O peso do tropeço

  • por Daniel dos Santos Leite
  • 1 month atrás

Nos últimos 38 jogos de Premier League em que Manchester City e Liverpool estiveram envolvidos, os dois times somaram 103 dos 114 pontos possíveis. É como se, juntos, eles tivessem superado o recorde que a própria equipe de Pep Guardiola estabeleceu ao marcar 100 pontos em sua campanha de 2017-18. O recorte recente não entrará para os livros da história do futebol inglês (é só um exercício que ilustra o aproveitamento das equipes), mas mostra a batalha em que se transformou a disputa pelo título do campeonato.

A dupla só não acumulou 106 pontos nesse período porque o Norwich trabalhou muito para vencer o Manchester City por 3 a 2 no sábado. Ao entregar a bola a Buendía em uma saída de bola elementar, Otamendi também prestou sua contribuição para o resultado e deixou claro que a grave lesão de Laporte será uma dor de cabeça ao longo da temporada. Na abertura da rodada, depois do susto com o golaço de Willems logo no começo, o trio de ataque construiu a virada do Liverpool por 3 a 1 sobre o Newcastle. Foi mais um recital de Roberto Firmino, que havia sido poupado para a difícil sequência de jogos na semana, mas foi chamado após a lesão de Origi, ainda no primeiro tempo.

A vitória manteve o Liverpool com 100% de aproveitamento, e a derrota do City garantiu que a vantagem na liderança fosse de cinco pontos. Considerando que a disputa pelo título tende a ser novamente uma “corrida de dois cavalos”, como se diz na Inglaterra, e tomando por base o ritmo de pontuação de ambos nos últimos tempos, não é algo desprezível – ainda que o Liverpool tenha perdido os sete pontos de margem que chegou a ter na temporada passada, muito mais por mérito do City.

Uma derrota trivial de início de temporada tem um peso muito maior hoje do que em outros tempos, mesmo com mais 99 pontos em disputa para cada equipe. O jornalista e torcedor do Liverpool James Pearce, que recentemente trocou o Liverpool Echo pelo ambicioso projeto do site The Athletic, não teve dúvidas: assim que o árbitro apitou o final de jogo em Carrow Road, postou aquele inconfundível emoji com dois olhos que percebem que algo muito “interessante” acabou de acontecer.

Qualquer ponto perdido por um dos dois vira uma novidade relevante na briga pelo título, o que nos leva a outra discussão. Na próxima rodada, o Liverpool visitará o Chelsea fora de casa. Não será uma atmosfera qualquer, independentemente do resultado dos Blues contra o Valencia na Champions League. A goleada por 5 a 2 sobre os Wolves no sábado, o embalo de Mason Mount e Tammy Abraham, que assumiu a artilharia do campeonato, e a oportunidade de revanche da Supercopa serão catalisadores da empolgação da torcida. E o que exatamente será um bom resultado para o Liverpool contra um time em ascensão?

A definição de “bom resultado” pode ser aquele que, se oferecido antes do jogo, Jürgen Klopp aceitaria. A resposta passa pela memória da temporada passada, em que o Liverpool ficou um ponto abaixo do campeão e, tendo feito sua melhor campanha na primeira divisão, venceu apenas um dos adversários do Top 6 fora de casa. O City, embora tenha perdido para o Chelsea um jogo em que Maurizio Sarri renunciou ao Sarriball, superou Arsenal, Manchester United e Tottenham (este também derrotado pelos Reds) longe do Etihad.

Foi-se o tempo em que eram suficientes empates pragmáticos fora de casa, como José Mourinho corretamente buscava em seu último título pelo Chelsea, em 2014-15. Até porque dava para ser campeão com 87 pontos. Na temporada passada, quando ainda não tinha a exata noção de que faria uma campanha histórica, o Liverpool comemorou bastante – até pelas circunstâncias, com golaço improvável de Sturridge no fim – o empate por 1 a 1 em Londres com o Chelsea, também no início do campeonato.

Respeitando as nuances que um jogo difícil como este impõem à análise, mesmo não sendo exatamente um resultado ruim, um empate fora de casa contra um rival do Top 6 deixou de ser um placar para comemorar. Liverpool e City hoje contam pontos perdidos e não os acumulados na Premier League, por culpa da excelência que ambos atingiram nos últimos tempos. Klopp muito provavelmente recusaria a “oferta” do empate e tentaria vencer, se esse tipo de negociação fosse possível.

Antes do início da temporada, De Bruyne disse que “talvez 85 pontos sejam suficientes para ganhar o título nesta temporada”, em contraste com os 98 que o City efetivamente precisou somar para levantar a taça em 2019. Por enquanto, a previsão do belga não parece muito precisa. Os outros quatro adversários do Big 6 não estão necessariamente mais fortes e, talvez à exceção do Leicester, ainda não há sinais de equipes emergentes evoluindo tanto ao ponto de competir com os mais poderosos.

O Liverpool perdeu Sturridge, Moreno e Mignolet, três jogadores que não haviam sido contratados por Klopp e já não eram muito relevantes no elenco, e não tem problemas de reposição mais graves em relação aos que já existiam na temporada passada. O perigo estaria em uma lesão séria de jogador-chave. Alexander-Arnold, Robertson, van Dijk, Firmino, Mané e Salah são nomes que, se ausentes por meses, provavelmente teriam um impacto significativo na pontuação final e diminuiriam a nota de corte, mas essa já era uma possibilidade em 2018-19.

O City se vira melhor sem a maioria de seus titulares. Sané é importante, claro, mas há alternativas suficientes no ataque. Na temporada anterior, De Bruyne esteve muito tempo ausente, mas o time foi muito bem com outros meias. Fernandinho era uma peça mais insubstituível, mas agora se tornou reserva com a chegada de Rodri, o novo Busquets de Guardiola. O jogador que mais faria falta este ano foi justamente aquele que se lesionou: Laporte*.

O zagueiro francês é, com larga vantagem, o melhor do elenco, que além dele tem apenas Otamendi, Stones e Eric García (de 18 anos). Fundamental também na saída de bola, ele não jogará novamente em 2019, o que deixa o City não apenas agonizando na quantidade, mas também na qualidade das opções disponíveis. Não será uma grande surpresa se Guardiola resolver abrir mão de Otamendi e mudar o sistema para os próximos jogos, especialmente pela situação do elenco.

Uma opção é a utilização de três zagueiros: Walker, Stones e Fernandinho. O lateral-direito inglês já fez a função na seleção – inclusive na Copa do Mundo – e o brasileiro poderia recuperar espaço no time em uma posição que também já ocupou. Como Sané está fora até janeiro e Mendy retornou aos treinos, a tão necessária amplitude para quebrar as defesas fechadas pode vir dos laterais (que, no caso, seriam Mendy e João Cancelo) e não dos pontas. A mudança também abriria espaço para Gabriel Jesus em alguns jogos, ao lado de Agüero.

Pep precisa agir rápido. Na nova Premier League, em que cada tropeço dos candidatos ao título é possivelmente decisivo, a ausência de Laporte precisa ser respondida com soluções mais confiáveis do que a simples substituição por Otamendi. Não há tempo a perder!

*Após o fechamento desta coluna, jornais noticiaram a lesão de John Stones por, pelo menos, 6 semanas, complicando ainda mais o setor defensivo do treinador Guardiola.

Pílulas da rodada

Quique Sánchez Flores retornou ao Vicarage Road após a demissão de Javi Gracia e já deu nova vida ao Watford. Foram impressionantes 31 finalizações contra apenas sete do Arsenal no empate por 2 a 2. Claramente o elenco estava subaproveitado. Deulofeu e o recém-chegado Ismaila Sarr, que ainda não foi titular na liga, provaram no segundo tempo que, juntos, podem causar um tumulto em defesas adversárias. Por outro lado, além do segundo tempo constrangedor do ponto de vista coletivo, o Arsenal leva para a semana a sensação de que continua “dando gols de presente aos adversários”, como declarou Aubameyang a uma rede francesa de TV.

Wolves, Everton e Leicester, os teoricamente desafiantes do Top 6, decepcionaram no fim de semana. Os dois primeiros sucumbiram ao poder ofensivo de Chelsea e Bournemouth, que, sim, pode ser um time extremamente agressivo e eficiente quando joga em casa (mesmo ainda sem seu jogador mais criativo, o lesionado David Brooks). Já o time de Brendan Rodgers até poderia ter empatado com o Manchester United em Old Trafford, mas ficou a sensação de que, num jogo sem Martial, Pogba e Shaw, era a oportunidade perfeita de vencer um jogo que para muita gente era um confronto direto e ir a 11 pontos na tabela. Perdeu por 1 a 0 com gol de Rashford, de pênalti. Demarai Gray, que recebeu uma chance de ouro como titular, continua muito abaixo do que pode render.

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Jornalista, acompanha a Premier League desde o auge da rivalidade entre Arsenal e Manchester United. Viu o número de grandes equipes aumentar e o campeonato se globalizar por meio da qualidade de um espetáculo que é ótimo até quando o jogo é ruim. Escreve aqui para registrar algumas das ideias que aparecem durante as rodadas.