O que os resultados não mostram

  • por Daniel dos Santos Leite
  • 2 Meses atrás

Antes de vencer o Chelsea por 2 a 1 em Stamford Bridge, no último domingo, Jürgen Klopp rasgou elogios ao adversário, comparando-o, pelo entusiasmo, a juventude e a qualidade do grupo, ao seu Borussia Dortmund das primeiras temporadas. Mesmo em relação aos meses iniciais do técnico alemão no Liverpool, há semelhanças. Não exatamente pela média de idade (aquele Liverpool tinha um elenco mais desequilibrado do que inexperiente), mas por serem times que buscam assimilar uma mudança de direção, às vezes impressionam muito positivamente, mas também perdem pontos que parecem inacreditáveis e põem em xeque (para alguns setores de imprensa e torcida) a estabilidade do novo trabalho.

A primeira temporada de Klopp no Liverpool, que começou em outubro de 2015, teve muito disso: de uma vitória por 4 a 1 contra o Manchester City no Etihad a uma derrota por 3 a 0 para o Watford em Vicarage Road, ninguém entendia por que um time capaz de atropelar um oponente forte também sofria algumas derrotas vexatórias. Além do Liverpool, pela Premier League, o Chelsea perdeu para o Valencia, pela Champions League, em Stamford Bridge na semana passada. Antes, atropelou os Wolves por 5 a 2 fora de casa. Na temporada, ainda não venceu em seu estádio, onde empatou com Leicester e Sheffield United após abrir vantagem no primeiro tempo.

Foto: reprodução – Lampard e Klopp, ao fundo

Os oito pontos do Chelsea na Premier League são os mesmos de Tottenham e Manchester United, mas, considerando as expectativas, os objetivos e a “curva de desenvolvimento” dos times, o melhor ambiente é o de Stamford Bridge. Olhar para a tabela a ver os Blues no 11º lugar, uma posição abaixo do Sheffield United após seis rodadas, pode ser impactante, assim como perceber que a defesa é a terceira mais vazada da liga, deixando a equipe com saldo negativo. Mas há vários motivos para ser otimista.

O mais óbvio deles é a ótima produção ofensiva em alguns jogos, como nas visitas a Norwich e Wolves. Mais concretamente, chamam muita atenção as duas atuações contra o Liverpool, tanto na Supercopa da Europa (empate por 2 a 2 e derrota nos pênaltis) quanto na Premier League. Foram jogos equilibrados, com períodos de domínio do time de Frank Lampard, como nos 20 minutos finais no domingo. Não por acaso, o melhor jogador do elenco, Kanté, que sofreu bastante com lesões no início da temporada, foi titular em ambas as partidas ao lado de Jorginho e Kovacic no que é, efetivamente, um legado de Maurizio Sarri.

Foto: reprodução – O excelente N’Golo Kanté é um dos pilares do Chelsea

O trio se completa perfeitamente, com Jorginho à frente da linha de defesa e Kanté adiantado ao lado do croata, posicionamento que havia gerado críticas ao técnico italiano no ano passado. Se o francês já era fundamental nessa função pela dinâmica e a capacidade de pressionar e retomar a posse de bola para o Chelsea já no campo de ataque, agora é ainda mais, por ter visivelmente evoluído na fase ofensiva, carregando, passando e finalizando com excelência. O golaço contra o Liverpool foi apenas mais uma evidência de que essa é sua melhor posição e também de que os Blues provavelmente vão manter o trio, mesmo que Kovacic não seja tão absoluto quanto os outros dois titulares.

Um meio-campo que não deve a nenhum outro quando completo pode dar a sustentação necessária para a reconstrução da defesa e do ataque. É um processo inevitável após as saídas de David Luiz, Cahill (que já era reserva na temporada passada), Hazard e Morata/Higuaín e a queda gradual de produção de Azpilicueta, Willian e Pedro. Do ponto de vista defensivo, tem sido também um processo mais doloroso, ainda que a ausência do melhor zagueiro do grupo, Rüdiger, ajude a explicar a quantidade de gols evitáveis que o Chelsea vem sofrendo.

Uma linha com Azpilicueta (ou Reece James, perto do retorno), Rüdiger, Tomori (que, assim como Mason Mount, trabalhou com Lampard no Derby County na temporada passada) e  Emerson Palmieri pode ser o caminho. Ou mesmo, alternativamente, um sistema com três zagueiros, como o utilizado para espelhar os Wolves na grande vitória do Chelsea no Molineux, o que pode abrir espaço para a presença de Marcos Alonso. Nada confiável defensivamente e tendo como uma de suas maiores virtudes o cabeceio (o que é nada comum para um ala), Alonso de alguma forma costuma ser efetivo com liberdade para atacar.

O meio-campo em breve terá o retorno de Loftus-Cheek, que pode perfeitamente disputar a posição com Kovacic. O trio ofensivo  (se de fato o 4-3-3 se consolidar com o retorno de Kanté) terá várias opções, desde um Pulisic em breve mais bem adaptado a um Hudson-Odoi de contrato renovado e voltando de lesão para provavelmente assumir a titularidade em médio prazo. O início empolgante de temporada de Mason Mount e Tammy Abraham, duas joias da academia do Chelsea que brilharam na segunda divisão, dá a Lampard a segurança necessária para seguir este caminho, sem recuar na inegociável aposta que faz nos jovens.

Uma oportunidade de ouro

O Chelsea é um clube muito vencedor nos últimos 15 anos, porém não estável. E não apenas pelas trocas constantes de comando técnico, mas também pela inconsistência de suas campanhas de uns tempos para cá. São dois títulos da Premier League em oito anos, mas este período também teve um sexto (no ano do título europeu), um décimo e um quinto lugares. Normalmente, sobretudo nos últimos dois exemplos, por trabalhos desgastados e um vestiário que não mais aceitava integralmente a liderança do treinador. Ou seja, eram “anos sabáticos” em relação a disputar o título, mas que não estavam levando o clube a lugar nenhum.

Foto: reprodução – Abraham, Tomori e Mount, jovens talentos ao serviço de Lampard

Neste momento, a impossibilidade de contratar na última e na próxima janela de transferências criou a narrativa de que, novamente, o Chelsea não tem condição de buscar o título ou mesmo a obrigação de obter uma vaga na próxima Champions League. Para um clube que se habituou a temporadas decepcionantes na Premier League de tempos em tempos, é muito mais confortável olhar para o atual cenário. O (talvez) melhor sistema de formação de jogadores da Inglaterra – e um dos melhores do mundo, nesta época em que o país revela uma promessa atrás da outra – finalmente foi alçado ao status de protagonista do futuro do clube.

É como dizem: muito pior do que contratar ninguém é contratar os jogadores errados. O Manchester United das últimas temporadas que o diga, ao precisar lidar com jogadores insatisfeitos, que não dão retorno em campo e, em alguns casos, acabam sendo emprestados em condições financeiramente desfavoráveis para o clube. O caminho para voltar ao topo é mais longo e mais difícil até de começar. No caso do Chelsea, se houver o entendimento interno de que esta temporada é uma oportunidade única para o desenvolvimento de um grupo especial de jogadores, uma chance que alguns resultados decepcionantes não podem atrapalhar, este caminho já está em andamento.

O Chelsea dificilmente contratará as peças erradas após observar James, Tomori, Mount, Hudson-Odoi e Abraham de verdade, com titularidade ou ao menos muitos minutos, durante uma temporada inteira.  O time de Lampard já é o terceiro que mais finaliza no alvo, o que mais completa dribles e, curiosamente, o terceiro que menos permite finalizações do adversário, mesmo com a defesa tendo sofrido 13 gols em apenas seis rodadas (dados do Who Scored). Há um processo em curso, e o clube precisa entender isso.

Pílulas da rodada

O que falar sobre o Manchester City? Cinco gols em 17 minutos, 8 a 0 sobre o Watford no fim. Não foi exatamente um teste para a formação com Fernandinho como zagueiro, até porque coletivamente o time não deu brecha para ter a defesa pressionada. No próximo fim de semana, obviamente ainda sem Stones e Laporte, o time de Guardiola enfrentará um Everton em crise no Goodison Park. Apesar do péssimo momento do time de Marco Silva, que vem de derrota em casa para o Sheffield United, provavelmente será uma oportunidade de observar melhor na Premier League (já que a situação também foi vivenciada na Champions, contra o Shakhtar) como o time lidará com o fato de ter apenas um zagueiro “sênior” à disposição – e de ele ser Otamendi.

Foto: reprodução – O Manchester City na goleada de 8×0 sobre o Watford

Para quem se acostumou, com certa dose de razão, a referir-se à categoria “técnicos ingleses” como um grupo homogêneo de profissionais que adotam as mesmas práticas e têm as mesmas limitações, está na hora de mudar o discurso. Cheio de desfalques, o Brighton de Graham Potter visitou o Newcastle de Steve Bruce e, embora tenha empatado por 0 a 0, deu uma aula de controle de jogo. Com notáveis 71% de posse de bola, as Gaivotas vão lamentar muito a ineficiência de um ataque que criou várias situações especialmente no primeiro tempo. Potter está dando chance a jovens que até há pouco nem imaginavam que jogariam regularmente na Premier League, e seu time já é um dos mais interessantes de se ver, pela lucidez com que constrói suas jogadas desde a defesa. Junto a Eddie Howe e Frank Lampard, ele definitivamente não merece, a não ser por sua nacionalidade, o mesmo rótulo atribuído a técnicos como Sam Allardyce e o próprio Steve Bruce.

Comentários

Jornalista, acompanha a Premier League desde o auge da rivalidade entre Arsenal e Manchester United. Viu o número de grandes equipes aumentar e o campeonato se globalizar por meio da qualidade de um espetáculo que é ótimo até quando o jogo é ruim. Escreve aqui para registrar algumas das ideias que aparecem durante as rodadas.