A Melhor do Mundo tem muito a dizer

  • por Marcela Natra
  • 9 Meses atrás

Na mesma semana Milão recebeu a Semana de Moda e o The Best Awards, a premiação dos melhores do mundo no futebol. Dois mundos que pareciam tão distantes e ao mesmo tempo tão próximos. As mulheres desfilando em passarelas vestidos de Dolce & Gabbana, Gucci, Chanel, estavam hoje parecidas com as jogadoras que adentraram o tapete verde da premiação da FIFA. Dessa vez sem chuteiras e uniformes, mas com vestidos, terninhos, saltos, à vontade e produzidas, belas e elegantes. Aliás, foi uma festa elegante do início ao fim. Como pede Milão!

O foco pela primeira vez eram elas. Nas redes sociais, nos bastidores, no tapete verde. Todos queriam saber onde estavam elas. E elas apareceram. Também pela primeira vez em um 11 ideal da FIFA no ano. A premiação acontecia normalmente quando de repente as luzes se apagam, um clarão e elas estão no centro do palco. Onze, lado a lado. Van Veenendaal, Lucy Bronze, Nila Fisher, Kelley O’hara, Wendie Renard, Julie Ertz, Amandine Henry, Rose Lavelle, Marta, Megan Rapinoe e Alex Morgan. Foi de arrepiar. E eles aplaudiram de pé. Todo o teatro se levantou. Ter a chance de receber o mesmo reconhecimento que eles era uma vitória. Uma linha que foi cruzada.

Após Lionel Messi levar a sua sexta conquista de Melhor do Mundo, igualando Marta, a apresentadora então chamou a premiação da Melhor Jogadora do Mundo. Sim, isso mesmo. Todos sabem que em premiações o mais importante fica para o fim e a FIFA sabia que tratava-se do ano delas. Luzes, brilho, pela primeira vez parecia que a federação não estava sendo obrigada a fazer aquilo. Ares de mais importante prêmio da noite para aquele que de fato era o mais importante prêmio da noite – até porque já vimos Messi ganhar tantas vezes que até perdeu a graça.

Uma grande vitória pede grandes adversárias e era isso que Megan Rapinoe tinha. Lucy Bronze fez uma temporada incrível com o Lyon e chegou a quarta posição na Copa com a Inglaterra. Alex Morgan, dispensa apresentações, é líder no processo pelo pedido de igualdade salarial contra a Federação Norte Americana e um dos rosto do futebol feminino não só nos EUA, mas no mundo. Se qualquer uma delas vencesse o prêmio seria justo, mas não seria 2019.

Quando Donald Trump resolveu usar o twitter para dizer a Megan Rapinoe que primeiro ela precisava ganhar a Copa e depois então pensar em ser convidada para a Casa Branca, ele não sabia que estava fazendo um bem danado ao Futebol Feminino. Megan não só ganhou a Copa como terminou Bola e Chuteira de Ouro do mundial, porque talento e categoria não lhe falta, ela não só foi campeã porque é uma líder nata, como usou toda a oportunidade que teve de discursar por isso para lutar contra o preconceito, a homofobia e a discriminação. Não que ela já não fizesse antes, pois sempre fez, mas havia ganhado em uma resposta a chance de dar a cara tapa e deu.

O mundo então queria ouvir o que a melhor jogadora da Copa do Mundo tinha a dizer porque o presidente do seu país a desafiou. Então ela disse. Nas entrevistas após o título, ao receber homenagens em Nova Iorque, em todos os programas que visitou, começou a dizer e não parou mais. Incomodou quem precisava ser incomodado e até quem não sabia que estava sendo incomodado. Se futebol nunca lhe faltou, coragem também estava sobrando.

Megan Rapinoe, se não era, agora é ídolo. Um marco do esporte que pode e deve mudar o mundo. Entendeu que quando você se torna um astro do futebol o mundo quer ouvir o que você tem a dizer, então diga coisas que vão mudar o mundo. Encoraje pessoas, lute por igualdade, por respeito, por tolerância. Por isso ela foi eleita a TheBest e não poderia ser diferente. Porque o futebol é acima de tudo um instrumento do povo. E na última temporada ninguém usou ele melhor do que ela.

A noite em Milão terminou com a sensação de que nada será como antes, de que existe um marco histórico para o futebol feminino que pode ser datado de “Antes da França 2019 e Depois da França 2019”. O discurso de Pinoe, os olhos do mundo, pediu coragem a aqueles que têm voz para que se posicionem contra o racismo, a homofobia e a favor da igualdade salarial. Megan terminou dizendo: “Temos a oportunidade de usar o futebol para tornar o mundo um lugar melhor”. Então senhores, vamos fazer isso.

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Jornalista, apaixonada pela camisa blanca merengue, começou escrevendo sobre cinema até fundar o MeuMadrid e descobrir que as histórias que queria contar eram as do campo da bola.