Rei Alfonso XIII e os clubes espanhóis com nome Real

  • por Victor Mendes Xavier
  • 8 Meses atrás

Uma das curiosidades mais frequentes que muitos fãs de futebol espanhol têm está ligada ao motivo em específico de várias equipes do país levarem o nome de “Real”. Real Madrid, Real Bétis, Real Sociedad, etc, etc, etc. Até mesmo alguns clubes conhecidos levam o nome da realeza antes do chamado mais famoso: Real Espanyol, Real Valladolid e Real Sporting Gijón ou Real Zaragoza e Real Deportivo La Coruña, por exemplo. A resposta mais simplista (e que não deixa de estar errada) está associada aos valores do sistema político ainda em vigor no país (mas que passou por uma série de transformações que serão explicadas ao longo do texto), influenciando logicamente no esporte: a monarquia, que atualmente é constitucional; ou seja, o Rei é o Chefe de Estado, mas com uma limitação dos poderes, definido pela constituição. Mas da onde, basicamente, surgiu a onda de “Real” e o escudo com a coroa? Como tudo começou? Para isso, uma volta no tempo é necessária, claro.

Foto: Reprodução – Museu Nacional de Arte da Catalunha | O Rei Alfonso XIII, bisavô de Felipe VI, atual Rei da Espanha: fã de futebol e presidente de honra de muitos clubes no início do século XX

Agora, estamos nos princípios do século XX. O local é a Galícia (atenção para a importância, por ironia do destino, do Deportivo La Coruña). O Rei da Espanha atende por Alfonso XIII, bisavô de Felipe VI, o atual monarca. O reinado de Alfonso durou de 1886 a 1931; portanto, foi um período da fundação da grande maioria dos clubes espanhóis. Até pelo simbolismo envolvente, muitos presidentes, após registrarem as instituições, passaram a se esforçarem ao máximo para incorporarem o título da nobreza aos clubes, sabendo da simpatia que o nobre nutria pelo esporte. O pontapé inicial foi dado pelo Club Deportivo de la Sala Calvet, em 1906, que não tardou tanto a ganhar o nome de Deportivo de La Coruña.

Porém, para conseguir ganhar o “Real”, era necessário solicitar a Casa Real, conseguir o aval do Rei e seguir uma série de trâmites burocráticos. Então, para driblar a pesada burocracia que poderia demorar meses e meses, a diretoria do Depor teve a ideia de convidar Alfonso XIII para ser o Presidente de Honra. Foi feito um pedido formal através do deputado Gabino Bugallal y Araújo e aceito quatro meses depois. Três anos depois do seu nascimento, o Deportivo teve concedido pela Casa Real o título de Real, ganhando o nome definitivo de Real Club Deportivo de La Coruña, o “primeiro Real” do futebol espanhol.

Um ano depois, em 1910, o Rei Alfonso adicionou ao currículo mais uma presidência de honra: da Sociedad De Football de San Sebastián, existente desde 1904, mas que por variadas desavenças entre seus fundadores só foi ganhar um caráter futebolístico real (sem trocadilho) e independente quando o Rei concedeu o título de Real à entidade (entre 1904 e 1910 o time também foi chamado de Club Ciclista de San Sebastián, que foi o campeão da Copa do Rei de 1909). Daí, em fevereiro daquele ano, veio o batismo do que hoje conhecemos como Real Sociedad, ou simplesmente “La Real”, para os torcedores. E isso só foi possível porque San Sebastian era uma cidade cujo a Família Real nutria uma carinho especial? Não à toa, era local de viagens frequentes nas “férias”. A partir daí, uma chuva de ‘Real’ se espalhou pelo território espanhol. Só em 1920 que o Madrid Club de Fútbol ganhou a coroa no escudo e tornou-se Real Madrid Club de Fútbol.

Foto: Site Oficial da UEFA | Campeão espanhol em 1999/2000, o Real Deportivo La Coruña foi a primeira entidade a receber o título de nobreza e a coroa no escudo

De 1931 (com a proclamação da segunda república da Espanha) a 1936, o novo regime republicano entendia que não poderia haver qualquer ligação ou apologia em determinados aspectos da sociedade com a monarquia. Por isso, o título de “Real” sumiu dos nomes dos clubes e dos seus escudos. Como exemplo, o Real Madrid voltou a ser denominado de Madrid CF e a Real Sociedad, somente Donostia, que é como se fala em basco San Sebastian. Não por muito tempo. A vitória de Francisco Franco na Guerra Civil, que durou de 1936 a 1939, trouxe consigo a restauração do título da nobreza (ainda que não do sistema político), mas com um adendo: desde que os nomes dos clubes passassem por um processo de “espanholização”, assim como de todos os outros — o Athletic Bilbao, denominado dessa forma por ter sido fundado por britânicos, virou Atlético de Bilbao, à época.

Com a abertura política na Espanha, iniciada no fim da década de 70, todos os clubes que tiveram que forçadamente nacionalizar seus nomes recuperaram suas denominações clássicas, em um processo que, gradativamente, havia começado já nos anos 1950.

O curioso caso do Alfonso XIII FC

Foto: Reprodução | Real Sociedad Alfonso XIII, o clube com nome do Rei

Clube com nome do rei? Existiu. Não se sabe até que ponto por pura puxação de saco ou por interesse (ter uma boa relação com a Família Real era visto como positivo pela burguesia), mas em 1916, em Palma de Mallorca, nas Ilhas Baleares, foi fundado a Sociedad Deportiva Alfonso XIII. Mais: o time de base levava o nome de Victoria Eugenia, a mulher do Rei. Como agradecimento, o monarca não pensou nem duas vezes em conceder o título de Real aos baleares (ó, que surpresa). Só em 1931, com a queda da Monarquia supracitada, a instituição passa a se chamar Club Deportivo Mallorca. Em 1949 é batizado pela primeira vez como Real Club Deportivo Mallorca, o famoso Mallorca que conhecemos, time que fez sucesso entre meados dos anos 1990 e início dos anos 2000, e foi a casa de jogadores como Ibagaza, Pandiani e Samuel Eto’o, o mais famoso.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.