A empolgante estreia do Real Madrid, capitaneada por Gareth Bale

  • por Victor Mendes Xavier
  • 3 Meses atrás

O Real Madrid abriu o Campeonato Espanhol 2019/2020 com uma convincente vitória na Galícia contra o Celta de Vigo por 3 a 1. Mais do que os três pontos, a atuação, no aspecto coletivo e individual, é a melhor notícia que Zinédine Zidane poderia ter neste momento. Depois de uma pré-temporada que gerou mais dúvidas do que certezas, o cenário era de desconfiança quanto ao novo trabalho do francês. Não que da noite pro dia o ceticismo acabou, mas as sensações são diferentes.

Apesar das variações que fez nos amistosos (chegando a testar um 3-5-2), Zidane deu o pontapé oficial na liga com o seu tradicional 4-3-3. A grande novidade foi a titularidade surpreendente de Bale, formando trio de ataque com Vinicius Junior e Benzema. Há menos de um mês, Zizou, em uma forte declaração, chegou a afirmar que “se Bale sair amanhã seria melhor para todos”. O futebol chinês parecia o destino do galês, mas como a proposta de 22 milhões de euros do Jiangsu Suning, de acordo com jornais de Madrid, foi considerada baixa e prontamente recusada pelo clube da capital espanhol, as opções dentro do mercado europeu ficaram escassas e o camisa 11 foi naturalmente reintegrado ao elenco. Zidane nunca escondeu (mesmo) a simpatia por Lucas Vázquez (às vezes até exagerada), mas preferiu fazer as pazes com Bale dando-lhe uma oportunidade no Balaídos. O atacante foi o melhor em campo, fez toda a jogada do primeiro gol e ainda por cima mostrou uma excelente forma física, com eficientes arrancadas e ajuda na recomposição.

A partida do Real Madrid foi de maturidade. Mesmo com seus 37% de posse de bola, o domínio territorial foi evidente, sobretudo porque nos tempos que ficava com a pelota nos pés o time a tinha com firmeza e trocava passes com extrema segurança, movendo a bola de um lado para o outro. E, para isso, como foram importantes as participações de Marcelo, Modric e Kroos, que jogaram como se estivessem em 2017. Qualquer pretensão de sucesso dos Blancos no ano passa pela recuperação dessa espinha-dorsal do tri-campeonato europeu. Coincidentemente os mais jovens foram justamente os que ficaram devendo: tímidos, Odriozola e Vinicius Júnior ficaram abaixo do padrão da equipe no geral. Com o gol de Vázquez e a atuação de Bale, certamente o brasileiro deve perder a vaga entre os onze no final de semana.

Foto: Site Oficial do Real Madrid | Gareth Bale renasceu e foi o melhor em campo em Vigo

A expulsão de Modric condiciona a possibilidade de continuidade para a próxima rodada, mas o calendário foi relativamente benevolente com o Real nas seis primeiras rodadas: em sequência, vem aí Valladolid (em casa), Villarreal (fora), Levante (c), Sevilla (f) e Osasuna (c). As dificuldades são esperadas de fato somente contra o Sevilla. Ainda que o histórico no El Madrigal pese, o Submarino Amarelo mantém a instabilidade de outrora (inclusive, estreou com um 4 a 4 maluco contra o Granada, dentro de seus domínios) e não arranca.

Claro, existem ponderações a serem feitas após o positivo resultado. A fragilidade do Celta de Vigo tem que ser levada em consideração, por exemplo. Os Celestes seguem dependentes dos milagres de Iago Aspas, que isolado nada pôde fazer contra Sergio Ramos e Varane, e viram apenas Denis Suárez, escorado no lado esquerdo, tentar algo de diferente, ainda que sem sucesso. O sistema defensivo não evoluiu e continua preocupando. Não bastasse esses problemas, Fran Escribá não contou com cinco titulares, entre eles Santi Mina, uma das principais contratações feitas pelo clube. Nada mudou na negativa rotina do Celta, que brigou pelo rebaixamento na temporada passada até a última rodada e não é mais nem sombra da equipe que conquistou o coração de muitos fãs de futebol espanhol entre 2013 e 2017 pelo ótimo e ofensivo estilo de jogo demonstrado com Luis Enrique e Eduardo Berizzo e a histórica campanha na Liga Europa 2016/2017, quando foi eliminado de cabeça erguida na semifinal para o Manchester United.

É válido mencionar que, em 2018, os primeiros jogos do Real Madrid com Julen Lopetegui também foram acima da média. Porém, depois de uma derrota para o Sevilla por 3 a 0 no Ramon Sánchez Pizjuán, na quinta rodada, tudo começou a desandar e o fracasso, retumbante, deu as caras. Continuar somando pontos é importante, mas, acima de tudo, manter a consistência e recuperar definitivamente as peças que fizeram falta na calamitosa campanha de meses atrás.

Pílulas da rodada

Foto: Site Oficial do Athletic Bilbao | A justa vitória do Athletic Bilbao contra o Barcelona foi coroada com um golaço do imortal Aritz Aduriz

– Ao contrário do Real Madrid, o Barcelona foi um completo desastre. O time não atuou bem, foi incapaz de furar a retranca do Athletic Bilbao e saiu derrotado por 1 a 0 no San Mamés. Desde 2008/2009 que os Blaugranas não perdiam numa primeira rodada. Messi não jogou e o Barça naufragou. O desânimo geral da torcida culé faz sentido: não foi o início de um projeto, e sim o começo do terceiro ano de Ernesto Valverde. A equipe segue estagnada e num purgatório entre “seguir a filosofia” e “romper com o estilo”. Em âmbito doméstico, Messi resolve 99% dos problemas. Na Europa, como sabemos, o buraco é mais embaixo.

– O Atlético de Madrid derrotou um sempre competitivo Getafe de Bordalás por 1 a 0 no Wanda Metropolitano. Simeone deu sequência ao losango no meio-campo, que por vezes virava um quadrado, a depender da movimentação de Lemar. Trippier e Renan Lodi não pararam de avançar e foi num cruzamento do inglês que pintou o gol de Morata. A expulsão (infantil, diga-se de passagem) do brasileiro no fim do primeiro tempo mudou o planejamento de Simeone. Saúl saiu do meio-campo e foi fazer a lateral-esquerda. João Felix fez a jogada individual mais bonita da noite, numa arrancada à Kaká, onde só foi parado com falta dentro da área. Morata desperdiçou.

– Completa, a atuação do Sevilla de Lopetegui. Bem modificado, os andaluzes dominaram o Espanyol, em especial no primeiro tempo, e correram pouco riscos. A parceria entre Reguillón e Nolito pela esquerda fluiu com naturalidade e foi meio caminho para a construção da vitória por 2 a 0. O lateral, que pertenceu ao Real Madrid, foi muito acionado e justificou com uma ótima exibição. O Espanyol sentiu a falta de Borja Inglesias, negociado com o Bétis, e teve nenhuma presença de área.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.