do talentoso jovem, não é sua qualidade com a bola nos pés ou seu poder de decisão que mais chamam a atenção, mas a tranquilidade e o foco com que lida com sua carreira e as partidas. Há quem compare seu início de carreira ao de Ashley Cole e também tem quem considere seu potencial superior ao do histórico lateral inglês.

Não raro, seu treinador no Fulham o elogia:

“Ele já mostrou um ótimo nível de autoconfiança, ele é especial. Quando a bola chega a ele na área, normalmente ele a coloca na rede. Ele quer chegar ao mais alto nível, quer se pressionar até lá. Sei que ele chegará lá logo. Ele tem 17 anos e é especial”, disse Jokanovic ao Daily Mail, em maio último, três dias antes de o garoto atingir a maioridade.

Por sua vez, o zagueiro norte-americano Tim Ream, companheiro de Sessegnon no clube, registra ainda mais seu espanto com a maturidade do colega: “nunca vi um garoto tão calmo à frente de vocês da imprensa. Ele não quer ser o centro das atenções. Só quer saber das suas tarefas e cumprir seu papel”.

A estreia pelos Three Lions não deve demorar

Tanta estrela não passou despercebida aos olhos do treinador da seleção inglesa, Gareth Southgate, mesmo às vésperas da Copa do Mundo. Ryan já representou o país nos escalões sub-16, 17, 19 e 21, mas ainda não chegou ao time principal. Segundo os ingleses do Daily Express, é esperado que o jogador ganhe seu primeiro chamado após o Mundial.

A calma com o futuro internacional do jogador se deve em parte à enorme expectativa que o ronda. Não é difícil fazer uma busca no Twitter e perceber a quantidade de torcedores ingleses que ansiava vê-lo com a camisa dos Three Lions já na Rússia.

Foto: theFA.com

Mas tudo acontecerá no seu tempo, garantiu o técnico do time sub-21, Andy Boothroyd, à mesma reportagem. Aliás, o treinador acredita que 2018/19 será um ano interessantíssimo para o jogador, em sua chegada à Premier League: “Será muito interessante agora que ele é um homem marcado, os melhores jogadores passaram por isso e superaram. Ele também conseguirá, porque é um grande talento”.

Olho gordo dos gigantes

Quem também têm deixado o jogador debaixo de seus olhos são os gigantes da Premier League. As notícias mais recentes dão conta de interesses de Tottenham e Liverpool, mas é o Manchester United que estaria disposto a desembolsar £50 milhões por seus serviços. O contrato dele com o Fulham tem vigência até o final da temporada 2019/20. Todavia, o clube londrino detém a prioridade para renová-lo por mais dois anos.

No caso dos Red Devils a necessidade de um jogador para atuar na lateral-esquerda é antiga, tendo o improvisado Ashley Young terminado  o último campeonato com a titularidade. Já o Tottenham pode perder Danny Rose na janela de transferências do verão europeu e estaria pensando em Sessegnon como recomposição. O Liverpool, por outro lado, não tem tido problemas pelo setor, onde atua Andrew Robertson, que se firmou no curso da última temporada. Ainda assim, seu reserva, o espanhol Alberto Moreno, nunca apresentou futebol confiável no estádio Anfield Road e pode sair também.

Pode até ser que Sessegnon fique mais um tempo no Fulham, mas a tendência atual indica que não deverá tardar muito uma transferência para uma equipe econômica e historicamente mais poderosa. Embora seja uma novidade de 18 anos, Ryan já mostrou grande nível durante duas temporadas. Qual será seu limite?

Olho Nele!

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho), 25 anos. Admito minha preferência pelo futebol bretão, mas aprecio o esférico rolado qualquer terra. Desde a infância, tenho no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; o melhor jogador que vi jogar foi o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Estou também no O Futebólogo e na Revista Relvado.