Marten De Roon, o Bulldog de Bergamo

Já não é tão surpreendente acompanhar o sucesso vivido pela Atalanta na Serie A italiana. Comandada por Gian Piero Gasperini desde 2016, a equipe bergamasca chega ao final da temporada mais uma vez em alta, alçando voos inéditos. Em toda a sua história, a esquadra nerazzurri nunca disputou a Liga dos Campeões, o que parece próximo de acontecer. Além disso, o time acaba de ser finalista  — vencido, é verdade — da Coppa Italia. Muito disso, deve-se a presença crucial de um jogador discreto, um volante, Marten de Roon.

De Roon: “A Atalanta me observou”

Apesar de ter passado boa parte de sua formação na famosa base do Feyenoord, o holandês Marten de Roon precisou rodar para alcançar reconhecimento. Lançado no futebol pelo rival local de Roterdã, o Sparta, destacou-se jogando a segunda divisão do país. Passaram-se duas temporadas completas até que ele viesse a atuar na elite holandesa. Ainda assim, quando o momento chegou, não foram os gigantes do Ajax, do PSV ou mesmo do Feyenoord que o procuraram. De Roon assinou com o Heerenveen.

Vestindo a camisa dos Superfriezen, seguiu sua evolução. Foram três anos positivos para o jogador. Em todas as temporadas, seu clube conseguiu se classificar para a fase de playoffs da Eredivisie, que oferece ao campeão uma vaga na Liga Europa. No entanto, o time nunca conseguiu o lugar. Para o jogador, tal período teve importância estrutural. De Roon cresceu como atleta e líder, eventualmente se tornando o capitão do time. Entretanto, reconheceu que precisava sair para alcançar outro patamar futebolístico.

Heerenveen Marten De Roon

Foto: Reprodução/Twitter @scHeerenveen

Então, a Atalanta entrou em sua vida e a proposta foi irrecusável. Não apenas por representar um upgrade em termos financeiros. Também porque os italianos haviam estudado, meticulosamente, o atleta que pretendiam contratar — isso sem falar no contrato de quatro anos, que significou um voto de confiança e tanto.

“Quatro ou cinco pessoas da Atalanta me viram trabalhar umas dez vezes. Eles foram capazes de me dizer exatamente como eu jogava. Eles realmente me observaram, entenderam que tipo de jogador eu sou […] Eu cheguei [ao Heerenveen] como um jogador vindo da segunda divisão e cresci como pessoa e líder. O Heerenveen permanece em meu coração, certamente voltarei algum dia”, disse ao site fcunited.nl.

Destaque imediato e passagem apagada pela Premier League

Marten chegou a uma Atalanta que precisava, desesperadamente, tomar um novo rumo, depois de terminar a temporada 2014-15 apenas uma posição acima da zona de rebaixamento. Ele desembarcou junto a uma leva grande de reforços, dentre os quais o brasileiro Rafael Tolói e o chileno Mauricio Pinilla. Naturalmente, assumiu a condição de titular desde o primeiro momento.

Em 2015-16, perdeu apenas duas rodadas do Campeonato Italiano: as duas por acúmulo de cartões amarelos. Ninguém fez tantos desarmes quanto ele na competição. Foram 121, contra 109 do vice na estatística, Allan. Além disso, apenas o zagueiro Francesco Acerbi interceptou mais bolas do que De Roon, com 132. Esse desempenho foi crucial para que a Atalanta terminasse o ano em 13º lugar, longe da zona de rebaixamento. Também acabou impulsionando o nome do holandês.

Middlesbrough De Roon

Foto: Reprodução/Middlesbrough

O sonho dourado de jogar na Premier League, um paraíso, tanto do ponto de vista de competição quanto em termos econômicos e de exposição, acabou se materializando. Quando o recém-promovido Middlesbrough abordou o volante, a única dúvida foi quanto o Boro pagaria para levar De Roon, cuja carreira seguia em rápida escalada. Foram £12 milhões. Para completar, no final de 2016, foi convocado pela primeira vez à Seleção Holandesa principal.

Apesar disso, a experiência inglesa acabou não sendo das melhores. O efeito ioiô se fez presente e os Smoggies logo voltaram à segundona. De Roon fez uma temporada razoável, sobretudo se pensada como a primeira em um contexto de competitividade mais acirrada. Ainda assim, jogar a Championship não parecia um cenário promissor e, ao mesmo tempo em que o Boro caía, a Atalanta fazia a melhor campanha de sua história na Serie A.

Volta para casa e reafirmação

Com o quarto lugar no Campeonato Italiano, os Nerazzurri foram a sensação da temporada. Logo em sua primeira campanha na Atalanta, o treinador Gian Piero Gasperini conduziu os bergamascos ao improvável. Não foi difícil imaginar o desfecho do final do ano: uma saída em massa aconteceu. Jogadores como Andrea Conti, Roberto Gagliardini e Franck Kessie deixaram o estádio Atleti Azzurri d’Italia.

Com os cofres cheios, o time apostou no caminho mais fácil: trouxe de volta um velho conhecido, Marten de Roon. Ao custo de £13 milhões, o holandês retornou a Bergamo e recuperou seu posto de motor do time.

Atalanta Marten De Roon

Foto: Reprodução/Twitter @Atalanta_BC

“Durante meu ano fora da Atalanta, mantive contato com jogadores com o staff. Eles jogaram uma temporada incrível, a melhor da história. Foi louco o que eles alcançaram”, disse o volante em seu retorno.

Sua volta exigiu algum esforço de adaptação às ideias de Gasperini, o que explica o fato de sua forma ter sido relativamente inferior àquela demonstrada duas temporadas antes. Com uma Atalanta mais dominante, tendo sido a sexta equipe com mais posse de bola média na temporada italiana, destruir não era tão importante quanto em 2015-16, quando o time era apenas o 12º no mesmo ranking.

Ainda assim, o jogador foi crucial em mais uma temporada sólida da Dea. O sétimo lugar não foi tão bom, mas passou longe de ter sido uma tragédia, sobretudo diante da reconstrução forçada que o treinador teve de promover, com um atribulado mercado de transferências.

Números provam o que é evidente em campo

A marca especial da campanha de 2016-17, quando De Roon andou pela Inglaterra, pode estar perto de ser quebrada. A Atalanta está por um jogo de confirmar a terceiro colocação na Serie A, o que lhe renderia sua primeira vaga à Liga dos Campeões. Em uma campanha espetacular, os bergamascos puderam contar outra vez com um desempenho irrepreensível de De Roon, seu motor. Conhecido como o Bulldog de Bergamo, o jogador vive seu esplendor.

É o terceiro jogador com mais desarmes na liga italiana, 98, e o quarto meio-campista com mais interceptações, 52 — menos apenas do que Ismael Bennacer, Albin Ekdal e Lucas Leiva. Por outro lado, é o sexto jogador com mais passes completados de todo o torneio. Isso em um ano em que a Atalanta só tem tido menos posse do que Inter e Napoli. Ou seja: De Roon conseguiu se adaptar plenamente às exigências do jogo de Gasperini.

Atalanta De Roon

Foto: Reprodução/ @Atalanta_BC

Sobre seu estilo de jogo, falou ao TeessideLive, em setembro de 2016:

“A mudança aconteceu quando, na base, quebrei minha perna. Antes disso, eu era um jogador que, como posso dizer, evitava duelos e desarmes. Então, quebrei minha perna e pensei que teria de jogar um estilo diferente de jogo, caso contrário isso poderia acontecer novamente. Gosto de ir aos duelos”.

Sua missão é facilitada pela ótima forma exibida por seu companheiro de contenção, Remo Freuler, mas o fato é que ele retomou seu posto de pilar do time. Marten ajuda o time a recuperar a bola quando não a tem e a geri-la nos momentos de posse. Além disso, conseguiu até marcar seus golzinhos, três. Um deles foi especial. Saiu de seu pé direito o tirambaço que ajudou o time a empatar com a Fiorentina, 3 a 3, na partida de ida das semifinais da Coppa Italia.

 

Lá na frente, Alejandro Gómez, Josip Ilicic e Duvan Zapata vão empilhando gols e assistências. No entanto, isso só é possível em decorrência da manutenção de um sistema que lhes permite tal protagonismo. E, para seu funcionamento, a presença de De Roon tem sido crucial.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.