A nova e promissora dupla de meias do Barcelona

  • por Victor Mendes Xavier
  • 2 Meses atrás

Não importa para quem, onde e por que, mas, anualmente, cada eliminação do Barcelona na Liga dos Campeões da UEFA gera uma discussão previsível: o estilo de jogo está desgastado. Mas por que está desgastado? Porque o time perdeu a capacidade de colocar em prática com intensidade o “tiki-taka”. Mas por que perdeu essa capacidade? Porque não tem meias de qualidade para decifrar os problemas. E, aí, vira um ciclo vicioso que empobrece o debate. É uma meia verdade, de fato. Não que o Barça tenha jogado, nos últimos anos, algo próximo do que fez o clube ganhar sucesso e definir como filosofia. Pelo contrário: o distanciamento com esse modo de jogar é evidente, dentro e fora das quatro linhas. E, nisso, as contratações para o setor de meio-campo não condizem com a (antiga?) realidade particular barcelonista.

No entanto, o oscilante início de temporada da equipe treinada por Ernesto Valverde vem abrilhantando os olhos dos mais saudosistas (ou a ala mais “cruyfista” da torcida) por um motivo em específico: a formação que coloca, no centro do campo, Frankie De Jong e Arthur Melo lado a lado. Respectivamente aos 22 e 23 anos, o holandês e o brasileiro são duas das principais notícias dos culés e mostram um entendimento que, logicamente, ainda vai crescer. Para o Marca, o Barça tem um meio-campo para uma década. Os mais românticos fazem alusão a Xavi e Iniesta. Claro, é melhor dar tempo ao tempo e evitar qualquer tipo de comparação, mas o Barcelona já acena com o mínimo de segurança pra reter a bola quando precisar, o que faltou em Liverpool. Quando Anfield explodiu e impulsionou os Reds, Busquets e Rakitic agonizaram e só um determinado Vidal tentou fazer algo diferente.

Já na temporada passada, a entrada de Arthur no time foi alvo permanente de pedidos dos torcedores. Valverde iniciou 2018/2019 tentando encaixar Coutinho e Dembélé com Messi e Suárez, ainda mais levando em consideração que o esquema tático do seu primeiro ano foi um 4-4-2 que explorava a criatividade de Iniesta pela ponta esquerda, e não pelo centro. Porém, o treinador, talvez inspirado no posicionamento do brasileiro durante a Copa do Mundo, com Tite, voltou ao eterno 4-3-3 culé, com Coutinho recuado, escalado como meia esquerda no triângulo de meio-campo, à frente de Busquets, e Dembélé como atacante pelo mesmo setor. Acabou não dando certo. O Barcelona ficou mais vulnerável na defesa, perdeu em vigor na marcação-pressão e, também, ficou menos “cerebral”.

 

Valverde testou Arthur entre os onze pela primeira vez contra o Tottenham, em Wembley, na segunda rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões. E como deu certo. O brasileiro mostrou personalidade, desfilou no imponente estádio e fez a equipe mostrar consistência nos momentos onde teve que assegurar a posse por um tempo maior. A adaptação já era esperada, até pela característica de Arthur, mas a demonstração de talento na estreia do camisa 8, fora de casa, ganhou análises positivas mundo a fora. Em março, Hugo Cerezo, redator-chefe do Marca, definia Arthur, em um artigo, como algo “entre Xavi e Guardiola. O próprio Xavi validou as comparações.

Reprodução: Talk Sport | Atuação de Arthur contra o Tottenham, em sua estreia como titular no Barcelona, em 2018, foi impactante

Mas havia um defeito visível: a parte física. Arthur raramente jogava do minuto 1 ao 90, e ser substituído antes dos 20 minutos do segundo tempo tornou-se cena comum, porque seu impacto no gramado diminuía na etapa final. Até por isso, o fim de temporada foi algo “frio”, com a perda da titularidade e poucos minutos no confronto supracitado contra o Liverpool. A Copa América foi irregular, mas a boa imagem na final, contra o Peru, deixava claro o potencial, ratificado pela confiança de Tite, que, no pós-Copa do Mundo, não hesita em entregar à cria da base do Grêmio um papel de importância.

A terceira temporada de Valverde no Barcelona começou claudicante porque tem sido utilizada para testar variadas opções, em especial no centro de campo, que já passou por diversos experimentos. Aleña, um dos nomes da pré-temporada e titular na primeira rodada contra o Athletic Bilbao, sequer foi convocado nos últimos dois jogos. O natural de Extremadura só repetiu uma única vez o mesmo trio de uma para outra rodada (Busquets, Sergi Roberto e De Jong atuaram contra o Bétis e Osasuna). Busquets, Arthur e De Jong também jogaram juntos duas vezes, mas em jornadas diferentes: contra o Valencia, na quarta, e depois contra o Villarreal, na sexta, ambos no Camp Nou. De Jong foi o mais utilizado de início (sete de oito vezes) e Busquets vem logo atrás (cinco). Rakitic e Vidal, que terminaram a última temporada de forma incontestável, aparentemente perderam espaço e só foram titulares em uma oportunidade.

Tabela com o trio de meias que começou jogando em cada uma das oito rodadas do Campeonato Espanhol 2019/2020

Como se vê, o holandês é inquestionável e já foi escalado nas três posições da medular. Atualmente, sua “preferida” é a meia esquerda, diferentemente dos tempos de Ajax, quando era primeiro volante e tinha total liberdade para se movimentar por onde quisesse. Em entrevista ao Periódico (leia na íntegra clicando aqui), há um mês, o jovem explicou as diferenças táticas entre seu antigo e atual time:

no Ajax eu jogava de volante, assim como na Seleção. Mas é diferente porque tinha um outro volante ao meu lado (o Ajax jogava num 4-2-3-1). Na pré-temporada e na primeira partida da Liga com o Barcelona joguei de primeiro volante. Depois, contra Bétis e Osasuna, fui adiantado para ser meia. […] Ajax e Barcelona praticam o mesmo estilo de futebol existem nuances táticas: o fato de jogar ou não com dois volantes, a forma de pressionar… mas não são diferenças tão grandes“.

Foto: Site Oficial do Barcelona | De Jong comemora gol marcado contra o Valencia. Holandês é titular indiscutível para Valverde

De fato, no Barcelona, De Jong atua “estático”. Se, no Ajax, ele iniciava a saída de bola recebendo de um dos zagueiros ou até mesmo no goleiro, conduzia e tocava para um companheiro mais à frente e recebia a pelota de volta, na Catalunha o camisa 21 aguarda em primeiro lugar Busquets e depois Arthur, para que, aí sim, comece a construir as jogadas. Se dá a impressão de estar sendo subutilizado, De Jong apresenta números no mínimo interessantes: 94% de acerto no passe, com uma média de quase 80 toques por partida, e 86% nas bolas invertidas. O impressionante é a seguridade em situações teoricamente complicadas. Se pressionado por mais de um rival, De Jong escapa e dá à equipe um leque opções para atacar.

As recentes atuações de Busquets mantém uma incógnita sobre até que ponto ele “atrapalha” ou “ajuda” o crescimento dos jovens. Acontece que falta um volante de origem para atuar à frente a defesa. Por mais que possa fazer a função, De Jong não deve ser aproveitado ali. Certamente, os testes de Valverde continuarão. Enquanto isso, a parceria entre De Jong e Arthur se estende também para fora de campo. Volta e meia um elogia o outro nas redes sociais. Entre os culés o carinho é grande vindo das arquibancadas. Até porque a torcida carecia de uma dupla de maestros depois de tudo que presenciou com Xavi e Iniesta. Daqui a duas semanas, o Barça recebe o Real Madrid, de Kroos e Modric. O duelo pela bola será incessante e o poderio da dupla barcelonista terá um teste de maior valor.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.