Confiança recuperada, um grupo acessível nas eliminatórias e coragem para trabalhar novas idéias: o trabalho de Roberto Mancini a frente da Itália

  • por Henrique Mathias
  • 2 Meses atrás

Roberto Mancini assumiu o comando técnico da Itália em maio de 2018, seis meses depois do duelo da “Squadra Azzurra” contra a Suécia, que culminou com a seleção italiana fora da Copa do Mundo depois de 60 anos.

Mancini vinha de trabalhos inconsistentes, tendo passado sem muito sucesso por Zenit, Inter e Galatasaray. Mas era o homem de confiança da Federação Italiana e vem correspondendo com um trabalho que visa o longo prazo, uma nova identidade que potencializa as melhores individualidades do país, coisa que faltou com Giampiero Ventura, o treinador interior.

O treinador estreou vencendo a Arábia Saudita por 2×1 no dia 28 de maio de 2018, num amistoso que aconteceu na Itália. Na semana seguinte viajou para Paris, onde enfrentou a França e acabou derrotado por 3×1. Depois dos amistosos iniciais de seu trabalho, aconteceu a Nations League, onde enfrentou seus primeiros compromissos oficiais e começou a moldar o que seria o rumo de seu trabalho. Foram quatro jogos pela Nations Cup, com uma vitória, dois empates e uma derrota. Mancini variou entre o 4-4-2, bem italiano, e o 4-3-3, na época ainda bem engessado, nessas partidas.

Com um bom início de trabalho e mais tempo de convívio com jogadores, além do entendimento do grupo que tem em mãos, Mancini foi preciso em perceber que o que a Itália tem de mais precioso em termos de talento, neste momento, é a dupla Verratti e Jorginho. Dois volantes com enorme capacidade técnica, inteligência para tabelarem e que poderiam, através do controle da posse de bola, iniciar um novo momento na seleção. Foi então que, contando com a sorte de um grupo muito fraco nas Eliminatórias para a Eurocopa, Mancini teve coragem de trabalhar algo novo e contracultural na Itália: o jogo de posição.

Foto: Itália oficial – Jorginho e Verratti no treino da seleção

Mas o que seria o jogo de posição?

Dentro deste modelo de jogo, a equipe busca o desenvolvimento de seus mecanismos através da utilização racional dos espaços; ou seja, jogadores com posições definidas e com o mínimo de assimetrias geradas.

“A bola vai até as posições, e não as posições até a bola”.

O objetivo é espalhar a equipe pelo campo, com cada jogador tendo sua zona de ação definida e sem invadir a zona do outro. Com isso, você faz a bola girar de um lado ao outro, movimentando a equipe adversária, sem que o seu time se movimente. Com esse movimento da equipe rival sendo criado, sua equipe acaba ficando com alguma peça livre, e ai é a hora de fazer a bola chegar nesse jogador, para que ele avance e finalize.

Historicamente o jogador italiano está acostumado a correr no espaço, atrás da bola, e com os novos mecanismos trabalhados por Mancini, ele espera que a bola chegue em seus pés.

Claro que existem fatores culturais muito próprios, que o jogo é do jogador e que cada um sente os pedidos do treinador de maneira individual. Não é algo exato, tampouco ortodoxo. Mancini sabe bem os problemas que teria se fosse assim. Mas a busca é por potencializar jogadores como Verratti, Jorginho e Insigne. Três pilares da seleção, que trabalharam com Sarri, um entusiasta do jogo de posição, e têm isso muito fresco na memória.

Desta maneira a Itália vem jogando no 4-3-3, com Verratti, Jorginho e Barella formando o trio de meio-campo. Jorginho é o homem que recua para fazer a saída em 3-2 entre os zagueiros; Verratti é quem tem maior peso em sustentar a saída de bola e a construção ofensiva da Itália; Barella é o jogador mais “italiano”, com bastante força de infiltração.

Foto: Itália oficial – Mancini à beira do campo no jogo diante da Finlândia

Foram seis jogos pelas Eliminatórias até o momento, jogando com o novo sistema e com essas ideias sendo trabalhadas por Mancini. Itália 2×0 Finlândia; Itália 6×0 Liechtenstein; Grécia 0x3 Itália; Itália 2×1 Bósnia; Armênia 1×3 Itália e Finlândia 1×2 Itália. Com um saldo de seis vitórias, 18 gols marcados e três sofridos.

A classificação para a Eurocopa está muito bem encaminhada, mas o caminho da Itália até voltar ao topo ainda é longo. Contudo, o começo do trabalho de Mancini é muito bom e corajoso, buscando aproveitar os méritos do trabalho de Sarri no Napoli para potencializar sua equipe e fazê-la com que volte a competir de igual para igual com quem quer que seja. Sempre com a alma da Squadra Azzura, de muita qualidade para defender e muita garra para jogar, mas também agregando novos detalhes, jogadas e movimentações.

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Curso história e sou apaixonado pelo futebol italiano desde 2005. Acompanhei assiduamente todo o processo complicado que foi Calciopoli, os anos sem investimento na Serie A e toda a retomada da Liga enquanto produto comercial nos ultimos anos. Gosto de falar sobre tática, mas amo ainda mais contar histórias.