James Maddison e a perícia no ofício da criação

Desde o título inglês da temporada 2015-16, o Leicester City está em evidência. Porém, aquele time do treinador Claudio Ranieri conquistou corações muito mais pelo insólito do êxito do que propriamente pelo estilo de jogo praticado. Desde então, os Foxes têm sofrido. Primeiro, porque a fórmula da vitória foi desmistificada pelos adversários; segundo, em razão das inevitáveis mudanças no elenco. Em 2018-19, com o técnico Claude Puel o time já estava em mutação. Após a chegada do norte-irlandês Brendan Rodgers, esse processo se acentuou. Parte dessas mudanças passa pelos pés de um jovem que chegou — vindo da segunda divisão —, vestiu a camisa e logo se destacou: James Maddison.

Descoberto na terceira divisão

Da estreia como profissional, em agosto de 2014, até fevereiro de 2016, o jovem camisa 10 inglês pertenceu ao Coventry City. Distantes dos momentos vividos no início do século, os Sky Blues estavam apenas na terceira divisão, quando foram obrigados a apostar no garoto. Não demorou muito para suas qualidades ficarem evidentes e ele ser identificado como um prospecto de enorme potencial. Quem notou isso foi o Norwich City, clube que tem se especializado em em encontrar apostas no mercado — como comprovam os recentes casos de Alex Pritchard e Nathan Redmond.

James Maddison Coventry City

Foto: CCFC.co.uk

Maddison precisou de um ano para viver seus primeiros momentos vestindo amarelo. Isso porque, logo após sua contratação, o inglês (de origem irlandesa) foi mantido no Coventry, por empréstimo, até o final da campanha de 2015-16. Por sua vez, a primeira metade da temporada seguinte foi passada ao serviço dos escoceses do Aberdeen. De fato, foi só em 2017-18 que seu talento desabrochou. E foi tudo muito rápido. 

A partir da chegada do treinador Daniel Farke, ex-comandante da segunda equipe do Borussia Dortmund, Maddison se tornou titular do Norwich, então na segunda divisão. Já na primeira rodada, o garoto esteve em campo durante os 90 minutos. A temporada foi apenas mediana para o clube, já para o meia… James foi titular em 42 dos 46 jogos dos Canários na Championship, alcançando a absurda marca de 14 gols e oito assistências. Tudo com 20 para 21 anos.

Maddison Aberdeen

Foto: AFC.co.uk

Nessa temporada, além da capacidade para balançar as redes, Maddison deixou evidentes as marcas de seu jogo. Dois de seus 14 gols saíram de cobranças de faltas e outra dupla de tentos em finalizações de fora da área. No entanto, o mais assustador foi a facilidade para criar ocasiões de gol para seus companheiros. Foram 124 no total, um recorde absoluto na competição. O curioso é que sua noite, individualmente, mais especial acabou sendo coletivamente ruim. Na 37ª rodada, fez um hat-trick contra o Hull City. Não obstante, os Canários acabaram derrotados por 4 a 3.

Norwich City Maddison

Foto: Canaries.co.uk

De Canário a Raposa

Não houve qualquer surpresa quando James Maddison foi eleito o melhor jogador da Championship — ainda que seu clube tenha sido apenas o 14º colocado na tabela de classificação, sequer flertando com o acesso. O Leicester City decidiu apostar muitas de suas fichas no jovem talento, pagando £20 milhões ao Norwich

De cara, o movimento provocou alguma curiosidade já que o jogador ficou marcado como alguém que atua majoritariamente pela faixa central do meio. Como James seria alocado em um time projetado há anos para atuar em 4-4-2? Simples, mudando. Desde o início de sua passagem pelo King Power Stadium, os Foxes mudaram de cara. Quase sempre, atuaram em 4-2-3-1 — às vezes optando pelo 4-1-4-1. 

James Maddison Best Player Championship Norwich

Foto: Canaries.co.uk

É verdade que mudanças já vinham sendo tentadas, mas não havia alguém capaz de assumir a função de ‘10’. Algumas vezes, o centroavante Kelechi Iheanacho foi recuado. Em outras, o meia central Adrien Silva acabou adiantado. Nada muito efetivo. Com Maddison, a escolha passou a fazer sentido. E ele logo correspondeu às expectativas, outra vez a despeito de performances irregulares de seu coletivo. 

Em sua estreia na Premier League, o garoto atuou em 36 dos 38 jogos do Leicester. Sempre como titular. Com a saída de Riyad Mahrez para o Manchester City, acabou assumindo a responsabilidade pela criação de jogadas do clube e esteve à altura. Além disso, ele precisou de apenas duas partidas para marcar seu primeiro gol — em casa, contra o Wolverhampton.

Leicester City James Maddison

Foto: LCFC.com

Criar, criar, criar e valorizar

O campeonato de estreia na elite, definitivamente, não foi um peso para o meia. Suas performances foram estáveis. O ponto baixo acabou sendo vivido na 13ª rodada do certame, quando recebeu dois cartões amarelos em jogo fora de casa contra o Brighton. Sua maior oscilação se deu quando o clube passou pelo seu pior período. Após uma sequência de seis jogos sem vitórias (5D e 1E), o treinador Claude Puel caiu. Pouco depois, foi substituído por Brendan Rodgers.

A mudança fez bem ao Leicester, que seguiu apostando suas fichas em seu camisa 10. Ele terminou seu primeiro ano como destaque máximo da equipe. Na Premier League, fez sete gols e criou outras sete assistências. Novamente, agora no mais alto escalão do futebol britânico, liderou o ranking de chances criadas. Foram 100, 48 em bolas paradas e 52 com a pelota em jogo.

Jamie Vardy James Maddison Leicester

Foto: LCFC.com

“Ele é um talento incrível. Ele é um jogador melhor do que eu pensei que ele fosse. Eu o vi no Aberdeen, quando esteve emprestado na Escócia e eu estava no Celtic, e ele tinha talento. Mas, agora, trabalhando com ele, vejo que ele tem uma fome, ele não é apenas um bom jogador, ele tem fome de se tornar um jogador melhor”, disse Rodgers em entrevista coletiva após a vitória do Leicester contra o Huddersfield, em abril de 2019.

A valorização de Maddison também foi meteórica. No início da temporada, o site Transfermarkt, especializado em medir o valor de mercado de atletas, avaliou o jovem em £22 milhões. Ao final, seu valor atingiu os £40 milhões. Indo mais longe, em duas temporadas teve uma valorização de 2000%. 

Qual será o futuro de James Maddison?

Em maio de 2019, o treinador da Seleção Inglesa, Gareth Southgate, foi obrigado a explicar o porquê de ainda não ter promovido a estreia do jovem pelos Three Lions, às vésperas das decisões da Nations League:

“Nós convocamos tantos jogadores do time sub-21 cedo que queremos que jogadores como Phil Foden, James Maddison, Mason Mount, Aaron Wan-Bissaka e Ryan Sessegnon joguem um torneio juntos [a Euro Sub-21]. Será uma boa experiência para eles”, indicou em coletiva.

James Maddison England

Foto: LCFC.com

Pelo time sub-21, Maddison já disputou nove jogos e marcou um gol. Ele esteve em todos os jogos da campanha ruim dos ingleses no último campeonato europeu da categoria, perdendo para França e Romênia e empatando com a Croácia (jogo em que o meia marcou um dos gols).

A estreia pela seleção principal não deverá tardar. As declarações de Southgate dão conta de que ele faz parte dos planos britânicos para o breve futuro. Ademais, outra questão posta em jogo nos últimos dias foi sua permanência no Leicester. Para já, a tendência parece ser a continuidade, ainda que tenha sido noticiado o interesse de algumas equipes em seu futebol. Bom para os Foxes, que ainda têm quatro anos de contrato com James Maddison.

Maddison celebrates for Leicester

Foto: LCFC.com

O ‘10’ não sentiu sua estreia na segunda divisão. Além disso, também não tremeu ao chegar à Premier League. Agora, treinado por um comandante conhecido por suas ideias de jogo propositivo, pode oferecer ainda mais. Seja cobrando faltas, construindo ocasiões de gol ou dando ele mesmo cabo das jogadas, o que se projeta é mais uma temporada de alto nível — confirmando suas qualidades e aumentando, ainda mais, a sua valorização.

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.