Do quase colapso ao sonho da Liga dos Campeões: a reestruturação do Alavés

  • por Victor Mendes Xavier
  • 3 Meses atrás

A volta por cima dos Babazorros, que brigam por vaga na Competição Europeia

A 10 rodadas do fim do Campeonato Espanhol, a briga pelo quarto lugar se acirra a cada final de semana, com a surpresa Alavés entre os candidatos. Considerando a queda de produção do Sevilla (sexto colocado, 43 pontos) desde a virada do ano, o que levou inclusive a demissão do técnico Pablo Machín, tudo leva a crer que a disputa irá durar até o final. Até mesmo o Valencia, de péssimo primeiro turno, ressuscitou, embalou e já está a seis pontos do G4, na sétima colocação.

Outro time que não engrena é o Bétis (oitavo colocado, 39 pontos), e aí são dois pequenos que se destacam e mantém vivos o sonho de alcançar a Liga dos Campeões: o Getafe, atual quarto colocado com 46 pontos, e o Alavés, quinto com 44. Caso terminem empatados em pontos, o Getafe leva vantagem no critério de desempate, o confronto direto. Ambos se encontraram há dois meses, na abertura do segundo turno. Em Madrid, o Getafe, mesmo não tendo um estilo que se caracteriza pela força ofensiva, passou por cima: um inapelável 4×0, com dois gols cada de Jaime Mata e Jorge Molina. Em novembro, no País Basco, empataram por 1×1.

Imagem: Site oficial – Jogadores comemoram um dos 3 gols diante da vitória por 1×3 contra o Huesca.

Coincidentemente, os dois times estavam pouco tempo atrás na segunda divisão da Espanha. O Getafe caiu em 2016 e imediatamente voltou, em 2017 — ainda que com muita emoção, tendo que passar pelos playoffs e vencer o Tenerife no jogo final. O Alavés não teve a mesma sorte. O Babazorro (apelido histórico, pela forte produção de feijão na região — baba significa feijão em basco) ficou 10 anos perambulando pelas divisões inferiores, até retornar em 2016. Nesse meio tempo, o clube passou por uma grave crise financeira e por pouco não encerrou suas atividades. As tranquilas campanhas que vem fazendo desde o retorno contrasta com o período mais crítico que passou. É por isso o Alavés talvez seja a grande e mais exaltada surpresa do futebol espanhol. Voltemos ao tempo.

As raízes do Alavés

A cidade de Vitória, capital de Álava, uma das três províncias que formam o País Basco ao lado de Vizcacaya (onde fica o Athletic Bilbao) e Guipúzcoa (Real Sociedad), sempre foi mais associada pela famosa “Batalha de Vitória” durante a Guerra da Independência da Espanha, quando as tropas Aliadas formadas por britânicos, portugueses e espanhóis derrotaram os franceses, culminando na fuga do exército de Napoleão Bonaparte, em 1814. O centro da cidade é repleto de monumentos que exaltam esse momento, um dos mais importantes do século XIX. Vitória também foi um dos berços da Revolução Industrial ainda na sua fase inicial. Até hoje é reconhecidamente um ponto estratégico na ótica militar e sob o ponto de vista comercial e cultural. Futebol? Segundo plano — ou nem isso.

Só na virada para o século XXI que o esporte começou a pegar com mais força os habitantes. Em 1999/2000, o Alavés fez sua melhor campanha na história e terminou na sexta colocação, garantindo uma vaga na Copa da Uefa. O elenco contava com jogadores de qualidade, como Iván Alonso, Javi Moreno e o sérvio Tomic. Foi justamente em sua primeira participação em uma competição europeia que os Albiazules ganharam notoriedade.

Destaque na Europa

Muitos devem se lembrar daquela maluca final contra o Liverpool, em Dortmund, vencida pelos Reds por 5×4. Mas o Alavés já vinha fazendo uma campanha de força. Nas oitavas-de-final despachou a Inter de Recoba e Vieri vencendo em Milão por 2×0 após o empate no Mendizorrotza por 3×3. Aliás, um dos gols do Alavés nessa eliminatória foi marcado por Jordi Cruyff, um dos destaques daquela Copa da Uefa e filho do mítico Johan. Nas quartas e nas semis foram quatro vitórias, todas com tranquilidade: 3×0 e 2×1 contra o Rayo Vallecano; 5×1 e 4×1 diante do Kairserslautern.

Por fim, havia a sensação de respeito por parte do Liverpool para a decisão. o time ingles estava ciente das capacidade de seu adversário. Não à toa foi devido a um gol contra na prorrogação, marcado pelo lateral-direito Geli, que os ingleses levantaram a taça no Signal Iduna Park. Ao final do ano, a Uefa premiou a torcida do Alavés com a simbólica premiação de “Melhor da Europa”.

Imagem: REUTERS/Desmond Boylan – Ivan Alonso, ao centro, com Cosmin Contra à direita e Oscar Tellez, à esquerda, na final da Copa da UEFA (Atual Liga Europa) de 2001.

Não somente no cenário internacional que o Alavés chamou a atenção na primeira metade dos anos 2000. Em 2003/04 foi semifinalista da Copa do Rei, eliminando o Barcelona nas quartas-de-final. Voltou à Copa da Uefa no ano seguinte, mas sem o êxito de 2001. Deixou o torneio na segunda fase, eliminado pelo Besiktas. Em 2006 começou o calvário. Em janeiro, Gonzalo Antón, que era presidente do clube desde 1998, vendeu 51% das ações do Alavés ao empresário ucraniano Dmitry Piterman. Piterman era um velho conhecido do mundo empresarial-esportivo da Europa. Em 2003, ele tinha adquirido 24% das ações do Racing Santander. A obsessão do ucraniano era ser treinador, o que causou polêmica à época, visto que ele não tinha licença para exercer tal função, mas mesmo assim era quem decidia a escalação da equipe. Mais de uma vez a Federação Espanhola de Futebol o julgou pelo fato dele ocupar a área técnica dos jogos do Racing.

Maus momentos para o Alavés

No Alavés, Piterman afundou e se envolveu em mais problemas. Logo na primeira temporada, o time chegou a ter três treinadores. O último, Juan Carlos Oliva, foi surpreendentemente demitido por se negar a seguir as ordens do empresário, que seguia querendo influenciar em esquemas táticos e decisões que envolviam o futebol. Oliva vinha de uma sequência de cinco vitórias consecutivas. Para a imprensa, o ucraniano, que anos depois ganhou o passaporte norte-americano, falou em “insubordinação” do treinador. Totalmente fora da casinha.

Toda esta situação culminou no rebaixamento da equipe ao final de 2005/06. A relação com os sócios começava a ficar ruim, e os protestos no estádio aumentavam a cada partida. Não bastasse esses obstáculos, Dmitry Piterman ainda foi considerado “persona non grata” em Vitória pelo presidente da Secretaria de Cultura e Esportes, Encina Serrano. Para se ter uma noção, em um ano de gestão, a dívida da instituição triplicou, chegando a quase 24 milhões de euros.

O início da virada

Pouco antes de Dimitri abandonar o clube, em agosto de 2007, o diretor de finanças Andoni Echevarria, em uma reunião com outros acionistas, deixou claro sua preocupação com a delicada parte financeira, a ponto de colocar em xeque a existência do Alavés: um rebaixamento para a terceira divisão seria tão insustentável que a probabilidade do clube acabar era alta. Àquela altura, o Alavés, na segundona, estava somente a seis pontos da zona de rebaixamento. Conseguiu se salvar, mas as dificuldades continuaram e virou até caso de justiça. Mesmo. Para evitar a quebra e o posterior desaparecimento, Fernando Ortiz de Zárate, presidente provisório após a saída de Piterman, utilizou a Lei Concursal da Espanha para proteger a entidade. Foram anos de uma austeridade pesada, pagamentos frequentes de dívidas, perda de jogadores importantes e, claro, a queda para a Segunda B, a terceira divisão. Ficou lá de 2009 até 2013.

Imagem: divulgação – O belo estádio Mendizorrotza, a casa do Alavés.

O futebol agonizou e a auto-estima dos torcedores praticamente acabou, mas foi nesse intervalo que o clube, primeiro com Zárate, depois com Alfredo Ruiz de Gauna e, por último, com Avelino Fernandez de Quincoces, passou por um brutal processo de reestruturação. A “herança” dos tempos de bonanças irresponsáveis de Piterman ainda assombrava o entorno de Mendizorrotza. No verão de 2012, a Union Soccer League (USL) notificou o Alavés pelo pagamento de uma dívida de 130 mil euros acumulada por Piterman em referência à última parcela da compra do California Victory, franquia que o ucraniano havia adquirido em 2006. Um golpe para a ordem de economia total. Uma tentativa de empréstimo com um grupo de investidores foi negada, o que, mais uma vez, colocou em risco a existência do clube.

Alavés busca de sucesso

No campo esportivo ter voltado à segunda divisão em 2013 foi um alívio para a parte econômica. E o fez com louvor, levantando a taça da Segunda B após vencer o Tenerife nas Ilhas Canárias. Então, em julho de 2015, a melhor notícia dos últimos anos: o Alavés deixava o Concurso de Credores, em momento comemorado pela diretoria. Com as dívidas em dia, o passo seguinte foi montar um time minimamente competitivo para disputar La Liga 123 e voltar à elite do futebol do país.

O ambicioso desejo não tardou a ser concretizado. Com José Bordalás no comando técnico, o Alavés completou uma campanha verdadeiramente histórica em 2015/2016, somando 80 pontos e sendo campeão. A duas rodadas do fim, venceu o Numancia em casa e sacramentou a volta à La Liga. Momento de uma emoção contagiante no Mendizorrotza. Quis o destino que exatamente dez temporadas depois de ser rebaixado, naquele que foi o início de um longo pesadelo, o Alavés retornasse à primeirona e sentenciasse a recuperação institucional.

Além da grande temporada que faz, desde o retorno o Alavés já bateu Barcelona (no Camp Nou) e Real Madrid e alcançou a final da Copa do Rei. Quique Setién, treinador do Bétis, qualificou como “fantástico” o trabalho de Abelardo Fernandez à frente da equipe neste ano. Do inferno ao céu o Alavés sobreviveu. E agora quer aproveitar. Liga dos Campeões? Nada é impossível mais para esse clube.

Site oficial do clube: https: deportivoalaves.com

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.