Erik ten Hag e seu Ajax que joga sem medo

A chegada de Erik ten Hag parece ter marcado uma espécie de renascença do gigante holandês. Seu Ajax perfila um dos mais promissores elencos de jovens no futebol europeu atualmente. Além de fazer jus ao DNA tipicamente godenzonen de jogar um futebol baseado no desejo de atacar e controlar a posse de bola no campo adversário; adicione a isso uma pitada de jogo de posição e  outras influências – diretas ou não – de Pep Guardiola (pressão alta no campo adversário, fluidez tática e uso posicional do volante) e temos uma belíssima receita para o sucesso.

Classificar-se num grupo composto por Bayern e Benfica não foi tarefa das mais simples, mas eles conseguiram e sem perder uma partida sequer. A elogiável campanha na Liga dos Campeões ajuda muito a dar contexto e medir com maior precisão a qualidade do trabalho feito até aqui. Apesar da Eredivisie ser um eterno celeiro de talentos e berço do futebol ofensivo, a Liga ainda permanece algumas prateleiras abaixo do topo do futebol mundial. O próximo teste será duríssimo contra o perigoso Real Madrid. Antes de destrinchar a respeito deste Ajax que vem encantando, deixo um bonus code rivalo àqueles que, inspirados após ler a matéria, quiserem apostar contra ou a favor do sucesso dos comandados por Erik ten Hag.

Quem é Erik ten Hag?

 

Visualizar esta foto no Instagram.

 

Look who’s there ? ?? Christian Poulsen! Best match in his career was #Ajax ? ______✍️

Uma publicação compartilhada por AFC Ajax (@afcajax) em

Um ex-zagueiro viril e de poucos recursos técnicos, nascido em 1970, cuja carreira enquanto jogador profissional não passou de clubes médios da Eredivisie (FC Twente, FC Utrecht entre outros). Após pendurar as chuteiras pelo Twente, galgou várias posições nas categorias de base do clube. Depois passou pelo PSV, como treinador auxiliar, até assumir pela primeira vez o comando de uma equipe profissional no Go Ahead Eagles. Após ter guiado os Eagles até o sexto lugar na segunda divisão holandesa, ten Hag transferiu-se para comandar o FC Bayern II. Durante sua passagem de quase 02 anos pelo futebol alemão, o treinador teve a oportunidade de trabalhar de perto com ninguém menos que Pep Guardiola. Muitos setores da imprensa afirmam que o holandês deve muito de seu estilo de jogo propositivo não apenas à cultura ofensiva de seu país, mas também ao seu aprendizado sob orientação do multicampeão catalão.

Após deixar o Bayern, aceitou o desafio de treinar o FC Utrecht, sua primeira passagem pela Eredivisie como treinador, e fez bonito: alcançou a 5ª e 4ª colocações em suas duas temporadas completas pelo clube. Em dezembro de 2017, deixava o Utrecht para galgar mais um degrau em sua promissora trajetória. Era chegada a hora de se testar à frente do gigante Amsterdamsche Football Club Ajax. E, até aqui, Erik ten Hag tem se destacado com louvor

Filosofia e estilo de jogo

Como bom holandês e “discípulo” de Guardiola, ten Hag não poderia deixar de ser um criativo adepto do jogo de posição. Dependendo da fase do jogo, seus  jogadores possuem tarefas e responsabilidades específicas a serem desempenhadas. Tudo predeterminado pela posição da bola. O time precisa de fluidez, pois há mudanças orientadas pela bola o tempo todo, quando em posse da mesma. A posse de bola é uma ferramenta para construção de jogo e desestabilização do adversário, não uma finalidade em si mesma.

Com ênfase em posse de bola, pressão logo após a perda da posse e movimentação entre as linhas adversárias, suas ideias e estilo de jogo o credenciam como um dos mais promissores treinadores de sua geração. Desde seus tempos de Utrecht, ten Hag tem mostrado criatividade e arrojo na hora de utilizar seus jogadores. O treinador não tem medo de mudar a posição de seus atletas de acordo com as qualidades técnicas que os mesmos apresentam. Um exemplo foi o deslocamento de Willem Janssen do meio-campo para a zaga. O atual capitão do Utrecht havia disputado 168 partidas na faixa central do campo, boa parte delas exercendo função de camisa 10, até ten Hag reposicioná-lo como zagueiro.

Escalação e movimentos

O Ajax costuma partir de um 4-3-3, sempre visando construir o jogo desde trás.

Esta tem sido a escalação-base mais repetida por ten Had na atual temporada. Apesar da alta rotatividade que o treinador imprime em seu elenco, estes foram os jogadores que mais participaram até aqui na Eredivisie e Liga dos Campeões. Média etária: 24 anos (aproximadamente)

A forma de construção varia de acordo com a pressão exercida pelo adversário, dependendo sempre da movimentação e qualidade do talentoso Frenkie de Jong:

  • Se o adversário pressionar alto, de Jong recua e se alinha aos zagueiros, posicionando-se do lado esquerdo formando um trio com Blind e de Ligt. Em seguida, um dos outros meias (Lasse Schone ou Zakaria Labyad) se aproxima posicionando-se à frente da linha defensiva, aumentando as linhas de passe.

  • Se não houver pressão alta por parte do adversário, Frenkie aproxima-se dos zagueiros pelo meio, na posição clássica de volante, formando um triângulo. Além disso, o goleiro André Onana, formado nas categorias de base do Barcelona, também pode jogar com os pés, também aparecendo como opção na construção (mais uma influência de Guardiola, talvez).

Trio de ataque de respeito

No setor ofensivo, o Ajax dispõe de 05 opções para as três vagas. Dolberg e Huntelaar disputam o comando do ataque. O veterano holandês tem sido mais utilizado nas partidas da Champions League e oferece mais presença de área, sendo ponto focal dos cruzamentos e bolas em profundidade. Já o jovem dinamarquês oferece mais mobilidade e possibilidade de tabelas e infiltrações de outros jogadores na área adversária.

Nas pontas, David Neres, Dusan Tadic e Hakim Ziyech disputam as vagas pelos flancos. Os três são meias altamente criativos que também podem contribuir com gols. O brasileiro tem sido mais assistente do que goleador (já computou 10 passes para gols e marcou 04). Seus pontos fortes têm sido sua grande aceleração com a bola e dribles desconcertantes nos marcadores.

 

Tadic, jogando pelo flanco esquerdo, costuma recuar mais para fazer inversões de jogo para Neres ou Ziyech finalizarem. O camisa 10, eleito melhor jogador do Ajax no ano de 2018, vive fase espetacular: participou de 30 gols em 30 partidas disputadas (19 gols e 11 assistências).

 

Ziyech não fica muito atrás do sérvio, já participou de 22 gols em 25 partidas disputadas até aqui (12 gols e 10 assistências). É o típico ponta invertido: canhotinho habilidosíssimo que joga pela direita, entortando os adversários, servindo os companheiros e que dispõe de tremenda precisão em sua perna dominante.

 

 

Pressionar para defender voltar a atacar

Como não poderia ser diferente num time comandado por alguém que se diz influenciado por Guardiola, o time de ten Hag pressiona o time adversário onde for possível, assim que perde a posse da bola. O trio de atacantes foca em fechar as linhas de passe, enquanto os meias se adiantam no campo buscando o combate contra o portador da bola. Porém, esta pressão alta tem seu preço: o Ajax é bastante vulnerável a contra-ataques porque o time defende tão alto no campo, às vezes deixando apenas um zagueiro próximo à linha de meio-campo. Se o adversário consegue resistir à pressão inicial e transpõe o meio-campo, o time holandês certamente terá problemas; principalmente se os laterais não voltarem para recompor a linha defensiva, o que pode acontecer com frequência, pois eles sobem o tempo todo para dar amplitude aos ataques.

Será que a boa proposta será recompensada?

O Ajax não se classificava para uma fase mata-mata de Liga dos Campeões desde a temporada 2004/2005. Seguindo sua tradição histórica, os godenzonen aliam proposta ofensiva calcada em amplo uso de jovens (criados na base ou captados a baixo custo noutras ligas). Mas será isso suficiente para transformar o bom momento em troféus?

Leia mais: AFC Ajax, o gigante adormecido tem sua força na base

Na Eredivisie, o Ajax disputa – como praticamente todo ano – ponto a ponto o título com o PSV (até a publicação desta matéria ocupava a segunda colocação, dois pontos atrás dos líderes). Enquanto isso, no cenário continental, os comandados de ten Hag enfrentarão o – “mais que especialista em Liga dos Campeões” – Real Madrid (atual tricampeão consecutivo). Apesar do momento nada auspicioso dos merengues, que amargam uma indigesta quarta colocação em La Liga (08 pontos atrás do Barcelona), há de se convir que trata-se de uma tarefa difícil de enfrentar logo nas oitavas do torneio. Reconhecidamente, o Ajax chega como azarão nesta disputa. Porém, segundo palavras do jovem goleiro Onana, podemos esperar um grande duelo entre as equipes:

“Éramos jovens, mas esse jogo ajudou-nos a aprender [em referência à derrota contra o Manchester United, na final da Europa League 16/17]. Ainda somos jovens, mas somos mais experientes agora . Não nos importamos se jogamos no Real Madrid, no Bayern de Munique ou no Barcelona. Estamos preparados para ir de igual para igual com qualquer equipeEntão vamos ver quem ganha, mas vamos sair para colocar a pressão como sempre fazemos.

O Ajax vai jogar frente a frente com o Real Madrid.

Comentários

Botafoguense e apaixonado por Futebol.