Top 6? O Leicester pode desafiá-lo neste e nos próximos anos

  • por Daniel dos Santos Leite
  • 12 Dias atrás

Uma temporada  isolada nem sempre é suficiente para avaliar o estágio de um time. O 2015-16 mágico do Leicester, que terminou em título também porque quase todos os grandes clubes viviam um momento de transição, não refletia precisamente as perspectivas para os anos seguintes. É claro que os torcedores não se importam com isso e certamente se lembrarão mais da campanha de Claudio Ranieri do que de qualquer outra nas próximas décadas. No entanto, o clube está em uma posição melhor agora do que há quatro anos, quando contava com vários jogadores que não seriam titulares hoje, considerando a qualidade à disposição – para mencionar alguns, Simpson, Huth, Drinkwater e Okazaki.

Hoje sob administração de Aiyawatt Srivaddhanaprabha, que herdou a posição do pai, o Leicester não tomou boas decisões depois de levantar a taça, em 2016. As contratações feitas imediatamente após o título desapontaram, em especial Slimani e Musa: juntos, eles foram £12 milhões mais caros do que Kanté, que nem preço deveria ter, mas inevitavelmente foi vendido ao Chelsea. Por outro lado, é justo dizer que o título teve um papel importante também do ponto de vista mercadológico ao elevar o patamar do elenco e da imagem do clube, cujo redimensionamento foi suficiente para atrair vários jovens promissores em janelas seguintes.

Foto: Leicester Oficial – Tielemans e Vardy são pilares deste time

Esse movimento começou ainda na temporada pós-título, esportivamente decepcionante (12ª posição na liga e demissão de Ranieri) apesar da caminhada até as quartas de final da Champions League. A chegada de Ndidi, em janeiro de 2017, precedeu a contratação de Maguire, seis meses depois. Financiada pela saída de Mahrez para o Manchester City, a janela do verão de 2018 foi ainda melhor, com as aquisições de Maddison, Benkovic (zagueiro emprestado ao Celtic de Brendan Rodgers na temporada passada), Soyuncu e Ricardo Pereira, o melhor jogador do time em 2018-19.

Maguire não está mais em Leicester, mas sua transferência para o Manchester United rendeu £80 milhões, um bônus para a saúde financeira do clube. Antes mesmo de vender seu principal zagueiro a Old Trafford, o time de Brendan Rodgers já havia assegurado, por exemplo, a contratação de Ayoze Pérez e a permanência de Tielemans, que estava no King Power Stadium desde janeiro, emprestado pelo Monaco. Transformando estrelas em dinheiro e dinheiro em equipe competitiva para hoje e amanhã, os Foxes têm o projeto mais interessante da Inglaterra fora do Top 6.

Fora do Top 6? Há controvérsias. O Leicester venceu o Bournemouth por 3 a 1 no último sábado e assumiu a terceira posição da Premier League. É claro que a tabela hoje não importa tanto, mas há indícios de que a evidente divisão entre seis grandes e os outros 14, que dá o tom do campeonato desde 2016-17, está ameaçada. É consenso apontar as fragilidades de Manchester United e Chelsea, ambos novamente em transição por diferentes motivos, e a evolução de Leicester, Everton e Wolves.

Desses três, os Foxes têm o trabalho menos longevo: Brendan Rodgers substituiu Claude Puel  no fim de fevereiro, com o objetivo de tornar mais flexível e capaz de jogar com a bola um time que contra-atacava bem, mas sofria contra defesas fechadas. A mudança foi perfeitamente adequada às características do elenco, recheado de bons meio-campistas. A eles, Rodgers ainda acrescentou nesta temporada Praet, ex-meia da Sampdoria, além de já ter garantido a renovação do contrato de Choudhury.

Foto: Leicester oficial – O Leicester venceu o Bournemouth por 3×1

Havia questionamentos sobre a adaptação de Vardy a um modelo mais baseado em posse, mas ele continua sendo acionado em velocidade em transições rápidas. É um hábito que o time não perdeu quando encontra espaço. Maddison – com toda a justiça, convocado para a seleção inglesa – e companhia oferecem ao atacante a chance de correr, conduzir a bola se necessário e finalizar, situação em que ele ainda é um dos melhores da Premier League.

Rodgers tem tirado o melhor de Vardy: 11 gols nos 14 jogos de campeonato sob seu comando, o que não chega a ser uma surpresa. O melhor momento do técnico em seu trabalho anterior na Inglaterra, no Liverpool, foi repleto de gols que o atacante inglês também marcaria – à época, claro, Sturridge, Sterling e Suárez aproveitavam as oportunidades quando lançados em velocidade. O Leicester, até para não desperdiçar as características mais marcantes do artilheiro, também é um time vertical quando tem chance.

Naquele 2013-14 do Liverpool, o foco de Rodgers era a dupla de ataque, a tentativa de extrair tudo o que Sturridge e Suárez pudessem oferecer. Do sistema com três zagueiros no início do campeonato ao losango no meio-campo no fim da temporada, o mais importante era deixá-los confortáveis em campo. Cada vez mais, guardadas as devidas proporções e as diferenças entre os jogadores, Maddison e Vardy parecem merecer a chance de serem os pontos centrais do ataque, o que já aconteceu contra o Bournemouth.

Nas rodadas iniciais, Rodgers usou Maddison e Ayoze Pérez como meias abertos, mas que centralizavam para abrir o corredor aos laterais ofensivos. No sábado, Maddison atuou com total liberdade por dentro, com Albrighton e o bastante promissor Harvey Barnes nas pontas. A origem do terceiro gol é uma combinação entre Maddison e Vardy, que termina em assistência de Tielemans para este último. Contra o Sheffield United, Maddison fez um lançamento espetacular para Vardy marcar o primeiro gol. É provável que, se os dois continuarem decidindo, Rodgers não limite a chance de eles jogarem livres e se associarem, porém há várias possibilidades de sistema.

Até porque o meio-campo do Leicester tem quase tudo: intensidade e recuperação de bola com Choudhury (21 anos) e Ndidi (22), passe e dinâmica com os belgas Tielemans (22) e Praet (25) e criatividade e poder de decisão com Maddison (22). Todos ainda com margem de melhora, assim como os defensores Benkovic (22), Soyuncu (23), que até agora substitui Maguire em alto nível, Chilwell (22) e Ricardo Pereira (25). O Leicester do presente já é capaz de incomodar o Top 6, mas o do futuro é ainda mais poderoso, seja preferencialmente  pelo desenvolvimento desse núcleo de jogadores jovens ou pelo valor crescente de mercado de cada um deles.

Para esta temporada, a maior ressalva é a ausência de substitutos confiáveis para Vardy, já que Iheanacho, contratado por £25 milhões há dois anos, não justificou a aposta. Ayoze pode ser chamado a atuar como centroavante na ausência do artilheiro. Outro que precisa evoluir é Demarai Gray, que esteve na metade final da campanha do título em 2015-16 e sofre com alguma inconsistência. Especialmente para o sistema utilizado contra o Bournemouth, com Maddison centralizado e dois pontas, ele poderia ganhar espaço como uma opção mais incisiva do que Albrighton, outro remanescente do título inglês.

Pílulas da rodada

No confronto entre rivais do Leicester para ser o “desafiante” do Top 6, o Everton superou os Wolves por 3 a 2. Para os Lobos, que ainda não venceram, fica a sensação de que a necessidade de conciliação com a Europa League será um grande desafio. Mesmo num jogo tão importante para a tabela, Nuno Espírito Santo poupou os dois alas titulares (ainda que Adama dê sinais de que pode tomar a posição de Doherty pela direita), João Moutinho e Diogo Jota. No Everton, que ainda espera pela adaptação de Moise Kean, a boa notícia foi a participação decisiva dos “pontas”, especialmente Richarlison, que marcou seus dois primeiros gols na liga com finalizações de almanaque.

No Dérbi do Norte de Londres, que terminou empatado por 2 a 2, destaque para os contra-ataques do Tottenham e a decisão de Unai Emery de escalar pela primeira vez o trio de ataque com Pépé à direita, Aubameyang à esquerda e Lacazette centralizado. Para compensar a presença dos três, Emery trocou Ceballos por Torreira, tentando mais ou menos repetir o que Klopp faz no Liverpool com três meio-campistas que pressionam muito e dão equilíbrio à equipe para permitir a escalação de três atacantes incisivos. Erros defensivos quase colocaram tudo a perder, e o time melhorou com a entrada de Ceballos no segundo tempo, mas vale prestar atenção ao que o treinador espanhol fará nas próximas rodadas. O trio deve justificar, por desempenho, a titularidade, mas como alcançar o melhor equilíbrio em partidas difíceis? O fato de Aubameyang ter marcado logo após ser deslocado para a posição de centroavante (Lacazette havia pedido substituição) também é um fator importante.

O melhor jogador do Liverpool no início da temporada é Roberto Firmino. Na vitória fora de casa por 3 a 0 sobre o Burnley, o atacante e meio-campista brasileiro novamente exerceu várias funções em cerca de 80 minutos e foi decisivo, com assistência e gol. No lance que sacramentou a vitória, foi o arco para lançar Salah e a flecha para aproveitar a bola que escapou dos pés do egípcio. Fabinho também teve atuação impressionante e, após o jogo, foi comparado por van Dijk ao “Inspetor Bugiganga”, “com suas pernas que vão a todos os lugares”. O ex-volante do Monaco protege a defesa e por várias vezes garante que o time continue no campo de ataque ao interceptar tentativas de saída rápida do adversário.

Comentários

Jornalista, acompanha a Premier League desde o auge da rivalidade entre Arsenal e Manchester United. Viu o número de grandes equipes aumentar e o campeonato se globalizar por meio da qualidade de um espetáculo que é ótimo até quando o jogo é ruim. Escreve aqui para registrar algumas das ideias que aparecem durante as rodadas.