Aos 30, Parejo parece estar apenas começando

Já faz oito anos que o Valencia decidiu confiar a condução de seu meio-campo a uma figura especial. Criado no Real Madrid, Daniel Parejo é apenas mais um jogador de uma lista extensa de nomes que os Merengues formaram e pouco aproveitaram. Sorte dos valencianos, que se impressionaram com suas performances vestindo a camisa do Getafe e logo o contrataram, ainda aos 22 anos. Quase uma década depois, os seis milhões de euros pagos (além da cessão do goleiro Miguel Ángel Moyà) parecem uma verdadeira pechincha. Ele não para de melhorar.

O patrão dos Che

A temporada 2018-19 de Dani Parejo não é a mais goleadora de sua carreira. Tampouco é aquela em que mais ofereceu assistências. É, no entanto, a que tem tido mais influência. Nunca havia criado tantas ocasiões de gol. Em La Liga, disputados 34 jogos, são 78. O mais perto disso havia sido alcançado na campanha anterior: 70.

Dani Parejo Valencia

Foto: Reprodução/ La Liga

Capitão do Valencia desde a temporada 2014-15 (excetuado um breve período em que a faixa passou ao braço de Paco Alcácer), o jogador é o cérebro e o coração da equipe. No ano que se aproxima do final, é quem mais vezes entrou em campo pelo clube. Marcelino Toral, o treinador valenciano, o mandou ao campo 52 vezes. Tal realidade inclusive provocou uma brincadeira da torcida local — que tem fundo de verdade.

O perfil do atleta na Wikipedia foi alterado em fevereiro último. Um fã fez uma atualização inusitada: relatou a morte de Parejo. Segundo a página, o meia teria falecido em decorrência da “falta de descanso” e o assassino teria sido seu comandante, que, polemicamente, o escalou até mesmo em partida contra o Celtic. A ocasião foi uma eliminatória da Liga Europa em que os Che haviam vencido a ida, na Escócia, por 2 a 0.

Dani Parejo Valencia Betis

Foto: Reprodução/ La Liga

Isso é o que o jogador tem representado. É o líder do elenco, o porta-voz do treinador. Isso se reflete, visivelmente, no campo. Parejo é, com enorme vantagem para o segundo colocado, o atleta que mais toca a bola no Valencia. Até a 36ª rodada de La Liga, ofertara 2085 passes. O lateral esquerdo José Gayà, vice-líder, passou bem menos, 1374 vezes. Parejo é o 10 e o patrão. E não apenas porque enverga a braçadeira, mas pelo que representa e o futebol que entrega.

O prêmio foi uma convocação tardia

O meia representou a Seleção Espanhola nos escalões sub-19, 20 e 21 assiduamente. Entretanto, talvez por atuar em um momento em que a Fúria dispõe de grande número de atletas para o meio-campo, demorou a chegar ao time principal. A estreia aconteceu em 2018, no famoso amistoso contra a Argentina — uma vitória por 6 a 1 que dificilmente se repetirá algum dia.

Dani Parejo Espanha

Foto: Reprodução/ SEFutbol

Naquela data, substituiu Thiago Alcântara e teve pouco mais de oito minutos de jogo. Esse chamado não representou grande coisa na vida do atleta, já que não voltou a ser convocado por quase um ano. Porém, quando teve outra chance, viveu um dia dos mais especiais possíveis: atuando em sua casa, no estádio Mestalla, catedral do Valencia, foi titular.

O jogo contra a Noruega valeu pelas eliminatórias para a Euro 2020. Parejo dividiu meio-campo com Sergio Busquets e Dani Ceballos, em uma partida de amplo domínio hispânico. O placar magro, vitória por 2 a 1, não sugere o que foi o jogo. Naquela noite, o chefe do meio valenciano fez um ótimo jogo, que o credenciou a ter continuidade. Foi esse o tom da fala do treinador espanhol, Luis Enrique, após o jogo:

“Ele esteve muito bem. Perdeu um par de bolas no meio-campo, algo estranho, porque ele é gelado e aguenta muito bem a pressão. Porém, foi crescendo. Fez uma grande partida. E é inteligente, conhece todos os jogadores de todas as ligas, gosta de futebol e trabalha bem. Estou muito feliz que esteja conosco”.

Dani Parejo Espanha

Foto: Reprodução/ SEFutbol

A temporada do Valencia passa diretamente por Parejo

A campanha quase finda do Valencia, apesar de passar por alguma instabilidade, é boa, acima de tudo em 2019. O clube ainda busca um lugar entre os quatro primeiros de La Liga — o que garantiria vaga na próxima Liga dos Campeões. Na dura missão, tem Getafe e Sevilla como antagonistas. Internacionalmente, chegou às semifinais da Liga Europa, perdendo para o Arsenal.

 

Além de concentrar o jogo do time em si, sendo o grande construtor da equipe, Parejo é o cobrador oficial das bolas paradas e anotou gols em momentos decisivos para o time. Na temporada, marcou no clássico contra o Levante, nas importantes vitórias por 1 a 0 frente ao Getafe e o Sevilla, e contra Barcelona e Atlético de Madrid. Por oito vezes, foi escolhido o melhor em campo no Campeonato Espanhol. Apenas Lionel Messi, com 15, alcançou tal feito mais vezes.

Foi com muitos méritos que o jogador recebeu um novo contrato em fevereiro. Seu vínculo com o Valencia vai até o final da temporada 2021-22. “Essa é a minha casa e sempre foi. Quero ficar aqui por muito mais anos e ajudar a tornar a história do clube ainda maior. Há muito mais por vir”, disse ao firmar o documento.

Dani parejo 2022 Valencia

Foto: Reprodução/ Valencia CF

Tendo em vista a evolução que o jogador experimenta, ano após ano, não é difícil imaginar que essa seja mesmo uma realidade possível. Parejo se torna cada vez mais confiável e influente, dentro e fora do campo. É o tipo de capitão que todo treinador deseja e que o torcedor idealiza — alguém sempre presente, determinado e decisivo.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.