Moscou ou Maracanã? Como as padronizações tornaram os estádios de copa iguais

  • por Lucas Sartorelli
  • 3 Meses atrás

Embora as sedes mudem de quatro em quatro anos, um conjunto de particularidades marcam os mundiais em geral: gramados impecáveis, jogadores consagrados, grandes públicos e animadas festas.

No entanto, nas últimas copas, mesmo os jogos em diferentes países e dos mais variados continentes vêm apresentando semelhanças visuais demais, causando certa estranheza, pelo menos a quem se atenta a certos detalhes e que acompanha pela TV, a maior parte do público.

Para o telespectador mais frequente que cresceu acompanhando o esporte mais popular do mundo em um período de mais de 15 anos atrás, e acostumou a se atentar às peculiaridades de cada palco, identificar o local do jogo e diferenciar as edições dos torneios se tornou uma tarefa um pouco mais difícil de um tempo para cá, especialmente com a implementação das novas e modernas arenas.

Externamente, os estádios estão visualmente cada vez mais arrojados, apostando em arquiteturas inovadoras. Já do ponto de vista das câmeras, as cores, as arquibancadas, os anúncios, o design, o formato das redes e outros elementos que contribuíam diretamente para o aspecto próprio de um estádio ou de uma competição, dando personalidade ao que se via, se tornaram irritantemente iguais.

Arena Mordovia, na russa Saransk e estádio Mané Garrincha: mais de 11 mil quilômetros separam os dois estádios. Ambos sedes de copa do mundo. Apesar das distâncias, qualquer semelhança não terá sido mera coincidência.

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Mordovia e Mané Garrincha agora vistos do lado de fora. Expressiva diferença.

Processo que começou a se iniciar a partir de 2006, período em que a Fifa passou a determinar com mais rigidez como deveria ser cada local de disputa das partidas. A entidade máxima do futebol mundial construiu uma cartilha para uniformizar e orientar as construções e reformas dos estádios para competições das simples às mais complexas.

As redes

A Copa de 1994 foi fortemente marcada por jogos com um visual notável em vários aspectos. Um desses grandes elementos sem dúvida foi o formato das redes dos gols, detalhe não muito perceptível pela maioria, mas que no caso do mundial nos Estados Unidos, fez toda a diferença. A construção única da baliza e o efeito que era a bola estufando o barbante, até hoje é capaz de despertar a lembrança de quem acompanhou, na época ou via Youtube, fenômeno que tende a não se repetir com a mesmice do gol padrão “caixa” retangular imposto pela Fifa.

Em sequência, imagens do formato dos gols das copas de 1954, 1990 e 1994. Entre traves, suportes, tamanhos e configurações de redes, as diferenças dos detalhes que ajudaram a marcar os mundiais.

O entorno do campo

Talvez o setor onde o número de semelhanças é o mais variado, das cores das instalações aos acessos. Acabaram-se os espaços gigantes atrás dos gols e nas laterais. É plenamente possível ao telespectador assistir o jogo e parte da torcida ao mesmo tempo. As arquibancadas, aliás, estão sempre ligadas ao campo por meio de escadinhas. Umas menores, outras maiores, elas estão sempre ali, religiosamente cercadas por fiscais que patrulham constantemente cada movimento do agrupamento de torcida mais próximo.

Torcidas apaixonadas que imprimem as cores de suas bandeiras, mas que estão sempre em contraste com um certo tom de azul, presente em 100% das partidas nos painéis e muretas que cercam o campo e que a Fifa parece querer emplacar já há muito tempo.

Arena Spartak, em Moscou-RUS (acima) e Maracanã. As escadinhas, os painéis azuis, a distância das arquibancadas pro campo, o ângulo da TV e até o desenho do gramado: as cores dos uniformes acusam que se trata de jogos diferentes.

Os ângulos de visualização do campo pelas câmeras de TV também aderiram a um modelo único. Nem muito próximo, nem muito longe. Lembra do cinegrafista do estádio do Mangueirão, em Belém-PA, que parece estar sempre localizado em cima do telhado que cobre a arquibancada, não muito indicado a quem tem medo de altura? Nem pensar. E nem sonhe em perguntar sobre a tela da TV tremer no momento de um gol.

Calma, nem tudo são críticas

Parece inegável que o jogo evoluiu em diversos aspectos. Com a padronização das medidas dos campos e com o gramado da qualidade que a Fifa exige, o jogo ficou mais corrido e dinâmico. A iluminação, bem como a tecnologia das inúmeras câmeras atuantes em uma partida dão o suporte mais do que necessário para um aumento considerável da qualidade das transmissões do espetáculo, além do conforto do usuário que está no local, o que é essencial.

Entretanto, é possível manter tudo isso sem tirar o charme próprio de cada estádio.

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Paulistano, projeto de jornalista e absolutamente ligado a tudo o que envolve essa arte chamada futebol, desde a elegante final de uma Copa do Mundo às peculiaridades alternativas das divisões mais obscuras de nosso amado esporte bretão. Frequentador assíduo nas melhores (e piores) várzeas e peladas de fim de semana, sempre à disposição para atuar em qualquer posição.