Nicolas Pépé: das luvas ao gols e o reconhecimento

A temporada 2018-19 do Lille foi impressionante. Sob o comando de Christophe Galtier, os Dogues passaram por cima da concorrência para assegurar um honroso segundo lugar na Ligue 1 (impondo, inclusive, um sonoro 5 a 1 ao campeão, PSG, na 32ª rodada). Embora a força coletiva da equipe tenha ficado sublinhada, pouca é a dúvida sobre o nome de maior destaque na campanha: Nicolas Pépé. Artilheiro e assistente máximo do clube, o franco-marfinense só não fez chover e passou a interessar todo o mundo.

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Aos 24 anos, Pépé está onde qualquer jogador gostaria de estar no contexto do futebol francês. Atrás apenas do astro Kylian Mbappé em participações diretas em gols no último campeonato nacional (com 22 tentos e 11 assistências), está no topo e é cortejado pelos maiores clubes da Europa — Liverpool, Manchester United, Bayern de Munique e Barcelona, no rol de interessados. No entanto, a caminhada não foi fácil.

Nicolas não teve uma infância miserável, em que pesem algumas privações. À revista francesa Onze Mondial, o jogador indicou isso: “Fui criado em uma família modesta […] mas eu sei que meus pais me criaram bem em um ambiente complicado. Eu tive uma boa infância, com uma família legal”. Nascido em Mantes, ao oeste de Paris, viveu os primeiros anos e parte da adolescência na capital, no hostil 19e arrondissement.

Nicolas Pepe Lille

Foto: losc.fr

Proibido pelo pai de ficar “zanzando” pelas ruas da cidade, viveu uma vida concentrada em duas coisas: escola e futebol. Ele atuava no FC Solitaires, em um competitivo ambiente parisiense. Talvez isso o tenha levado a um início de trajetória que poucos dos que o veem hoje poderiam imaginar: como goleiro. Apenas quando seu pai, um agente penitenciário, pediu transferência para a cidade de Poitiers, Pépé descobriu seu talento. Já não tinha tantos garotos talentosos ao seu redor, pedindo passagem rumo ao ataque.

“Tudo mudou quando meu pai pediu transferência para Poitiers […] Eu vi que tinha qualidades e que poderia me tornar um jogador profissional”. Apesar disso, a experiência como goleiro não foi em vão, como relataria ao site oficial da Ligue 1, oportunidade em que mencionou algumas inspirações: “Entendo os movimentos dos goleiros e isso me ajuda quando estou chutando. Eu assisti muitos vídeos de Ronaldinho, Robinho, de dribladores. Mas não tenho ídolos. Tive exemplos, caras como Messi […] não consigo fazer o que ele faz, mas tento copiá-lo”.

Atuando na quinta divisão nacional, seu nome passou a circular entre olheiros e clubes importantes do país, até que recebeu o contato do Angers.

Devagar e sempre, Pépé

Pépé chegou ao Angers sem nunca ter tido a experiência de categorias de base. “Antes de chegar ao Angers, não sabia nada de táticas. Lá, me mostraram como me posicionar com e sem a bola”, falou à Onze Mondial. Nesse sentido, o jogador destacou a presença de Abdel Bouhazama, que hoje trabalha no Saint-Étienne:

“Ele me treinou muito bem como jogador e, especialmente, como homem […] Nos fez entender que há pessoas que acordam cedo para trabalhar e alimentar suas famílias. Nós tínhamos a chance única de estar em um centro de treinamentos”, completou.

Após um período inicial dentre os profissionais do Angers, com oito partidas disputadas em 2014-15 (apenas 196 minutos), ficou claro que o garoto estava excessivamente verde para atuar no nível exigido pela Ligue 1, o desafio que o clube enfrentaria após obter um celebrado acesso. Enquanto o time marchava para a elite, Pépé descia às profundezas da terceira divisão, emprestado ao Orleans. “Não estava empolgado”, confessou. Mas o risco valeu a pena, com Pépé atuando consistentemente, destacando-se e merecendo um retorno na temporada seguinte.

Foto: @opta em twitter.com

De volta ao Angers, Nicolas assumiu a titularidade e protagonismo no modesto time. Ele perdera aquela que fora uma temporada de sonho para o clube, que por 22 rodadas permaneceu no top five da liga. No retorno, encontrou uma realidade muito mais condizente com o estatuto do clube. Continuou roendo o osso, mas como titular. Apesar de ter marcado apenas três gols na Ligue 1 de 2016-17, mostrou sua velocidade e potencial para o drible.

Nesse período, acabou sendo notado pela comissão técnica da Costa do Marfim. Logo, recebeu e aceitou o convite para representar a seleção africana. Tal foi possível diante da origem de seus país. E o melhor estava por vir. O bom ano de Pépé convenceu Marcelo Bielsa a levá-lo ao Lille, no que claramente era um enorme salto para o jogador.

Mais sucesso na calma do que na loucura

“Escolhi o Lille pelo projeto”, garantiu o jogador. Não era para menos. O Lille se tornou um clube exemplar para o desenvolvimento de jovens talentos nos últimos anos. Exemplos como Eden Hazard, Sofiane Boufal, Divock Origi ou Florian Thauvin não deixam margem para questionamentos. E, além disso, lá estava o famoso Bielsa.

As coisas não saíram como o esperado. E, diante de um desempenho digno de rebaixamento, o treinador argentino caiu em dezembro de 2018, dando lugar a Galtier. Pépé garante que o clube conseguiria recuperar a forma sob o comando do Loco, mas não nega a importância de seu atual treinador em sua evolução. O atacante marcou 13 gols em 36 jogos em sua temporada de estreia no Lille, em partidas da Ligue 1. Quatro com Bielsa (16J) e nove com Christophe (18J).

 

Respaldado pela permanência na elite, Galtier permaneceu em Lille e seguiu o bom trabalho, formando uma equipe moldada para potencializar as qualidades de Pépé: “Ele é como um pai. Ele realmente nos observa e ajuda a melhorar dia após dia, especialmente nas táticas”. Certo é que o comandante encontrou uma estratégia perfeita para o franco-marfinense.

É impossível ficar indiferente a um jogador que marca 22 gols e provê 11 assistências em 38 partidas (sim, Pépé entrou em campo em cada um dos jogos do Lille na Ligue 1 2018-19, apenas uma vez como reserva). E não é só por isso. Ao lado de Marcos Thuram (filho do campeão mundial Lilian), foi o terceiro jogador com mais dribles completados no campeonato. Foram 101, que o deixaram atrás apenas de Allan Saint-Maximin e Hatem Ben Arfa. Também foi o quarto maior finalizador da competição, atrás de Mbappé, de seu compatriota Max-Alain Gradel e de Andy Delort. Ademais, ocupou a sétima colocação no ranking dos atletas que mais vezes criaram oportunidades de gol.

O coletivo potencializa o individual

Alternativa usual de Galtier pelo flanco direito do ataque, de um time armado no esquema 4-2-3-1, Pépé viu seu jogo ser privilegiado pelas ideias de seu treinador. Com laterais que abrem corretor, passou a atuar menos encostado na ponta e mais próximo de seus companheiros de ataque — habitualmente Jonathan Bamba, Jonathan Ikoné e Rafael Leão.

Jogadores de grande velocidade, os quatro procuram se posicionar entre as linhas de defesa adversárias. Trabalhando com passes rápidos e ultrapassagens fatais. Não é estranho notar que o Lille foi o segundo time mais eficiente em contragolpes no ano. Ficou atrás apenas do Paris Saint-Germain.

Pepe Ikone Bamba Lille

Foto: losc.fr

No que diz respeito, especificamente, a Pépé ficou sublinhada sua enorme qualidade, diante do grande leque de alternativas que oferece. O atacante mostrou qualidade para combinar jogadas laterais com o lateral direito Zeki Celik e para triangulações, acrescentando Ikoné. Esses movimentos também revelaram a facilidade que Nicolas tem para ir à linha de fundo ou penetrar na área adversária para finalizar. Tudo em extrema velocidade. Apesar disso, talvez o grande diferencial do franco-marfinense tenha sido sua capacidade para perceber e atacar espaços.

O jogo coletivo combinado às qualidades individuais tornaram Pépé um jogador capaz de fazer quase tudo no campo do adversário. E o que ficou marcado na última temporada foi sua soberba qualidade para tomar a melhor decisão. O Lille é um time coletivamente coeso. E o alcance de seus brilhantes resultados se deu, em grande medida, pela aptidão de sua estrela para coordenar os ataques.

Se o seu passado como goleiro interfere em suas marcas goleadoras ou não, é impossível concluir. Certa mesma é sua impressionante evolução. É difícil imaginar que a jovem estrela siga atuando no Stade Pierre-Mauroy por muito tempo. Porém, tendo um leque de opções ao seu alcance, o jogador poderá escolher. Tal movimento poderá ser determinante, já que ficou evidente que o melhor Nicolas Pépé (eleito para a seleção da Ligue 1) aparece em um determinado contexto — como foi exatamente o caso do coletivo Lille, em 2018-19.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.