Meu nome é Hazard, Thorgan Hazard

Há coisas que, por mais que se tente evitar, acabam se tornando reais diante da implacabilidade do mundo. A comparação entre irmãos parece ser o caso, ainda que, cientes disso, responsáveis pais tentem evitar. Imagine a situação em que o mais velho de três se torna pessoa pública antes dos 18 anos, reverenciado por seu talento. Essa é a realidade do sobrenome Hazard no futebol. Nenhum dos membros do clã belga pode negar isso. Não obstante, também é fato que Thorgan está conseguindo abandonar a sombra de Eden.

“Você tem que ser cego para pensar que tenho as mesmas qualidades de Eden”

Foi com essas palavras que Thorgan Hazard, no ápice de sua sinceridade, admitiu o óbvio à Sport/Voetbalmagazine. Não há, e nunca houve, ponto na tentativa de comparar o meia com seu irmão: “Entenda, Eden é um jogador bestial, um dos melhores do mundo”, continuou. Não era preciso ser literal para reconhecer a diferença de nível existente entre os dois. Em seu melhor, Thorgan é um jogador muito bom; um potencial craque em equipes medianas, mas bom nos times de ponta — o que não é demérito.

Thorgan Eden Hazard

Foto: Reprodução/Instagram

As carreiras dos irmãos estiveram atreladas desde o início, incentivadas pelos pais — ex-atletas e professores de educação física (o pai no contexto semiprofissional e a mãe atuando na elite). Ambos surgiram no modesto AFC Tubize e foram notados por clubes rivais na França. Enquanto Eden marchou para Lille, Thorgan partiu para o Lens. Separados por menos de 40km, seguiram muito próximos. A decisão foi tomada pelos pais, já que o Lille desejava a contratação de ambos, mas, para evitar mais comparações, os pais preferiram que Thorgan partisse para o Lens.

Como era natural, o irmão do Lille apareceu primeiro, até por ser dois anos mais velho. Depois de ajudar o clube a, extraordinariamente, alcançar o título francês, mudou de patamar: foi jogar a Premier League, representando o Chelsea.

Jogador do Chelsea, mas só no papel

Thorgan Chelsea

Foto: Chelsea FC

Sem esquecer seu irmão, interferiu diretamente em sua trajetória. Thorgan também recebeu um contrato com o clube londrino. Apesar disso, na capital inglesa talvez o peso da comparação tenha se tornado insustentável. O jovem chegou a um clube que, tradicionalmente, não oferecia muito espaço para seus prospectos e, além disso, como uma espécie de “bagagem” do irmão famoso. Como seus compatriotas, Kevin De Bruyne e Romelu Lukaku, teve de se desligar da equipe.

“Nunca neguei isso: sem meu irmão, nunca teria chegado ao Chelsea. Só um idiota diria que o Eden não teve um papel nessa transferência”, atestou, também à Sport/Voetbalmagazine

Sua primeira parada representou um retorno às origens. Emprestado ao Zulte Waregen, Thorgan Hazard ganhou tempo de jogo e seu destacou. A despeito disso, tratava-se de uma distinção de valor duvidoso, diante do nível apenas mediano do futebol belga. O prêmio de melhor jogador do campeonato nacional em 2013-14, os 21 gols e 29 assistências em 90 partidas, porém, foram suficientes para garantir uma chance melhor ao jovem.

A salvação de Thorgan veio na Alemanha

O tradicional Borussia Mönchengladbach apareceu no caminho de Hazard. Com um bom trabalho em andamento, sob a batuta do treinador Lucien Favre, os Potros vinham de um quinto lugar na Bundesliga 2013-14 e queriam mais. Embora não tenha sido titular habitual em sua primeira campanha, Thorgan teve um número considerável de minutos disputados e foi importante, deixando claro que coisas melhores poderiam vir. Em seu ano de estreia, fez cinco gols e construiu 10 assistências. Foi o suficiente para convencer o clube a garantir sua permanência.

Thorgan contract deal Gladbach

Foto: Borussia.de

Por €8 milhões, o Gladbach confirmou sua contratação por quatro temporadas, mais a possibilidade de extensão por mais um. Na ocasião, o Chelsea reiterou em seu site que manteve uma opção de recompra no contrato e que continuaria “monitorando seu progresso”. O primeiro ano de Hazard na Alemanha foi soberbo para o clube, que retornou à Liga dos Campeões da Europa, colocando fim a uma espera de 38 anos.

Gradativamente, o belga foi conquistando seu espaço e deixando de ser um jogador muitas vezes reserva. Para isso também foi importante sua versatilidade. Em sua estada no Gladbach, Thorgan atuaria pelas pontas direita e esquerda, como camisa 10 e segundo atacante — sendo alternativa para qualquer posição do setor ofensivo. No seu segundo ano (2015-16), jogou 36 jogos, 14 saindo do banco. Anotou seis tentos e construiu também meia dúzia de assistências. 

Thorgan Hazard Borussia Mönchengladbach

Foto: Borussia.de

Maturidade e chegada à seleção

Pouco depois dessa temporada, passou a ser lembrado regularmente por Roberto Martínez, o treinador da Seleção Belga. “Estou convencido de que Thorgan está em um bom momento — talvez o melhor de sua carreira. Thorgan ainda é jovem, mas será um jogador importante para nós no futuro. Ele ganhou maturidade esta temporada, provou isso em seu clube”, disse o comandante dos Roten Teufel ao DeMorgen em outubro de 2016.

Thorgan Belgium

Foto: Borussia.de

Thorgan viveu mais uma temporada de evolução em 2016-17, em que, mesmo tendo tido problemas físicos, marcou 11 gols e deu sete passes para gols. O ápice mesmo se confirmou nos dois anos que se seguiram. Em 2017-18, disputou todos os jogos do time na temporada — apenas um na condição de reserva. Conseguiu a marca de 11 gols e seis assistências. Foi assim que garantiu sua vaga na Copa do Mundo da Rússia, tornando-se titular da Seleção Belga após o Mundial.

“Eu tenho que fazer com que as pessoas se lembrem do meu primeiro nome”

Apesar de não haver mais margem para dúvida, o ano de 2018-19 reiterou que Hazard estava pronto para uma aventura em nível mais elevado. Tendo perdido só um jogo (tendo sido titular em todos os demais), Hazard brilhou intensamente, especialmente na primeira metade da temporada. Nas primeiras 16 rodadas da Bundesliga, marcou impressionantes nove tentos, atuando ou pela ponta direita ou pela esquerda. 

Hazard Gladbach

Foto: Borussia.de

Apesar da queda de forma no segundo turno, terminou o ano com treze gols e onze assistências, ajudando o Borussia a chegar à disputa da Liga Europa de 2019-20. Aos 26 anos, Thorgan se viu elevado à condição de estrela da Bundesliga e titular da Seleção Belga. Estava na hora de mudar de patamar, para enfim alcançar o que sempre desejou: o reconhecimento por seu nome, o primeiro, não o sobrenome. 

Por isso, acertou com o Borussia Dortmund, ao custo de €25,5 milhões. Curiosamente, ao mesmo tempo em que Eden também sobe um novo degrau em sua trajetória, assinando com o Real Madrid.

Gladbach 2018-19

Foto: Borussia.de

Que Thorgan chega a Dortmund?

No time aurinegro, Thorgan reencontra o treinador Lucien Favre, além do meio-campista Mahmoud Dahoud, ex-Gladbach, e de Axel Witsel, seu parceiro na Seleção Belga. E para a Muralha Amarela fica a certeza da chegada de um dos melhores jogadores em atividade no país. Hazard foi o quinto jogador da Bundesliga que mais ofereceu passes-chave na última Bundesliga e também o quinto melhor assistente. Ficou atrás apenas de seu novo companheiro Jadon Sancho no ranking de dribles completados.

Além disso, foi um jogador com alguma utilidade em termos defensivos. Considerando apenas jogadores que atuam pelas pontas ou como meia ofensivo, só desarmou menos que André Hahn, Admir Mehmedi, Ondrej Duda e Jean-Paul Boëtius. Também foi o quarto jogador dessas posições no ranking de interceptações. Embora não seja grande, também não é irrelevante o contributo de Thorgan nas tarefas defensivas.

Throgan Hazard Dortmund

Foto: BVB.de

Seus dados e estatísticas confirmam: Hazard vive grande momento. Roberto Martínez não estava errado em 2016. E a melhor parte é saber que o jogador ainda tem apenas 26 anos. “É um grande clube, é um grande passo na minha carreira. Era hora de ir adiante […] Witsel e eu conversamos sobre isso há algum tempo. Ele realmente não teve que me convencer: se tal clube te quer, você quer mudar”, afirmou ao ser anunciado pelos aurinegros. 

A hora chegou. O tempo de disputar títulos nacionais e ter disputar, regularmente, a Liga dos Campeões é agora. Thorgan nunca deixará de ser irmão de Eden, mas o momento lhe dá a chance de ser lembrado no futebol como alguém bem maior do que isso. 

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Advogado graduado pela PUC Minas, mestrando em Ciências da Comunicação (Universidade do Minho) e Jornalismo Esportivo (MARCA), 26 anos. Amante do futebol inglês, mas que aprecia o esférico rolado qualquer terra. Tem no atacante Marques e no argentino Pablo Aimar referências; e não põe em dúvida quem foi o melhor jogador que viu jogar: o lúdico Ronaldinho Gaúcho, na temporada 2004/05. Também n'O Futebólogo e na Revista Relvado.