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Os seus pontas não gostam dele: Wan-Bissaka

Wan-Bissaka aplaude seu torcedor

A segunda metade dos anos 1970 confirmou uma nova tendência do rock. Depois da ascensão de grupos musicais que abusaram de experiências instrumentais ousadas e inovadoras, e escreveram letras profundas e elaboradas, um estilo muito menos refinado surgiu. Menos refinado e barulhento. Com letras viscerais, poucos e rápidos acordes, o punk ganhou espaço na cena do rock. Um dos grandes expoentes foi o The Clash, que, semana após semana, é lembrado em Selhurst Park, a casa do Crystal Palace. É ao ritmo de Rock the Casbah, que a torcida das Águias homenageia o lateral Aaron Wan-Bissaka.

Wan Bissaka Crystal Palace

Foto: Reprodução/Crystal Palace

Orgulho do Sul de Londres

Ainda que não estivesse se destacando pelo que faz dentro dos campos, haveria motivos para o torcedor do Palace nutrir carinho por Wan-Bissaka. O inglês, de origem congolesa, cresceu em Croydon, ao sul de Londres — aproximadamente três quilômetros apenas o separando do estádio Selhurst Park. Além disso, seu talento foi notado pela equipe quando tinha apenas 11 anos, tendo passado metade de sua vida no clube.

Poucas coisas geram mais orgulho ao dedicado fã do esporte bretão do que ver um prata da casa se destacar. É isso o que o lateral direito representa: uma relação de verdadeira adoração e o sentimento de se ver representado por um dos seus. Pouco importa que, enquanto criança, o jogador fosse torcedor confesso do Arsenal. Foi isso o que transpareceu reportagem do Guardian, publicada em fevereiro último:

“Nos dias de hoje, as crianças [de New Addington, Croydon] tendem a notar seu carro nas visitas ao lar [de seus pais], antes de acampar do lado de fora, revezando-se para tocar a campainha e pedir um autógrafo”.

Wan-Bissaka training

Foto: Reprodução/ Crystal Palace

E não é como se tudo tivesse sido fácil. O jogador, que no início de sua carreira e durante toda a passagem pelas categorias de base do Palace atuava como ponta, esteve perto de ser dispensado aos 14 anos. Mas ficou, persistiu e acabou ganhando oportunidades e se firmando.

A mudança de sua vida

Seu apelido, Spider, diz muito do que Wan-Bissaka vem mostrando na Premier League. O jogador é um dos maiores ladrões de bola do futebol mundial, um talento que, segundo ele, não sabe de onde veio: “Não faço ideia de onde veio isso, e também fico confuso quando vejo as estatísticas. Eu nunca fiz um desarme em Walton Green. Eu estava muito ocupado dando dribles e simplesmente não gostava de defender”.

Wan-Bissaka prize

Foto: Reprodução/ Crystal Palace

É curioso notar tal realidade, sobretudo porque o jogador não recebeu bem a mudança para a lateral direita. No entanto, o movimento foi inevitável.

“[A mudança] Foi sempre algo que pensávamos sobre Aaron, porque ele era muito disciplinado defensivamente. Eu o treinei, inicialmente, no time Sub-16, e, depois, novamente no Sub-23 e ele tinha uma mentalidade defensiva. Ele também tinha aquelas longas pernas e fazia boas corridas de recuperação, então a habilidade para fazer a mudança estava lá”, disse seu antigo treinador, Richard Shaw, ao SkySports.

Desde o primeiro treino com os profissionais, em que anulou o habilidoso Wilfried Zaha, estava claro que ele desempenharia um papel melhor mais recuado. E, embora não tenha treinado desarmes, tem um trunfo: “Como um ex-ponta, você tem o senso do que eles estão tentando fazer, o caminho que podem seguir, como estão pensando”.

Números confirmam o grande momento de Wan-Bissaka

Apesar de relatar dificuldades com determinados marcados, sobretudo Eden Hazard, o fato é que o lateral vem parando uma série de jogadores fantásticos, jogo após jogo. Já em sua estreia como profissional, em fevereiro de 2018, o lateral foi brutal. O encontro foi contra o Tottenham, e a derrota inevitável. Porém, o garoto, então com 20 anos, registrou assustadores sete desarmes bem-sucedidos de oito tentados.

 

Aliás, foi um infeliz acaso que ocasionou sua estreia: lesões concomitantes de Joel Ward e Martin Kelly.

Na Premier League 2018-19, tem uma média de 3,8 desarmes certos por encontro. Em números absolutos, só fica atrás dos volantes Gana Gueye, do Everton, e Wilfred Ndidi, do Leicester City, com 115. Ele também tem média de 2,2 interceptações por jogo, além de um total de 65 (que o torna o oitavo mais efetivo no fundamento). As virtudes físicas, sobretudo a enorme velocidade, são trunfo importante para o jogador.

Boa relação com o torcedor e futuro

O grande momento do atleta provocou uma reação divertida e elogiosa do torcedor do Crystal Palace. “Your wingers don’t like him… Wan Bissaka! Wan Bissaka!” (“Os seus pontas não gostam dele… Wan Bissaka! Wan Bissaka!”, em tradução livre) é um som que se ouve, com frequência, nas arquibancadas de Selhurst Park. Como referido, o ritmo é o de Rock the Casbah, do The Clash.

Wan Bissaka England

Foto: Reprodução/ Crystal Palace

Não demorou nada para o inglês ganhar um lugar especial no coração de seus fãs. Entretanto, nem tudo tem sido fácil para o jogador. No futuro próximo, terá de se decidir entre representar a Inglaterra ou o Congo — na base, chegou a defender ambos e atualmente integra a Seleção Inglesa Sub-21. Gareth Southgate, treinador dos Three Lions, elogiou Wan-Bissaka, mas já garantiu que não o convocará apenas para evitar um chamado ao Congo:

“Não estou preparado para escolher jogadores apenas para impedir que outros países os convoquem. Aaron Wan-Bissaka está jogando muito bem, e ele está realmente caminhando para estar no elenco — não há dúvidas. Eu poderia escolher jogadores, dar uma internacionalização, e impedir que jogassem em outro lugar, mas não penso que isso seja certo”, falou o comandante em coletiva durante a última Data Fifa, em março de 2019.

 

Outra questão que deve permear o íntimo do lateral é seu futuro em clubes. Diante de seu ótimo desempenho, o assédio de outras equipes será inevitável. Já se especula que Manchester United e Tottenham possam fazer uma proposta ao Crystal Palace, ao final da temporada. O valor rondaria em torno dos £35 milhões.

Questionado sobre isso, o treinador das Águias, Roy Hodgson, avisou: “Todo jogador tem um preço. Ter um contrato não significa seguir com os pés fincados aqui”.

Por ora, Wan-Bissaka é jogador do Palace. Trata-se de um símbolo do clube e um favorito do torcedor. É um jogador que gosta de atacar, mas, curiosamente, destaca-se mais pelos desarmes. Congolês ou inglês, é um dos laterais mais destacáveis no momento. E, caso seu time o enfrente, não se esqueça: seu ponta não vai gostar dele.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.